
BIO também faz parte dos coletivos Nomade Orquestra e Samuca e a Selva. Foto: @hoana.
Saxofonista dos grupos NOMADE Orquestra e Samuca e a Selva, BIO está incluído dentro de coletivos na cena musical brasileira há algumas décadas. Agora, o artista inicia sua carreira solo com o lançamento do single “Que Floresça”, um manifesto sobre o uso da Cannabis medicinal, a forma de tratamento escolhida por ele para amenizar as crises de epilepsia vividas desde sua adolescência.
“Chegou a um ponto em que eu fui migrando de remédio porque continuava tendo crise e comecei a tomar um medicamento que ficou uns dez anos segurando [as crises]. Já em 2020, uma semana antes da pandemia, eu fui dar um rolê de bike e tive uma crise depois de muito tempo, me ralei inteiro, quebrei uma mão, quebrei um punho, fiquei com as duas mãos engessadas… enfim, foi um período bem crítico, e foi nesse começo, quando eu ainda estava engessado, que falei ‘a cannabis é um meio, vou me aprofundar nisso, porque eu já gosto muito da planta…’”, relembra o músico.
A canção nasceu como um produto final de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre a Cannabis. Depois de ficar por um tempo na gaveta, o single foi gravado, mixado, masterizado e publicado nas plataformas digitais, além de ganhar um clipe dirigido por João Gabriel Hidalgo e Daniel Lupo, com direção de arte e roteiro de Cris Rangel.
“O clipe surgiu quando um amigo meu, o João Hidalgo chegou para mim e falou ‘BIO, tô gravando um disco e gostaria muito de ter o seu trabalho lá, o seu sopro, queria que você gravasse um sax, umas flautas e tal’ e eu falei ‘pô, vamo aí!’. Mas ele não tinha como pagar, então ofereceu uma contrapartida, que foram as filmagens do clipe. Chamamos um outro amigo também, o Daniel, que é excelente no cinema, então eu tive as mãos e os olhares mais fodas assim que poderia imaginar, fazendo esse clipe de forma independente e com custo praticamente zero! Foi tudo um grande presente, vamos dizer assim, e carrego como algo que consegui concretizar e materializar”, conta BIO.
Para o artista, a música é mais do que melodias e frequências sonoras; ela é um meio de mudar e salvar vidas. No contexto de uma composição sobre cannabis medicinal, BIO compreende que a canção pode ser um jeito mais fácil e direto de fazer com que a mensagem entre nas casas das pessoas, inclusive as mais “caretas” e “direitistas”, nas palavras dele.
“A arte sempre retrata alguma verdade necessária. Por mais que o público em geral não absorva a arte da melhor forma, há um entendimento, e acredito que a arte está presente dentro das casas mais caretas e mais direitistas que existem. Cara, não é possível alguém que não consuma música, não consuma artes plásticas e cinema, todo mundo bebe isso aí. Então, com certeza a arte entra no subconsciente, ela faz mudar, a arte é o que salva”, argumenta o saxofonista.
Agora, BIO planeja lançar mais canções autorais, montar um repertório próprio e recrutar uma banda, criando o seu próprio coletivo, que será formado majoritariamente por mulheres.
“Sempre venho dos coletivos masculinos formados majoritariamente por homens héteros, esse mundo musical é muito machista, então venho me preocupando muito com essa questão“, assume.
Musicult entrevista: BIO
Você foi diagnosticado com epilepsia e, desde meados de 2022, está sem crises. Como foi o processo de buscar um tratamento através da Cannabis medicinal e que impacto isso teve na sua vida e na sua música?
BIO: Bom, eu sempre fui usuário de cannabis e isso me ajudou muito a ser uma pessoa mais calma e mais criativa também. Nem sempre eu trabalhei somente com música, na minha história tive um filho aos 18 anos e assumi desde os cuidados até todas as questões financeiras sozinho, isso me fez ter que seguir bastante tempo trabalhando como CLT, eu era do TI, do ramo da informática e tal. Acabei migrando para música aos meus 30 anos de idade. Mas voltando à questão original, eu nasci com questões de epilepsia, mas isso foi descoberto somente na minha adolescência. Sempre fiz tratamento com remédios alopáticos, com remédios da indústria farmacêutica, o que me causava efeitos colaterais muito pesados. Chegou a um ponto em que eu fui migrando de remédio porque continuava tendo crise e comecei a tomar um medicamento que ficou uns dez anos segurando [as crises]. Já em 2020, uma semana antes da pandemia, eu fui dar um rolê de bike e tive uma crise depois de muito tempo, me ralei inteiro, quebrei uma mão, quebrei um punho, fiquei com as duas mãos engessadas… enfim, foi um período bem crítico, e foi nesse começo, quando eu ainda estava engessado, que falei “a cannabis é um meio, vou me aprofundar nisso, porque eu já gosto muito da planta…”, então entrei em contato com um médico que eu tava acompanhando pela internet, o Dr. Geovane Massa, ele é um neurologista de Salvador, contei a minha história pra ele e comecei esse tratamento com cannabis. Cara, eu voei em todos os aspectos; na cognição, na criatividade… tirou uma nuvem, sabe?
Imagino que a epilepsia mudou sua relação com o próprio corpo. Tecnicamente, como isso impactou sua forma de tocar? Como foi para você se adaptar ao controle de fôlego, à resistência física e à rotina de estudos, por exemplo?
BIO: Cara, isso nunca foi uma questão. É muito louco, né? Eu sempre tomei o meu remédio para não ter crises, que é o meu maior medo, e aconteceu o pior, que foi sofrer um acidente tendo crise. Mas eu sempre fiz as coisas e agi como se eu fosse isento disso, sabe? Quando vem as crises, lembro “é verdade, eu sou epilético, que merda!”, mas nunca coloquei isso como uma questão de fato. Sempre fui um instrumentista, toquei outros instrumentos bem lá atrás, porém, por uma grande fase da minha vida, meu instrumento principal foi bateria, onde eu extravasava e tinha muita energia também. Mas o instrumento de sopro, por ser uma questão respiratória, sempre me acalmou muito e trouxe um viés meditativo nos meus estudos e trabalhos.
“Que Floresça” nasceu primeiro como música e agora ganha força como uma obra audiovisual. Quando e como ela surgiu?
Eu toco na Samuca e a Selva, que é uma banda de música autoral. Nós trazemos muitas influências de brasilidades, se você reparar, e essa música, a “Que Floresça”, tem um sotaque, vamos dizer assim, que é um modo musical que a gente tem no sertão, que é a escala maior com a sétima menor, uma sonoridade tipo [BIO cantarola a canção “Baião”, de Luiz Gonzaga] “eu vou mostrar pra você como se dança o baião…”. O refrão [de “Que Floresça”] e o tema dos sopros foi um riff que fiz para o Samuca e a Selva durante a pandemia, acho que até antes, mas acabou não sendo usado. Aí durante o começo do tratamento, quando eu fui estudar a cannabis mesmo, fiz um curso que foi fundado pelo padre Ticão (Antônio Luiz Marchioni), que era um padre que fazia a militância da cannabis, e esse curso me explodiu a cabeça! No final, tinha que entregar um TCC, que podia ser feito de forma artística, então, o que eu fiz? Já que estava super inspirado, me sentindo super criativo, criando bastante coisa e produzindo, peguei aquele riff, transformei nessa música e entreguei como conclusão desse curso.
A canção surge a partir de uma experiência pessoal sua, mas o clipe conta com a direção de João Gabriel Hidalgo e Daniel Lupo, além do roteiro e direção de arte feitos por Cris Rangel. Como foi construir essa narrativa visual em equipe?
BIO: A música ficou na gaveta [em relação a um lançamento oficial, nas plataformas de áudio]. Eu tenho um amigo que falou “cara, manda essa música aí, vou mixar e masterizar para você”. Então foi tudo feito num esquema de amigo, porque não tinha recurso financeiro e nem nada, a gente levantou a música dessa forma. Uma grande amiga minha, a Cris Rangel, que é uma produtora incrível, gestora de carreira e também artista, me chamou e falou “vamos lançar um trampo seu!”, aí eu mostrei a “Que Floresça” e ela disse “vamos lançar essa aí!”. Ela fez todo o aporte e trabalhamos juntos no lançamento da música. Eu convidei uma outra amiga para desenvolver a arte, que, inclusive, tem as flores, só que tá tudo pixelado, isso aí tem a ver com com a ideia da música, porque o “que floresça” é como se fosse uma oração, tipo um pedido, né? A gente ainda não tem isso totalmente legalizado, apesar que de lá pra cá avançou bastante e tal, mas ainda temos muitas restrições e muita falta de conhecimento.
Já o clipe surgiu quando um amigo meu, o João Hidalgo chegou para mim e falou “BIO, tô gravando um disco e gostaria muito de ter o seu trabalho lá, o seu sopro, queria que você gravasse um sax, umas flautas e tal” e eu falei “pô, vamo aí!”. Mas ele não tinha como pagar, então ofereceu uma contrapartida, que foram as filmagens do clipe. Chamamos um outro amigo também, o Daniel, que é excelente no cinema, então eu tive as mãos e os olhares mais fodas assim que poderia imaginar, fazendo esse clipe de forma independente e com custo praticamente zero! Foi tudo um grande presente, vamos dizer assim, e carrego como algo que consegui concretizar e materializar.
Essa canção também funciona como um manifesto pela desestigmatização da Cannabis medicinal. De que forma você acredita que a arte pode abrir caminhos de diálogo nesse debate? Talvez seja um jeito mais fácil de explicar?
A arte sempre retrata alguma verdade necessária. Por mais que o público em geral não absorva a arte da melhor forma, há um entendimento, e acredito que a arte está presente dentro das casas mais caretas e mais direitistas que existem. Cara, não é possível alguém que não consuma música, não consuma artes plásticas e cinema, todo mundo bebe isso aí. Então, com certeza a arte entra no subconsciente, ela faz mudar, a arte é o que salva. No meu caso, ela tem impactos materiais. A música trabalha com ar, ela muda os seus átomos, as suas moléculas se movem por conta da música. A arte transpassa e chega a lugares inacessíveis.
A faixa propõe um paralelo entre alimento e cura, natureza e consciência. Você acha que sua música também pode funcionar como um espaço terapêutico, tanto para você, enquanto artista e compositor, quanto para quem ouve?
Na minha música, para além da cannabis, também tem muito a questão dos alimentos. Você vai comprar alimento e está cheio de ultraprocessados, o que inflama o nosso organismo, que não dá conta de digerir e processar. Isso causa mudança no humor, no temperamento e muitos outros problemas, então, eu levo essa mensagem. A cannabis é como um arroz; nasce do chão. O arroz a gente come, a cannabis a gente usa de outras formas… se você ver o clipe, ela está junto com a beterraba, com o repolho, com a couve-flor, porque é a mesma coisa! Acredito que a minha música leve não só essa mensagem, mas em questões de notas musicais, ela é feita para trazer sensações dessa forma.
Essa é sua primeira composição autoral, mas não é de hoje que você está nos palcos. Como a experiência na Nomade Orquestra e na Samuca e a Selva influenciou sua identidade musical e sua forma de pensar a arte como ferramenta coletiva? Você percebeu muita diferença entre fazer algo “sozinho”, com seu nome, e estar dentro de um coletivo?
BIO: A base da minha vida vem dos coletivos. Só tenho essa capacidade de produzir porque aprendi e aprendo demais com meus companheiros e companheiras de coletivo. Antes da Nômade Orquestra e do Samuca e A Selva, eu já era de bandas, sempre autorais, nunca toquei em cover e tal, e rodei o Brasil. Você ouve mais do que fala. Se você tem algo para contribuir, você coloca, mas tem momentos que você não precisa contribuir porque a ideia já tá ali, então você aprende a conviver dessa forma e de uma maneira saudável. Nessa forma coletiva de viver, a gente entende o que cada um pode somar, sabe? Tem um que é bom em escrever edital, outro que é bom em fazer letras, outro que arranja legal, mas sempre todo mundo participando. Eu, por natureza, sou uma pessoa ansiosa, e fazer parte de coletivos me ensinou a ter mais calma também para poder ouvir os outros e entender os processos para chegar nesse ponto de compor minha própria música.
E o que você pensa para sua carreira a partir de agora? Pretende seguir nessa linha de uma pesquisa sonora ligada à natureza?
BIO: Tenho muito interesse em lançar bastante músicas, até um disco, quem sabe… Já tenho outra música, que também é um reggae que fala de cannabis do mesmo jeito, e provavelmente vou lançar em abril. Quero consolidar um trabalho meu para começar a recrutar uma banda assim que eu tiver algumas músicas lançadas, e quero ter bastante mulheres na minha banda, porque sempre venho dos coletivos masculinos formados majoritariamente por homens héteros, esse mundo musical é muito machista, então venho me preocupando muito com essa questão. Quero que o coletivo que vou montar para tocar minhas músicas seja composto majoritariamente por mulheres. Ao mesmo tempo, tenho a Nômade Orquestra e o Samuca e a Selva, que são os meus xodós também, é algo que quero seguir com muito vigor ainda, tanto no meu projeto solo quanto nos projetos coletivos.



