
O Grilo. Foto: Murilo Amancio.
Em 2021, no meio da pandemia e com um sucesso rolando no TikTok, a banda O Grilo – hoje formada por Lucas Teixeira, na bateria, Pedro Martins, nos vocais, Fepa, na guitarra, e Gabriel Cavallari, no contrabaixo – apresentava ao público o seu primeiro disco de estúdio. Intitulado Você Não Sabe de Nada, o álbum formado por 13 canções foi o verdadeiro cartão de estreia do grupo, que afastou de vez o risco de ser só mais um “one hit wonder” após o estouro de “Serenata Existencialista”.
“A parte mais bizarra é que, assim, não é que a música estourou e aí veio a pandemia e brecou a situação… Meio que, por incrível que pareça, a música estourou NA pandemia, então, foi num momento em que a gente não podia ver presencialmente o impacto que isso causou”, relembra Pedro sobre aquele momento da carreira.
Cinco anos depois, já estabelecidos no cenário, com fãs, shows em grandes festivais e mais um disco, o “Tudo Acontece Agora”, dividido em duas partes com dez músicas cada, ambas lançadas em 2024, a banda anunciou uma turnê para comemorar a meia década de lançamento do “Você Não Sabe de Nada”, com apresentações confirmadas em quinze cidades, até o momento, entre maio e agosto de 2026.
No repertório, além das músicas presentes no álbum de estreia, também estarão as queridinhas do público, como conta Fepa:
“O foco é realmente contemplar também as músicas mais pedidas, principalmente nos shows, porque, às vezes, como banda, acabamos perdendo a noção de que, sim, tocamos toda semana e mesmo assim tem gente que ainda não viu nenhuma vez ao vivo, sabe? Então, obviamente, vamos colocar ‘Serenata Existencialista’, ‘Tira a Roupa’ e todas essas músicas que são as ‘queridinhas’ dos shows”.
Entre as mudanças na vida e na carreira de lá pra cá ao longo desses anos, os meninos, que antes se consideravam infelizes durante o período de faculdade, destacam que agora a banda se tornou algo maior e mais profissional, de fato um “ O Grilo CNPJ”, digamos assim, além de ter alcançado uma qualidade superior em equipamentos e equipe.
“[…] tentamos ao máximo levar bastante coisa para controlar a qualidade do show, independente se for aqui em São Paulo ou lá em Manaus, vai ter um nível mínimo que queremos conseguir entregar para as pessoas. Pra gente, desde o começo, o melhor show sempre será o próximo, e com todos esses anos de diferença entre um disco e outro, meio que a gente tentou manter essa parada até hoje”, assume Lucas.
Ao mesmo tempo em que vão estar rodando o Brasil com os shows, a banda também vai gravar seu terceiro disco. Sem pensar demais no futuro, que pode se tornar uma nova turnê ou um pequeno período de férias longe um do outro, a banda está focada no agora, já que é onde tudo acontece.
“Nós também aproveitamos os tempos de férias e tiramos férias até um do outro mesmo (risos). Essa distância é bem vinda também, né? Não tem nada mais prazeroso do que voltar de uma turnê em que ficamos quatro dias grudados e falar ‘valeu, galera!’”, conta o baterista, “a gente ama o que faz e estamos disponíveis para tudo o que pintar”, finaliza o vocalista Pedro.
Musicult entrevista: O Grilo
Danilo/Musicult: Vocês já acertaram um hit logo de cara, com “Serenata Existencialista”, que faz parte do EP de estreia da banda, o “Herói do Futuro”. Mas aí veio uma pandemia que brecou qualquer chance de shows… como foi isso para vocês?
Pedro Martins: A parte mais bizarra é que, assim, não é que a música estourou e aí veio a pandemia e brecou a situação… Meio que, por incrível que pareça, a música estourou NA pandemia, então, foi num momento em que a gente não podia ver presencialmente o impacto que isso causou. Tanto é que, por exemplo, lembro que eu nem tinha o TikTok na época, foi o [Lucas] Teixeira que falou “cara, a gente tá ficando grande”, mas achei que era pouca coisa e no final era um número firme mesmo [atualmente, é a música mais escutada do O Grilo no Spotify, com quase 50 milhões de plays]. Essa explosão se deu justamente no momento em que o disco foi lançado e foi quando realmente vimos o impacto que Serenata teve nas redes sociais. Antes da pandemia, a gente não fazia grandes shows, apesar de que teve um Lollapalooza [em 2019], que foi uma promoção de rádio, mas não foi para uma plateia expressiva por ter sido justamente na abertura do festival.
O primeiro disco geralmente chega como uma carta de apresentação ou um ponto de partida para o que será a sonoridade e identidade da banda. Como e quando vocês sentiram que tinham encontrado “o som” de O Grilo dentro deste álbum?
Lucas Teixeira: Acho que essa busca que a gente estava tendo [em relação ao processo de encontrar referências] foi a primeira semente. A partir do momento em que temos uma banda, sempre precisamos coletivizar os processos e isso foi algo que todo mundo concordou. Depois, fomos atrás da nossa própria sonoridade, que realmente já era bem diferente da do “Herói do Futuro”, porque foi um EP que a gente tinha dois integrantes a mais fazendo os arranjos, escolhendo timbres e moldando como ia soar, apesar de que éramos bem inexperientes, tínhamos uns 18 ou 19 anos, e acho que o trabalho dos produtores foi muito interventor nesse caso. Já no “Você Não Sabe de Nada”, eu já tinha me formado em música e tinha passado por muitas experiências de gravação, fazendo aulas de instrumento, procurando referências musicais, então isso estava um pouco mais natural e foi aí que veio esse lance de explorar e começar a entender qual que era a nova função, por exemplo, da guitarra dentro d’O Grilo.
Quem ajudou muito a gente também nessa viagem foi o Hugo, que foi quem produziu o disco. Ele foi um cara muito parceiro. Na época, a banda estava com pouquíssimo dinheiro, era no meio da pandemia e os estúdios não estavam funcionando, então, basicamente, pegamos os nossos equipamentos e os dele e fomos para um sítio de uns amigos em Limeira, em São Paulo, que também estavam querendo começar a fazer essa experiência de estúdio numa casa, e foi ótimo, porque a gente teve muito tempo para achar essa sonoridade. Fora essa coisa toda da imersão, já que não podia sair, então era quase que um quartel general que virou nossa vida durante alguns dias.
Pedro: Uma outra coisa que também ajudou a achar essa sonoridade é que, como você falou, isso do primeiro álbum carrega essa parada de “como é que a gente vai soar agora, já que é o nosso cartão de visita mesmo?”. A coisa começou a se encaixar no momento também que pegamos algumas máximas que levamos para o estúdio. Às vezes, vão ter momentos que, conceitualmente, você vai fazer alguma coisa muito interessante e você vai estar trabalhando nisso, mas no meio do caminho, você pode acabar esbarrando numa outra parada que seja um tema de guitarra, por exemplo, e aí se vê tipo “pô, cara, essa música ia ser uma crítica a não sei o quê, com uma base que remete a fulano de tal, mas esse tema de guitarra é bacana”. Começamos a levar isso em conta; era menos sobre uma coisa conceitual e mais sobre “essa música tá batendo para vocês? Vocês sentem alguma coisa quando vocês tocam? Então ela tá dentro!”, e isso alimentou esse laboratório que o Teixeira tá falando, já que nos permitiu ser mais experimental para fazer algumas coisas.
Você Não Sabe de Nada também é um disco muito rico musicalmente. Quais foram as principais referências musicais ou artísticas que influenciaram a construção desse álbum?
Fepa: Cara, teve um lance que rolou nessa época, que foi uma vontade inconsciente de se abrasileirar mais e ir atrás das referências de uma forma mais ativa. Teve até uma viagem que a gente fez pro Rio de Janeiro e a gente passou o Natal com a família do Pedro, lá conhecemos um monte de música que a família dele escutava e aquilo ali enriqueceu muito nossas referências musicais. A gente foi atrás de ritmos diferentes, de guitarrada, de frevo, de samba rock, funk, enfim, um pouco de tudo para fazer esse laboratório de experiências. Acho que as referências são mais em relação aos gêneros do que necessariamente artistas, mas lembro que começamos a escutar muito a galera do Nordeste também, Geraldo Azevedo, Moraes Moreira, Baiana System… e nas guitarradas, na parte mais nortista, tava trazendo referências dos mestres guitarristas, o Mestre Aldo, o Felipe e o Manoel Cordeiro, que trazem uma sonoridade que também é cubana, só que instrumental, então a gente pôde brincar com os gêneros junto com o rock.
Como funcionou a dinâmica de composição entre vocês quatro durante a criação do álbum, já que foi durante a pandemia? E como foi fazer com que essas canções, que tinham “a cara” de cada integrante, se tornassem uma música d’O Grilo, enquanto banda?
Lucas: O processo de composição do “Você Não Sabe de Nada” teve isso porque a gente estava compondo à distância, então, por exemplo, o Pedro trazia uma ideia mais completa e que não era tanto da gente, mas sim dele, sabe? Cada integrante foi trazendo suas ideias. O Hugo também estava produzindo à distância, e a pré produção, que é quando nos juntamos para tocar junto, fazer ensaio e definir as coisas antes de começar a gravar, algo que gostamos muito de fazer, dessa vez não tinha como. Isso ajudou as músicas a terem mais personalidades de um ou outro integrante, mesmo que no meio da gravação a gente consiga nivelar e tornar algo da banda. Acho que parte da beleza de você estar num projeto de grupo é esse lance de você entender que tem momentos que você pode ter tomado as rédeas de alguma parada, a música pode ter saído de um groove de bateria, de uma ideia de guitarra, de uma ideia no violão e voz… elas podem ter, como um todo, a cara de um integrante específico, mas dentro delas você consegue reparar um pouco de todos nós.
Apesar de ser uma turnê em comemoração ao disco, ele não será tocado na ordem original nos shows. Como foi o processo de montar esse repertório, que mistura faixas do álbum com músicas de outras fases da banda?
Fepa: A gente pensou primeiro em tocar o álbum na íntegra, obviamente, e aproveitar essa oportunidade para tocar as músicas do disco, mas também quisemos olhar para as outras músicas do O Grilo e, de certa maneira, pegar as que tem um pouco do “Você Não Sabe de Nada” na sua essência, tanto por uma questão temporal, por elas estarem próximas ali ao lançamento do álbum, quanto pelo estilo. O próprio “Tudo Acontece Agora” tem músicas que são da época do “Você Não Sabe de Nada”, mas que não entraram no disco porque não parecia fazer sentido, então, agora estamos olhando um pouco por esse ângulo para montar o setlist. O foco é realmente contemplar também as músicas mais pedidas, principalmente nos shows, porque, às vezes, como banda, acabamos perdendo a noção de que, sim, tocamos toda semana e mesmo assim tem gente que ainda não viu nenhuma vez ao vivo, sabe? Então, obviamente, vamos colocar “Serenata Existencialista”, “Tira a Roupa” e todas essas músicas que são as “queridinhas” dos shows.
A turnê passa por muitas cidades e regiões do país. Vocês percebem diferenças na forma como o público de cada lugar se conecta com as músicas?
Pedro: Ah, isso rola, né? “Guitarrada” em Belém foi bizarramente astronômica, foi muito foda, cara, uma das melhores experiências da vida! Assim como, por exemplo, “Ainda é Verão” bate muito pra galera de Curitiba, sabe? O público reage de formas diferentes. No Rio, a galera é mais “porra louca”, mas todos são incríveis. É essa coisa regional que muda completamente a dinâmica, desde o quesito musical até a forma como se portam no show. Uma coisa que lembro que foi um divisor de águas, para mim, pelo menos, foi fazer um show em Feira de Santana, na Bahia, há muitos anos, quando nós tínhamos uma música chamada “Terreiro” no repertório, e que, em dado momento, vira um afoxé e tem um certo ritmo de palmas que aqui no Sudeste a galera erra tudo (risos). Foi engraçado, chegamos pra fazer lá e nem precisamos pedir para que as pessoas batessem palmas, elas bateram no tempo exato. O Brasil é muito grande, só vendo pra crer, a gente adora.
Muitas cidades ficaram de fora também. Senti falta de Salvador, por exemplo, aqui na Bahia. Tem chance de rolar novas datas?
Pedro: Apesar de que, até então, é a turnê mais longa que a gente já divulgou, sempre faltam cidades por aí. Mas conseguimos adicionar algumas cidades em que nunca fomos, então vai ser bem especial. Talvez tenham mais umas duas ou três [novas datas, em cidades que não estão entre as anunciadas], vamos ver o que acontece. Nossa agenda está aberta e esse é um ano em que também vamos gravar um novo álbum, então vai ser bem movimentado. Mas é isso, a gente ama o que faz e estamos disponíveis para tudo o que pintar.
O segundo álbum, “Tudo Acontece Agora”, trouxe um universo narrativo e visual mais detalhado. O que vocês trouxeram de aprendizado, tanto em estúdio, quanto em palco, do primeiro pro segundo disco?
Lucas: O Grilo virou realmente uma empresa. Melhorou a entrega nos shows, a qualidade dos fonogramas, a qualidade dos conteúdos, enfim, a gente começou a se importar muito com tudo aquilo que estamos fazendo e temos uma organização como qualquer empresa tem; uma rotina, dias fixos de trabalho, é realmente como se fosse uma startup com cinco sócios. E em termos de shows, acho que estamos mais satisfeitos com aquilo que entregamos. Hoje temos uma estrutura de equipamentos e de equipe que a gente confia bastante e tentamos ao máximo levar bastante coisa para controlar a qualidade do show, independente se for aqui em São Paulo ou lá em Manaus, vai ter um nível mínimo que queremos conseguir entregar para as pessoas. Pra gente, desde o começo, o melhor show sempre será o próximo, e com todos esses anos de diferença entre um disco e outro, meio que a gente tentou manter essa parada até hoje.
Por último, como vocês enxergam o paralelo entre o lançamento do disco, em 2021, e a turnê, em 2026? O que mudou nesses cinco anos na carreira e na vida de vocês?
Lucas: Muita coisa. Quando a banda estava no começo, era um projeto meio maluco e só para se divertir enquanto a gente estava meio infeliz na faculdade. No final das contas, é sobre como conseguimos cuidar bem das nossas relações, isso foi o mais essencial, já que é a coisa que mais pesa quando se tem banda, e ainda bem que a gente continua fazendo isso até hoje, porque é isso que torna a parada viva e faz com que tudo tenha sentido para todo mundo. A própria relação com música acaba mudando, num primeiro momento você pode até, sei lá, fazer música porque é uma parada do seu interesse, é uma área de estudo que você gosta, mas acho que com o tempo fomos entendendo também que vira quase que uma necessidade física se expressar musicalmente. Fazemos muita coisa “brincando”, mas a brincadeira é muito séria, sabe? Esse movimento de coletivizar algo que é muito individual e ser bem recebido permite seguir fazendo o que a gente gosta e cada vez gostando mais do que fazemos, mas também entender uma dinâmica que não dá para expandir para fora da banda. Nós nos vemos praticamente todos os dias do ano, então não podemos deixar essas duas coisas se misturarem e reverberar na nossa vida. Nós também aproveitamos os tempos de férias e tiramos férias até um do outro mesmo (risos). Essa distância é bem vinda também, né? Não tem nada mais prazeroso do que voltar de uma turnê em que ficamos quatro dias grudados e falar “valeu, galera!”, todo mundo dá risada e é isso, vamos ficar uma semana meio separados, mas suave. Também faz parte da parada.
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