
Kanye West foi um dos artistas afetados pelos vazamentos de discos na internet. Foto: Dan Steinberg/ASSOCIATED PRESS
Na virada para a década de 80, no auge dos discos de vinil, um estudante alemão chamado Karlheinz Brandenburg assumia uma difícil tarefa que já estava em aberto há anos: encontrar uma forma de transmitir música em alta qualidade por linhas de telefone. Anos depois, os estudos teriam como resultado a criação do formato MP3, o ponto de partida para a explosão da pirataria na indústria musical, um movimento que quebrou grandes impérios e mudou a forma como o áudio é consumido pelos ouvintes.
Essa é uma breve síntese sobre o livro “Como a música ficou grátis: O fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria”, escrito pelo jornalista Stephen Witt, que documenta toda a linha do tempo entre os primeiros passos do MP3 até os vazamentos de álbuns de grandes artistas já nos anos 2000.

O MP3 e sua revolução no mundo do áudio
Voltando para a história, primeiro, é preciso entender qual foi a estratégia de Brandenburg e da sua equipe para alcançar o seu objetivo: a psicoacústica, um campo que mistura o estudo do som com a maneira como o nosso ouvido recebe e processa o áudio.
Teoricamente, os humanos são capazes de escutar frequências entre 20Hz e 20kHz (20 mil Hz). Tudo o que está abaixo de 20Hz é chamado de infrassom, que, apesar de não poder ser escutado, pode ser sentido por meio de vibrações, enquanto tudo o que está acima de 20kHz é chamado de ultrassom, inaudíveis na prática para os seres humanos, entretanto, alguns animais, como os cães, conseguem escutar essas frequências.
Ciente dessas informações, Brandenburg optou pela ideia de eliminar tudo o que fosse inaudível pela audição humana, já que isso não faria diferença no áudio e diminuiria o tamanho do arquivo sem causar problemas no som. Durante os testes, foi usada a taxa de compressão 1/12, ou seja, o arquivo final teria 1/12 do tamanho original, mas ainda mantendo a qualidade do áudio.
A equipe de Brandenburg não queria apenas comprimir áudio. Eles queriam eliminar do arquivo tudo que os humanos não pudessem ouvir.
Basicamente, ali surgia o esboço do MP3, que só foi oficializado em 1991 pela Moving Pictures Experts Group (MPEG), responsável por definir a padronização de formatos para arquivos de áudio e vídeo.

Naquele momento, já haviam dois formatos similares; o MP1 e MP2. Somente em julho de 1995 que o extenso nome Moving Pictures Experts Group Audio Layer 3 foi rebatizado para o simples e popular MP3, que mudaria a história da música para sempre.
A tarefa agora era popularizar o formato e convencer que aquela era a melhor forma de consumir música. O lançamento do primeiro reprodutor MP3, o WinPlay 3, foi feito ainda no mesmo ano, em setembro, e possibilitou com que fosse possível ouvir músicas a partir de computadores pessoais. A partir de então, qualquer pessoa podia ouvir e compartilhar arquivos MP3 na rede. Era um movimento que parecia inocente, mas que impactou as grandes gravadoras de forma direta dali pra frente.
Com o WinPlay3, qualquer um podia tocar música digital sem sair de casa. Isso era novo. Isso era revolucionário.
Os primeiros vazamentos na internet: o inimigo estava dentro da própria fábrica
Um grupo em específico focado nesses compartilhamentos se destacava dentro da comunidade: o Rabid Neurosis (RNS). Em atividade desde 1996, eles eram capazes de vazar álbuns de artistas grandes, como Eminem e 50 Cent, por exemplo, semanas ou até meses antes do lançamento oficial através de Dell Glover, um funcionário na fábrica de CDs da Universal Music que passou a ser um membro infiltrado do RNS dentro da indústria.
Trabalhando na fábrica, Glover tinha acesso a todos os lançamentos da gravadora. O seu processo era simples: pegar uma cópia do disco desejado, guardá-lo na fivela do seu cinto, o que fazia com que ele não fosse pego nas revistas dos seguranças, pois se o alarme soasse havia a desculpa que foi por conta da fivela da calça, e não um CD, retirar os arquivos MP3 presentes na mídia física e subir para o RNS, onde as músicas ficariam disponível para download público.
Além disso, Dell também vendia suas próprias cópias piratas de outras coisas que achava no RNS, como jogos de videogames e filmes em DVDs.
Dell Glover era um trabalhador com salário de US$12 por hora. E, ao mesmo tempo, o elo mais importante entre a maior gravadora do mundo e o maior grupo de pirataria digital da história.

O impacto da pirataria na indústria musical
A prática se repetiu por anos. Em 1999, o RNS afirmou que realizava mais de seis mil lançamentos anualmente. Os vazamentos quebraram a indústria, destruindo seus planos de divulgação para os discos e consequentemente os números de venda. Por qual motivo alguém compraria um álbum se fosse possível baixar de graça antes mesmo de ser lançado oficialmente?
O principal nome no mundo das gravadoras naquele momento era Doug Morris, então presidente da Warner – e que posteriormente também alcançaria o mesmo cargo na Universal. Ele assinou com artistas como Tupac, Eminem e Dr. Dre no maior momento do Rap, na década de 90, sendo um sucesso em vendas de discos e receita para a gravadora. Mesmo em meio à explosão do MP3, Morris seguia apostando na produção e venda de CDs, ignorando sinais da revolução digital.
As gravadoras e os seus catálogos de artistas foram pegos de surpresa pelos grupos organizados de pirataria, que causaram um prejuízo de bilhões de dólares entre o final dos anos 90 e uma parte dos anos 2000.
A indústria perdeu bilhões em receitas, e nem sabia para onde olhar. O inimigo estava dentro da própria fábrica.

O consumo de música na internet após a pirataria
O RNS permaneceu vazando discos até 2007, quando encerrou oficialmente as suas atividades. Dell Glover, sozinho, conseguiu vazar pelo menos dois mil discos da fábrica da Universal, entre eles o “Graduation”, de Kanye West, lançado em 11 de setembro daquele ano, mesma data que o disco “Curtis”, de 50 Cent. Os dois rappers rivalizavam e escolheram lançar seus álbuns no mesmo dia para batalhar no número de vendas. Apesar do vazamento de Graduation semanas antes da data oficial, Kanye venceu a disputa.

Ainda em 2007, também em setembro, Glover foi pego pelo FBI na Operação Fastlink, que visava encontrar os nomes responsáveis pelo boom da pirataria no meio musical. Ele foi sentenciado a três meses de prisão, em 2010. Sua pena foi leve por conta da sua colaboração nas investigações, ajudando a chegar no líder do grupo, apelidado de Kali.
Demorou, mas a indústria aprendeu a lidar com o digital. Em 2009, após o crescimento dos clipes musicais no Youtube, Morris criou a VEVO, uma empresa que hospedava os clipes dos artistas de gravadoras como a própria Universal e a Sony, por exemplo, e que dividia entre eles a renda obtida através dos anúncios. Com a VEVO, as gravadoras voltaram a ter alta no lucros com os videoclipes de Rihanna, Drake, Kanye West e a nova estrela pop daquela década, Justin Bieber.
A pirataria já não afetava tanto a indústria a partir da década de 2010. Plataformas de streaming, como o Spotify, a Apple Music e o Tidal, começaram a surgir e os downloads de discos em MP3, aos poucos, perderam sua força.
A indústria só conseguiu sua rentabilidade de volta quando ofereceu algo que fosse mais vantajoso que a pirataria, ou seja, um serviço acessível, prático e amplo, evitando que os ouvintes se sentissem culpados por estarem “roubando” músicas.
No fim, o consumidor não queria roubar. Ele só queria acesso. E, quando a indústria finalmente entendeu isso, a música voltou a dar lucro.



