
Redd Kross se apresentou pela primeira vez no Brasil no último sábado. Foto: Matheus Machado/@matheusp/Musicult
Menos de vinte e quatro horas após a exibição do documentário biográfico na Cinemateca pelo festival In-Edit, os irmãos Jeff e Steven McDonald transferiram o culto ao Redd Kross para o Cine Joia, que serviu como o cenário ideal para uma banda cuja identidade visual e sonora é profundamente ligada à cinefilia.
A estreia da banda no Brasil, realizada no último sábado (26), funcionou menos como uma mera escala de turnê e mais como um manifesto de sobrevivência da linhagem do rock alternativo, com articulação entre as produtoras Maraty e Powerline, à comemoração da maioridade do festival de documentários musicais e aos 40 anos da loja de discos London Calling que, além de formar gerações de amantes de música, ainda sediou uma tarde de autógrafos com o grupo de power pop.
Para a abertura da noite, o guitar do Twinpines se uniu ao stoner rock do duo Alphawhores, estabelecendo o tom diverso do evento. Noite essa que também contou com uma discotecagem comandada por Flávia Durante, idealizadora do Baile do Bowie e da festa Oye en Espanhol, entre um show e outro. Sets diretos, energia contagiante e até um stage dive quase mortal foram apenas alguns detalhes de tudo o que estava por acontecer quando a energia entre palco e público pareceu agir como um cataclisma, desembocando em uma catarse compartilhada e em um dos shows mais memoráveis do primeiro semestre através de um amor pela música, e usar a palavra amor, nesse caso, talvez seja o maior eufemismo do ano.
Em relação ao show principal, era como ver dois garotos ainda desbravando o underground de outrora com seus instrumentos personalizados, um completando o outro, mas com a bagagem extensa e os cabelos brancos marcando a passagem do tempo. Desde os dias de Clorox Girls, da vida ensolarada, de serem enxotados dos clubes após tocar e de serem apadrinhados por gigantes do hardcore punk, já se passaram 47 anos e nesse tempo “pequeno”, construíram uma discografia que não se prende a regras nem ao enlatamento da autenticidade, influenciando tantas
O começo da festa
Twinpines entrou no palco pontualmente, sem tempo para muita introdução, representando muito bem o underground paulistano. Nos inferninhos e espaços alternativos desde 2003, o grupo trouxe um espectro mais indie noventista para o palco, sustentado pelas guitarras e vozes de Leo Scriptore, Bruno Monstro e Alê Evans, com Magoo Félix no comando da bateria. Quem chegou cedo e não quis perder um minuto dessa festança foi bem recebido pelo quarteto, que abriu os trabalhos enquanto a casa ia enchendo aos poucos. Aliás, a identidade visual do evento já entregava a vibe da noite: foi o próprio Magoo, figurinha conhecida no circuito alternativo da cidade, quem assinou a arte viajadona do flyer do show.

No palco, essa sintonia se traduziu em melodias perfeitas para se acabar no air guitar, defendidas em um repertório de 10 músicas que passeou por praticamente todos os lançamentos da banda. O setlist resgatou desde a conhecida “Waning” e a composta para um documentário sobre a cena do skateboard “The Dream of Knife”, até uma imersão nas faixas do álbum Niagara Falls, de 2010, como “Two Numbers Away”, “Trick Little Question” e “Every Interstate”. Houve espaço até para apresentar uma faixa inédita que fará parte do disco novo, atualmente em processo de composição, antes do encerramento com “Daughter of a Father of an Only Son”.
Já nos intervalos entre os shows, Flávia Durante ficou a cargo de não deixar a música parar, tocando desde o power pop e o rock clássico de Big Star e Cheap Trick, até o indie noventista e o britpop de Dinosaur Jr. e Elastica. Outra figura carimbada da noite paulistana, a DJ e produtora também tem outros projetos, como o Baile do Bowie e a nova Oye en Espanhol, que se propõe a apresentar e juntar os fãs de música hispanohablante no Brasil.

Interrompendo a curadoria nostálgica das pickups antes mesmo do silêncio se estabelecer, o Alphawhores subiu ao palco antes mesmo do horário estipulado. O duo panamenho de stoner rock não perdeu tempo com dinâmicas de aquecimento e engatilhou um fuzz espesso e dissonante que parecia desacelerar as frequências do ambiente. No comando desse verdadeiro ataque, as viradas vigorosas e o pulso firme da baterista e vocalista Massiel Pinzón, com sua saia ígnea, fisgaram o público, que ainda preenchia os espaços da casa, para uma atmosfera consideravelmente mais densa e soturna. Em conversas paralelas, alguns fizeram a comparação de que parecia um The Kills invertido, outros lembraram do som desértico de Josh Homme e sua trupe. Ambos estavam certos, mas com o adendo de que o som também flertava um tanto com o metal.
Desprovido de qualquer iluminação cenográfica ou artifício visual, o show dependia inteiramente do impacto físico de suas músicas, equilibrando o material do novo álbum, You Can Come Out Now, como ”Bloodsports” e ”Over and Over”, assim como ”Same Team”, do primeiro disco. Poti batia cabeça com seus cabelos brancos, tirando um som pesado com sua pedaleira estrategicamente posicionada em cima da caixa de som. Para quem preferia justamente uma atmosfera mais próxima para testemunhar esse impacto, felizmente eles também levaram esse repertório para o Bar Alto no dia seguinte.
Adentrando uma fantasia multicolorida
Existem coisas que não dá para ignorar. Uma delas é quando alguém, visivelmente emocionado e de forma aleatória, te cutuca para ver se você está tão empolgado quanto ela. Esse foi só mais um dos vários episódios desse tipo que ocorreram enquanto o show do Redd Kross se desenrolava e dissicava sua verve para o público. Não de uma forma violenta, não é nada disso, mas como se estivessem com uma faca não tão afiada mostrando todas as suas nuances. Assim que você entendia o que estava acontecendo, eles já estavam em outro lugar, como uma fantasia multicolorida e tudo o que você podia fazer era tentar seguir a música com o corpo e a mente, tão acostumados com o maniqueísmo sociocultural vigente. A energia era tão contagiante, de ambos os lados, que na segunda música todos já estavam suados, embora ninguém parecesse minimamente cansado.
O som que ecoava das PA’s era romântico, punk, pateta, anárquico, performático, nerd e pop… e tudo isso no talo, sem quaisquer deslizes técnicos ou interrupções. Mesmo quem não conhecia tanto assim a discografia da banda se empolgou e, após a euforia, ficou com uma incógnita estampada bem no meio da testa, se indagando sobre o que era aquilo e como descrever aquele sentimento. Aí é que mora toda a graça do grupo. Eles são uma anarquia ambulante, e nesse caos ensolarado dos irmãos Jeff e Steven McDonald, você conseguia sentir um romantismo à beira da hiperatividade, brincando com concepções e, claro, com o nosso cérebro enquanto o fuzz irradiava das guitarras e a luzes da casa rebatiam em seus terninhos respingados de tinta.

É a tal da coisa ‘’hippie-punk-rajneesh’’, como já cantou Os Replicantes, mas pode adicionar mais ingredientes nesse caldeirão, com a completa sinergia entre os irmãos, que se complementavam e se divertiam genuinamente no processo, contando ainda com o pulso firme de Dale Crover (ex-Nirvana e atual Melvins) na bateria e pelo complemento e empolgação ímpar de Jason Shapiro na guitarra base. Não era surpresa a ansiedade para vê-los ao vivo, especialmente após o cancelamento do show que nunca aconteceu em 1994, quando pegariam carona com os Ramones e o Stone Temple Pilots. Falar que eles se redimiram seria puro simplismo. Enquanto relembrava essa história no palco, Steven soltou um “então vamos fazer cada minuto contar”, e eles fizeram isso de forma louvável.
Com um repertório generoso de 26 músicas, os irmãos McDonald extrapolaram todas as expectativas e, como prometido por Jeff, houve surpresas. De repente vinha um pandeiro que se quebrou em algum momento, de repente o tom mudava e, do nada, Dale Crover amassava a sua bateria de um jeito que parecia que o instrumento estava pedindo arrego só para nos minutos seguintes diminuir o ritmo. Enquanto Jeff assumiu seu posto principal na guitarra, garantindo o peso distorcido da noite e muitas ”caras e bocas”, embora em alguns momentos ele tenha deixado ela de lado para focar puramente na performance à frente do palco, criando uma harmonia em uníssono com os fãs.

A trupe tocou desde faixas de seu mais recente álbum homônimo até velhas favoritas do público, como “Lady in the Front Row” e “Annie’s Gone”, esta última com Jeff se cobrindo com um xale animal print e fazendo movimentos performáticos fantasmagóricos só para enfatizar ainda mais o refrão. Teve também a clássica dos tempos de MTV, “Jimmy’s Fantasy”, e o fechamento do primeiro bloco com a homenagem à demoníaca Linda Blair se costurando a solos de “I Want You (She’s So Heavy)”, dos Beatles. Essa não foi a única releitura da noite, que também contou com a mística “I’ll Blow You a Kiss in the Wind”, canção de Tommy Boyce e Bobby Hart (responsáveis por hinos dos Monkees como “I’m Not Your Steppin’ Stone” e eternizada no sitcom A Feiticeira). Foi nesse momento, inclusive, que um balão de coração – que parece ter virado um prop cenográfico padrão da casa de shows – apareceu em cena novamente. Para completar os covers, entregaram uma versão aceleradíssima da esperançosa “I Won’t Be Long”, também do Fab Four. E é difícil escolher um ponto alto, pois seria muito simplista apelar para os hits mais conhecidos, já que, mesmo nas músicas mais recentes e nos covers, a banda sempre extrai algo totalmente novo, prenchendo o palco com dancinhas, interações e trejeitos únicos.

Mas foi no encore que a verdadeira surpresa aconteceu. Se você olhasse o setlist colado no chão do palco, nem imaginaria o que estava por vir. Desculpe hermanos, vocês podem ter o Messi, mas os brasileiros tiveram isso aqui. Eles voltaram e começaram a desfiar as origens da banda praticamente na íntegra. Em uma sequência veloz e avassaladora, mandaram “Annette’s Got the Hits”, “Clorox Girls” e mais quatro músicas brutas de seus primeiros anos de estrada, em um verdadeiro atropelo lírico e instrumental para lembrar a todos o poder de suas raízes.
No fim, o Redd Kross provou ser o antônimo perfeito da caretice e das fórmulas engessadas do que a música deve ser. Talvez o aspecto mais interessante deles, para muito além de toda a cartilha de marketing de quem os idolatrava no passado, seja o fato de que, mesmo após todo esse tempo, eles ainda guardam aquele sentimento puro de ‘’Peter Pan na Terra do Nunca’’ pela música. E, fazendo uso da licença poética: como foi bom bagunçar, pular, se descabelar com o Redd Kross e comemorar a resistência de quem faz o circuito de música alternativa continuar girando, a pleno vapor.



