
Dead Fish foi o headliner do primeiro dia do Point do Rock. Foto: Ane Xavier.
Um ano após ter atingido a lotação máxima da concha acústica do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, em Vitória da Conquista, na Bahia, o Point do Rock, festival independente de música da cidade, realizado por Rafael Leandro e Osniel Costa, seguiu apostando alto e manteve o nível em 2026.
Mais de 2 mil pessoas estiveram presentes e curtiram os shows de Dead Fish, Project46, Fuck The System e outras nove bandas locais.
Acompanhe a seguir um resumo de tudo o que rolou no sábado, o primeiro dos dois dias do festival.
Point do Rock: primeiro dia de festival
Dando início ao lineup, Geisy Meireles fez sua estreia como artista solo nos palcos. Com a missão de aquecer o público e preparar o clima pro sábado, a cantora apresentou um repertório que misturou clássicos do rock nacional e internacional, como “Máscara” e “Teto de Vidro”, da baiana Pitty, “Ando Meio Desligado”, dos Mutantes, e “Decode”, dos estadunidenses do Paramore.
Em um formato intimista, acompanhada por Velto Oliveira, no violão, Renato Sena, na guitarra, e Alemão, na bateria, Geisy pareceu não sentir o nervosismo da primeira vez e demonstrou o seu potencial vocal, até então conhecido somente em suas participações com a banda Outra Conduta. Um começo com o pé direito e que tem tudo para se tornar uma coisa ainda maior.
Um presente para os “camisas pretas” que já estavam no Centro de Cultura por volta das 16h, a Headless Queen veio com um som mais pesado, voltado pro metal. Com repertório autoral, a banda segurou a energia de ponta a ponta em sua apresentação, tanto pela qualidade sonora dos membros, quanto pela voz, carisma (e por que não loucura, no bom sentido) de seu frontman, Pengas Unlegged. O grupo se mostra como um nome para ficar de olho na cena da cidade e da Bahia.
Beth Soul, terceira artista do sábado, subiu ao palco no fim de tarde e chegou com um setlist de peso. Trazendo clássicos de diversas décadas do rock, como o hard rock dos anos 80 do AC/DC, com “Highway to Hell”, o rap rock do anos 90, nos hits “Killing In The Name” e “Bulls on Parade”, do Rage Against The Machine, e o Nu Metal do Linkin Park, em “In The End”, um marco dos anos 2000, pode-se dizer que é um repertório que realmente atravessou gerações, principalmente pela quantidade de jovens que subiram no palco e fizeram uma festa à parte, cantando com Beth e até pulando de lá em direção ao público (coragem…).

A banda Asylum seguiu com a onda do tributo, porém, totalmente dedicado ao Korn (com uma pequena, mas muito bem vinda, exceção para a música “Roots Bloody Roots”, do Sepultura, tocada em comemoração aos 30 anos do disco dos mineiros).
Considerando que a intenção de um tributo não é necessariamente imitar, mas sim trazer um pouco da sensação de ouvir ao vivo as músicas de uma banda que você gosta, os caras foram muito bem. De novo, um show à parte do público, que abraçou e viveu cada momento do show, com direito a mosh e tudo mais. Eu, particularmente, não escuto muito Korn, mas reconheci as mais famosas e parece ter sido ótimo para quem é realmente fã.

Já a Outra Conduta conhece bem o Point do Rock. A banda tocou em todas as edições até aqui, mas essa teve um gosto especial. Pela primeira vez, o grupo conquistense apresentou um repertório formado integralmente por canções autorais, que fazem parte do seu primeiro disco de estúdio, “De Doutor a Malokero”, lançado em 2025.
Quem esperava mais um show tributo ao Charlie Brown Jr não encontrou o que queria, mas achou algo ainda melhor; músicos apaixonados pelo que fazem, apostando em seu próprio som e identidade, longe de rótulos. Teve reggae, rock, hardcore, rap e até ragga, na participação de Supremo MC, que hoje faz rap, mas que tem suas raízes fincadas no subgênero que nasceu a partir do dancehall jamaicano.
Relembrando os tempos de Complexo Ragga, um coletivo que foi muito influente na região do sudoeste baiano na década passada, Supremo repaginou a canção “Sensimilla”, que dessa vez contou com as guitarras de Léo Araújo, a bateria de Alemão e o baixo de Fernando Coelho.

Headliner do sábado, o Dead Fish retornou à Vitória da Conquista após nove anos. A última vez havia sido em 2017, e muita coisa aconteceu de lá pra cá… teve o lançamento do disco “Ponto Cego”, em 2019, e o mais recente, “Labirinto da Memória”, de 2024, além do álbum ao vivo comemorativo dos 20 anos do clássico “Zero e Um”. Então, teve um pouco de tudo; as novidades do período em que estiveram fora, mas também os grandes clássicos dos quase 40 anos de carreira: “Você”, “Queda Livre”, “A Urgência”, “Venceremos”, “Afasia”, “Sangue nas Mãos” e por aí vai.
Em um momento conturbado no contexto mundial (e que tem material suficiente para render temas para mais um disco dos caras), o vocalista, Rodrigo Lima, se conectou a um público engajado com a mensagem da banda. Teve boné do Movimento Sem Terra (MST) sendo entregue a ele, durante a canção que leva o mesmo nome, fã subindo no palco com uma bandeira de Cuba, e, claro, os já tradicionais moshs que não faltam nunca no show dos capixabas.

Não que fosse necessário algum incentivo para não ficar parado durante uma sequência de pancadas do setlist, mas Rodrigo achou um bom jeito, convenhamos: “quem ficar parado é amigo do Bolsonaro!”, disparou o frontman da banda, com o deboche de sempre.
Ao mesmo tempo que haviam pessoas muito jovens e que nem mesmo ainda eram nascidas quando o grupo atingiu seu auge, no início dos anos 2000, também estavam lá fãs que viram toda a trajetória do Dead Fish, desde 1991, e que sabiam cantar tudo o que tocava.
Depois de nove anos, muita coisa mudou no repertório, no Brasil e no mundo, mas uma coisa permaneceu a mesma, ou até melhorou… a energia que o quarteto, agora formado por Ric Mastria, na guitarra, Igor Moderno, no baixo, e Marco Melloni, na bateria, além do vocalista, Rodrigo, possui quando sobe no palco. “Valeu, Point do Rock, espero que dessa vez leve só nove meses, e não nove anos”, disse Rodrigo, em “Bem Vindo ao Clube”, canção que fechou o show.



