
Foto: divulgação/HBO Max
A nova Dona Beja, que estreou na última segunda-feira (2) na HBO Max, não se contenta em revisitar um clássico da teledramaturgia brasileira. A produção parte da história ambientada na Minas Gerais do século 19 para propor um diálogo com o Brasil de hoje, reposicionando a protagonista como uma figura política, afetiva e socialmente provocadora. Mais do que nostalgia, a novela aposta na atualização de temas e conflitos para transformar a lenda de Araxá em um espelho do século 21.
Uma protagonista além do escândalo
Interpretada por Grazi Massafera, Beja surge menos reduzida ao rótulo da mulher sensual que choca a moral da cidade e mais interessada em desafiar as estruturas que a condenaram. A violência sofrida pela personagem passa a fundamentar sua trajetória de empoderamento. Ao retornar rica e poderosa, Beja não busca apenas vingança individual, mas questiona uma sociedade que marginaliza mulheres ao mesmo tempo, em que se alimenta delas.
A Beja de 2026 é menos objeto de desejo e mais agente de transformação, sem abrir mão da sensualidade que sempre foi parte da construção da personagem. O resultado é uma protagonista complexa, que provoca tanto admiração quanto desconforto, e é justamente aí que a novela encontra sua força.
Diversidade como eixo narrativo
Outro acerto da releitura está na forma como diversidade racial, sexual e de gênero fazem parte da trama de forma orgânica. Personagens negros ocupam espaços de poder, mudando estereótipos historicamente associados à dramaturgia de época. As discussões sobre racismo, abolicionismo e ascensão social atravessam os núcleos da história, colocando luz em contradições que ainda existem no Brasil atual.
A presença de uma mulher trans como figura central na vida de Beja e o desenvolvimento de um romance lésbico reforçam o compromisso da novela em tratar identidade e afeto de forma cada vez mais política. Em vez de funcionarem como exceções ou “temas especiais”, essas narrativas fazem parte do universo da obra, evidenciando ainda mais a proposta de olhar o passado com os olhos do presente.
Visualmente bem construída e sustentada por um elenco de peso, Dona Beja chega como uma releitura que respeita o legado da obra original, mas não se prende a ele. Ao transformar a história em instrumento de reflexão, a novela reafirma a força da dramaturgia, dando mais um motivo para falarmos que o Brasil é o país que melhor faz novelas, além de demonstrar que revisitar o passado pode ser uma das formas mais potentes de falar sobre o agora.



