
Resumidamente, tokusatsu são produções japonesas em live action que utilizam efeitos especiais. E eu podia fazer a piada de encerrar o post por aqui, porém tem muito mais nuances envolvendo essa palavra que irei tentar explicar nesse texto.
Lá pra década de 50, surgiu o que é considerado o primeiro tokusatsu. Porém a gente pode voltar mais um tanto no tempo até o período Asuka, por volta do século XVII. Nessa época, duas formas de arte chegavam a sua evolução no teatro japonês, o kabuki e o bunraku.
Kabuki significa “cantar e dançar”, mas é uma arte conhecida pela dramatização, o uso de maquiagem, e principalmente pela ação e cenas de luta. Sua criadora, Izumo no Okuni, é uma figura histórica importante no Japão. Já o Bunraku é um teatro feito com bonecos, e é nele que começou o uso de efeitos especiais. Nessas duas artes estão as raízes do que viria a ser o tokusatsu no futuro. O teatro foi por muito tempo o meio principal de se contar histórias no Japão. A cultura do país é imortalizada através de suas lendas e contos sobre personagens e períodos antigos. Mas tudo mudou depois da segunda guerra mundial.
Como diria o autor Ariano Suassuna, para se dominar um país, propaganda cultural é mais eficiente do que armas. E assim, no pós-guerra os Estados Unidos exportaram seus filmes e super-heróis pro mundo. Porém mesmo ainda se reerguendo após os efeitos da bomba atômica, o Japão contra-atacou. Para que as futuras gerações crescessem repletas de influências culturais locais, mais do que estrangeiras, a terra do sol criou seus próprios filmes e super heróis. Porque um país cresce bastante quando investe em si e dá valor à sua própria produção cultural.
Se eles tinham o King Kong, o Japão teria o Godzilla. Se eles tinha o Batman, o Japão teria o Gekko Kamen. E se eles tinham Twilight Zone, o Japão teria Ultra Q. E foi com essa resposta anti-imperialista que surgiram os primeiros tokusatsu, junção das palavras tokushu e satsuei, e que significa “filmes com efeitos especiais”.

Assim, em 1954, Godzilla inaugurou com classe essa categoria, passando o recado que o Japão sabia se levantar depois da destruição causada por um monstro atômico. O filme de Ishiro Honda deu tão certo, que as técnicas de efeitos práticos, desenvolvidas por Eiji Tsuburaya, ditaram a cartilha de como produzir um tokusatsu nas décadas seguintes. Cidades em miniaturas e fantasias de monstros gigantes marcaram para sempre a ficção científica como uma marca registrada japonesa.
Com os monstros mandando ver no Japão, o filme Super Giant chega em 1957 pra dar início a era dos heróis mascarados. No ano seguinte já estreia Gekko Kamen, o primeiro herói da TV, e mais tarde em 1966, Magma Taishi, Vingadores do Espaço, seria a primeira série em cores da TV japonesa. Porém o ícone dos heróis gigantes estreou uma semana depois com o Ultraman. Criada por Eiji Tsuburaya, o visionário dos efeitos especiais, a série Ultra trouxe luz à era das franquias. Em seguida, baseado em um mangá de Shotaro Ishinomori, Kamen Rider foi um marco para a história do tokusatsu, trazendo em 1971 heróis em tamanho humano, enfrentando vilões de sua mesma altura, dando surgimento a várias séries com baixo orçamento na televisão.

Mais dois marcos importantes ocorreram ainda nos anos 70. O primeiro foi Himitsu Sentai Gorenger, de 1975, dando início a franquia super sentai, os esquadrões de heróis coloridos; E logo depois Supaidāman, em 1978, com um robô gigante acompanhando a versão japonesa do Homem Aranha, lançando tendência para as próximas séries.
Desde sua origem, o tokusatsu é marcado por duas características muito fortes. As inúmeras referências ao folclore e cultura local, para lembrar de onde eles são; E os exageros e extrapolações na fantasia e no visual dos personagens, para lembrar as crianças que nada daquilo é real. Além do baixo orçamento, que é algo proposital.
Inclusive o investimento em séries pro mercado infantil é o que movimenta grande parte do tokusatsu no Japão. Grandes empresas utilizam as séries como propaganda de seus produtos. Então quando você ver alguma arma, transformador, robô, veículo e pensar “isso parece mais um brinquedo”, a intenção é exatamente essa mesmo.

Com o passar do tempo, tokusatsu tornou-se sinônimo de série japonesa com heróis coloridos e monstros gigantes. Mas diversas outras produções que não carregam esses elementos também são consideradas tokusatsu. A marca do gênero é tão grande que existem obras tokusatsu feitas em outros países. O exemplo mais famoso é Power Rangers, que adapta séries de Super Sentai, mas existem tokusatsu na Austrália, Indonésia, Coreia, China, além dos Estados Unidos e até do Brasil.
Nosso país é super fã de produções japonesas, chegando ao ponto de algumas séries fazerem mais sucesso aqui do que no Japão. A história do tokusatsu no Brasil é um caso à parte, porém assistir por aqui nem sempre é tão fácil. Muitas séries estão disponíveis em serviços de streaming e alguns canais de TV, mas ainda é uma quantidade tímida comparada a demanda dos fãs que geralmente recorrem a fansubs e pirataria.
Por sorte a coisa parece estar mudando por aqui, mas só vai dar certo mesmo se você consumir e divulgar conteúdos legalizados de forma oficial.

AGORA, POR ONDE COMEÇAR?
Os caminhos são infinitos. Todas as obras citadas nesse texto são um bom caminho para começar, porém nenhuma delas está disponível no Brasil (um imenso absurdo). Outro impedimento em indicar obras, mesmo disponíveis em solo brasileiro, é que streamings mudam o tempo todo. Se tu estiver lendo isso no futuro, existe a possibilidade de procurar algo específico e não encontrar mais. Porém, correndo esse risco, deixo aqui minhas dicas de série e filmes favoritso pra tu assistir, disponíveis em serviços legalmente (e a vibe que a obra tem).
Apesar de eu achar ideia começar com o Godzilla de 1954, que carrega drama, ou série Ultraman de 1966, que traz toda a parte colorida e lúdica, uma boa porta de entrada é a franquia Shin, filmes que recontam clássicos do tokusatsu. Existem 3, que os indicarei aqui, todos na Amazon Prime Video, com dublagem em português.
- Shin Ultraman (2022): Ficção científica doidera. Prime Vídeo.
- Shin Masked Rider (2023): Super-herói triste. Prime Vídeo.
- Shin Godzilla (2016): Terror, ficção científica hard. Prime Vídeo.
- Godzilla Minus One (2023): Tragédia e drama histórico. Netflix.
- Ultraman Z (2020): Infanto-juvenil, ficção científica e ação. Canal Ultraman Oficial no Youtube.
Essas são minhas dicas para começar, mas você pode dar as suas nos comentários. Além disso deixo um vídeo do canal J-Box, sobre onde assistir TODAS as obras disponíveis no Brasil em 2026, e um vídeo do canal Claquete de Papel, sobre o que é Tokusatsu, caso você queira revisitar ou apresentar o conceito para alguém, sem ter que reler esse texto.



