
Marina Mole (Créditos: Karin Santa Rosa)
Marina Mole inventou um anjo chamado Azucrim, e assim foi nomeado o álbum que a artista brasiliense radicada em São Paulo lançou pelo selo Café8 Music.
“Eu precisava criar algo maior do que eu, um alter ego, algo que me permitisse fazer uma travessia pessoal”
O trabalho conta com 10 músicas compostas ao longo de quatro anos entre Brasília, diversas cidades de Portugal – onde viveu por dois anos – e São Paulo, onde foi gravado em fita de rolo por Beeau Gomez. Nas faixas, Marina é acompanhada por cleozinhu (bateria e backing vocal), Lucas Monch (baixo) e Vitor Wutzki (guitarra e backing vocal), que foram responsáveis pela criação dos arranjos ao lado da artista.
“Azucrim vem de azucrinar. Nessa história inventada, o anjo perturba Deus por sua postura remota e inacessível diante dos humanos – ideia que peguei emprestada do conceito do Deus Estrangeiro, presente no gnosticismo. A partir disso, o Azucrim é ordenado a descer à Terra, pois só assim ele teria acesso ao conhecimento a respeito da existência. Ao longo desse percurso, ele experiencia as emoções humanas, e é isso que o álbum retrata: os diferentes sentimentos que todos nós precisamos vivenciar”
A sonoridade que embala o disco é influenciada por diversas vertentes do rock, como surf, garage, punk, shoegaze e no wave; e bebe de referências como Los Saicos, Jovem Guarda, Beatles, Ramones, Patti Smith, The Brian Jonestown Massacre, The Velvet Underground e The Cramps. As letras, por sua vez, refletem a relação de Marina com o movimento surrealista internacional e a leitura constante da obra do filósofo Gaston Bachelard.

Faixa a faixa de Azucrim, por Marina Mole
01. Descida – “Uma espécie de mantra introdutório, é a despedida do anjo enquanto desce pra Terra, é ao mesmo tempo um anúncio do início da viagem. O berrante que abre a faixa foi o que imaginamos como uma trombeta soando dos céus.”
02. Azucrim – “A faixa-título traz o anjo se apresentando ainda no início do percurso, cheio de dúvidas e se sentindo exilado, longe de casa. Foi composta enquanto eu ainda estava em Portugal, então é devido esse sentimento. A vibe da música é algo como um faroeste melancólico.”
03. Sonho de voo – “Essa música tem o mesmo título do primeiro capítulo do livro ‘O Ar e os Sonhos’, de Gaston Bachelard. Foi uma leitura fundamental durante o processo do álbum, não só este livro, mas toda a série sobre imaginação material. Neste capítulo a que me refiro, Bachelard reflete sobre a ideia do ser voante com alma de sonhador, e isso me impactou profundamente. A sonoridade da faixa tem muita influência dos Beatles, é só reparar nas viradas de bateria. Foi escrito junto com o Leo Fazio.”
04. Luneta Azul – “Aqui temos o momento da paixão, dos emocionados. Foi a primeira música a ser composta, em 2022, e também o primeiro single a ser lançado. É o lado mais solar do álbum, onde o surf rock brilha.”
05. Coração Remendado – “Em seguida, a paixão já deu errado. Risos. Coração Remendado é um diálogo com a letra de ‘Coração Imprudente’, do Paulinho da Viola, trazendo conceitos da psicanálise como a ‘construção do self’. Os backing vocals são inspirados em ‘O Telegrama (Western Union)’, de Paulo Diniz. Esse é o bailinho punk do álbum. Um casamento entre Ramones e Jovem Guarda.”
06. Alô, tudo bem? – “Fiz essa letra enquanto tocava com meus amigos Hugo Rangel e Fred Fernandes em Brasília, em 2022. Ela tem esse nome porque é como se eu estivesse ligando pra alguém pra falar tudo que digo na música, mas a ligação nunca aconteceu de verdade. Risos. Também é um bailinho.”
07. Cidade ou estrela – “Foi inspirada em poemas do livro ‘Uma faca nos dentes’, do surrealista português António José Forte. Quando li essa expressão ‘cidade ou estrela’ senti que tinha tudo a ver com a ambientação da história do Azucrim. É uma música sobre continuar, apesar das perdas, sobre acreditar no amor.”
08. Slowdancing – “O lado mais no wave do disco, com poesia, experimentação e o mesmo sentimento de que continuar é preciso. É sobre seguir andando, sobre barganhar com o desejo. Traz uma parceira com meus amigos poetas e companheiros do movimento surrealista internacional: Guilherme Ziggy e Leonardo Chagas. Foi o segundo single do disco.”
09. Terrível – “É uma das minhas preferidas, tem muito mistério, poderia ser a música tema de um personagem do David Lynch. Simbolicamente, o eu lírico fala de um lugar pretensioso perante o passado, como se fosse possível deixar tudo para trás por causa da dor que causa uma sensação terrível. Mas, na verdade, é preciso lidar com o desconforto.”
10. Fúria leve – “Essa é a faixa mais shoegaze do álbum, e tem influência de The Brian Jonestown Massacre. A letra foi inicialmente inspirada por poemas do livro ‘Altazor’, do modernista chileno Vicente Huidobro. Acho que ela finaliza o álbum com uma mensagem importante. O anjo não encontra resolução, mas se entende com as próprias dores, com os erros, aceita que a vida é isso mesmo: uma busca. Eu estava em Portugal quando a escrevi e o refrão foi influenciado pela maneira como eles falam com ênclises: ‘Ama-me, fale a minha língua. Suja-me com a sua vida.”
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