
A Única Saída é um filme que já começa impactante para qualquer um que já tenha assistido a alguns filmes de Park Chan-wook, o celebrado diretor sul-coreano por trás da Trilogia da Vingança, responsável por apresentar Oldboy e – de certa forma – o cinema sul-coreano ao público ocidental com uma das histórias mais incômodas deste século.
Este impacto vem justamente pela quebra de expectativa: o novo longa do diretor começa solar, apresentando uma família feliz registrada por uma fotografia de altíssimo contraste e cores vivas.
Passado o choque inicial, resta à audiência esperar o momento em que a farsa será desmascarada e a verdadeira natureza daquela história será revelada, e é certo afirmar que este momento vem, mas não da maneira mais óbvia.
O vilão é o capitalismo (surpresa!)
A Única Saída conta a história de Man-Su (Lee Byung-hun), um homem de meia-idade com uma carreira premiada na indústria do papel que, após 25 anos de serviços à mesma empresa, se vê subitamente sem emprego após a compra dessa empresa por executivos estadunidenses.
Após diversas tentativas falhas de conseguir um novo emprego na área, Man-Su decide que a única maneira de conseguir um novo emprego é eliminando (literalmente) toda a concorrência para as vagas que deseja ocupar.
A premissa parece meio ridícula, e o filme tem noção disso: ao se apresentar como uma comédia dramática, a obra de Park Chan-wook lentamente vai normalizando o absurdo diante dos olhos do espectador.
É uma solução muito inteligente e capaz de trazer novos ares a uma filmografia tão sisuda quanto a do cineasta responsável por dramas como Decisão de Partir e A Criada.
Mais atual, impossível
Os temas abordados, entretanto, permanecem tão trágicos como sempre foram: a maioria dos trabalhadores do mundo são capazes de se relacionar com ameaças como o monopólio de multinacionais, enormes lay-offs patrocinados por alguma solução de inteligência artificial e o desespero de talvez não conseguir manter um padrão de vida outrora estabelecido.
O uso da comédia como dispositivo para comentar algumas das piores mazelas da contemporaneidade é, afinal, um recurso recorrente na ficção dos nossos tempos: o famoso “rir pra não chorar”, realizado aqui da melhor maneira possível.
A banalidade do mal
Outro aspecto que chama atenção na maneira com que Park Chan-wook conduz seu novo longa é como, pouco a pouco, os personagens ao redor de Man-Su passam a enxergar seus atos com a maior naturalidade possível. Mi-ri (Son Ye-jin), sua esposa, inicialmente se choca com os planos e atitudes do protagonista. Tão logo entende que as implicações dessas atitudes podem ser benéficas para a manutenção do status quo de sua família, pouco a pouco passa a aceitá-los e até mesmo acobertar as intenções do marido.
O universo estabelecido por Park Chan-wook parece não se chocar com as maiores atrocidades que acontecem cotidianamente. Crimes violentos, traições, pequenas contravenções, precarização do trabalho: tudo parece encontrar uma justificativa, um porém que torna aceitável todo tipo de comportamento.
A única coisa que realmente choca e revolta os personagens é a perspectiva de perder aquilo que eles têm, seja bens materiais, prestígio, ou a própria honra; na maioria das vezes imaginada e conservada apenas por eles mesmos.
A Única Saída é uma comédia dos nossos tempos. Ri daquilo que, por falta de opção, se torna engraçado para que se conserve a pouca sanidade mental necessária para vivermos uma vida produtiva em 2026. É sarcástico de uma maneira refinada que poucas vezes se vê no cinema contemporâneo, sem se entregar ao cinismo que se tornou a norma. Aponta, mas também tem algo a dizer. Comenta de maneira muito mais profunda sobre tecnologia, inteligência artificial e o estado de vigilância em que vivemos do que obras que buscam fazer isso aos berros, como Black Mirror.
Por fim, refina a retórica de um dos cineastas mais interessantes da contemporaneidade, que entende como ninguém que aprofundar estilo não significa incorrer em extremos artificiais, nem se tornar uma autoparódia.
Se a realidade não parece em vias de mudar tão cedo, que tenhamos Park Chan-wook para comentá-la por muitos anos mais.



