
Trash No Star (Créditos: Samuel Barbosa)
Após mais de uma década entre mudanças, interrupções e reconstruções, a Trash No Star apresenta Existir é Resistir, seu novo EP.
O trabalho reúne sete faixas e sintetiza não apenas a identidade sonora da banda, mas também a experiência de permanecer criando música no cenário independente em meio às dificuldades impostas pela vida cotidiana.
Existindo e resistindo desde 2010: o caminho da Trash até aqui
“Abaixo de qualquer estrutura/ estamos eu e você/ Tentando respirar/ Tentando sobreviver/ Sobre esse monte de nada”
Trecho da faixa-título de Existir é Resistir
Formada em 2010, na Baixada Fluminense (RJ), pelo casal Letícia Lopes (guitarra e vocal) e Felipe Santos (guitarra e vocal), que já tocavam juntos desde a adolescência, a Trash No Star construiu sua identidade inspirada pelo underground norte-americano do fim dos anos 1980 e início dos anos 1990.
Influenciada por nomes como Sonic Youth, Babes in Toyland, Mudhoney e Dinosaur Jr., a banda combina punk, lo-fi, noise rock, guitarras distorcidas, microfonias e melodias marcantes, explorando estruturas pouco convencionais e mantendo uma abordagem DIY em suas gravações.
A formação atual reúne Letícia e Felipe, além de Hanna (baixo) e Bernardo (bateria). Hanna passou a integrar a banda após uma longa parceria construída também fora dos palcos, tornando-se parte fundamental da história que culmina neste lançamento.
Grande parte dessa trajetória foi atravessada pela Motim, casa cultural criada inicialmente por Letícia e posteriormente construída coletivamente ao lado de Hanna. Entre 2016 e abril de 2024, o espaço promoveu shows, encontros e fortaleceu o protagonismo de mulheres e pessoas LGBT+ na cena independente do Rio de Janeiro, estabelecendo conexões com artistas de todo o país.
Durante quase oito anos, a gestão da Motim ocupou boa parte da rotina das integrantes. Entre trabalho, estudos, maternidade, deslocamentos pela cidade e a manutenção diária do espaço cultural, o EP lançado nesta semana foi sucessivamente interrompido, retomado e reconstruído. Somente após o encerramento das atividades da casa foi possível dedicar-se integralmente à finalização do disco.
Essa experiência aparece diretamente nas composições. As sete músicas abordam a vida entre opressão e sobrevivência, refletindo sobre a busca por espaço para amar, respirar, criar e continuar sonhando diante das violências estruturais que atingem pessoas pobres, trabalhadoras, periféricas, pretas, mulheres e dissidentes.
“Breath, turn youself in light/ Releaf from this battle fight/ Try to catch the sun/ Hold and then run”
Letra da faixa “Catch the sun”
O título do EP nasce justamente dessa vivência. Existir é Resistir não propõe uma mensagem de otimismo simplista nem romantiza a superação: pelo contrário, parte da compreensão de que permanecer vivo, produzir arte e imaginar outras formas de existir já constitui um ato de resistência, mesmo quando desistir de alguns caminhos também se torna necessário para continuar sobrevivendo.
O disco também preserva marcas importantes da história da banda. Safira, ex-integrante da Trash No Star, gravou todas as baterias do EP, enquanto Eden, também ex-integrante, participou registrando as guitarras da faixa “Medo”. A produção foi assinada pela própria banda em parceria com Leo Moreira “Shogun”, responsável também pela mixagem e masterização. As baterias foram gravadas no estúdio Audio Rebel, enquanto guitarras, baixos e vocais foram registrados de forma caseira por Letícia, preservando o caráter íntimo, urgente e essencialmente DIY do trabalho.
E Hanna também colaborou com a criação da capa do EP:

O lançamento acontece pelo selo independente Efusiva, criado por Letícia e Hanna, agora em parceria com a Alterego. A união reforça uma característica presente desde o início da trajetória da Trash No Star: a construção de redes independentes de afeto, colaboração e circulação artística como alternativa às desigualdades e à precarização que marcam a cena musical brasileira.
Mais do que um novo disco da Trash No Star, Existir é Resistir documenta uma história construída ao longo de mais de 15 anos. Um disco que transforma deslocamentos, maternidade, trabalho, militância cultural e permanência em música, reafirmando que continuar criando, apesar de tudo, também é uma forma de resistência.
Relembre aqui o single “Bobagem” e o relançamento de Single Ladies, pela Trash no Star



