
Destroy Boys (Créditos: Mara Alonso/Musicult)
Em meio a tantos eventos no mês de dezembro, com todo mundo querendo fazer sua “festa da firma”, acompanhamos um festival que merece todo o destaque: o Não Tem Banda Com Mina Fest #2, cujo headliner foi a banda Destroy Boys, dos EUA. O evento é organizado pela banda brasileira The Mönic desde 2023, e é a segunda edição no formato de festival, que dessa vez contou com a parceria da NDP (New Direction Productions) para fazer o rolê acontecer.
Não tem banda com Mina
A abertura do festival começou com a Deb and the Mentals, que deu um vislumbre de como seria o dia: um dia para as meninas se inspirarem e se divertirem. A vocalista, Debora Babilônia, disse ‘se inspirarem’ não exatamente no sentido de ter uma banda, mas de fazer qualquer coisa que quisessem fazer.
O show foi bem divertido, a banda tocou todas as músicas do novo EP ‘Old News’ lançado em 2025 e a Deb tem uma movimentação e presença de palco que fez o público, que ainda era de poucas pessoas, se soltar completamente, com direito a dança e circle pit, tudo “sem perder o romantismo” digamos assim, visto que as letras da banda também falam sobre relacionamentos.



A próxima atração foi a banda Dirty Grills, de Florianópolis-SC, que chamou muita atenção: um duo, formado por Jessica Gonçalves e Mariel Maciel, sendo Mariel na bateria e vocais de apoio, e Jessica na guitarra e vocal principal. O som que elas fizeram era de uma bateria forte e intensa, uma guitarra suja, crua, cheia de fuzz e uma saturação no som que era gostoso de se ouvir, um tipo de som que lembrava Nirvana e Iggy Pop na época do The Stooges.
Apesar das referências, era notório também uma personalidade própria da dupla, cada música com um título mais criativo que o outro, temas importantes, e uma postura e atitude que fez o público começar a soltar a raiva e angústia que talvez estivesse presa.


Não demorou muito, e a banda Ratas Rabiosas subiu ao palco, causando um certo ponto de virada no festival. Foi como se um coquetel molotov tivesse sido jogado e incendiado as pessoas com uma energia diferente.
O Brasil vem passando por uma onda recente de feminicídios. Em 2025, o país já registrou mais de 1.180 feminicídios e quase 3 mil atendimentos diários pelo Ligue 180, segundo o Ministério das Mulheres. Essa onda tem causado muita indignação, o que causou uma mobilização nacional nas ruas por várias cidades do país no dia 7 de dezembro. E a primeira música do show da banda Ratas Rabiosas, “Até Quando”, falou justamente sobre esse tema.
Cada dia cresce o feminicídio/ Punem a mulher por ser o que ela quer/ Quando vão parar de nos matar?
Toda essa energia, apresentada de uma forma simples, clara, direta, em português – algo que o verdadeiro punk brasileiro faz extremamente bem – fez com que todos que estivessem ali conseguissem entender exatamente a mensagem, e também fez com que muitas das minas que estavam ali, de uma certa forma, também conseguissem expressar esse sentimento. A banda destacou a importância das meninas em lutarem com coragem, e ocupar os espaços nessa cena musical, que ainda é muito machista. Como diz uma de suas músicas: “Mulheres punks existem!”.



Uma das principais atrações da noite, e idealizadoras desse festival, a The Mönic fez uma entrada épica para iniciar o show, e deu pra sentir muito bem a presença de uma banda que tem sido tão relevante no cenário nacional, e até internacional, visto que esse ano elas fizeram sua primeira turnê pela América do Sul.
A cada música tocada, o público se agitava, abria rodas espontâneas, cantava e pulava. Tudo isso gerava uma felicidade notável que ia aparecendo a cada nova música do setlist. Elas estavam muito felizes por terem feito um ano intenso, tocado em grandes festivais, como The Town, e de fecharem o ano com um festival idealizado por elas, cujo principal objetivo é dar visibilidade a bandas formadas por mulheres.
O show contou com algumas participações especiais, como Olivia Yells, uma artista de Curitiba-PR, na música “Simplifica”, e foi nesse momento que aconteceu outra participação especial, e inesperada, de Maitê, uma criança que subiu no palco e ficou num cantinho, mas que foi convidada por Dani Buarque a vir pro meio e, junto com Olivia, encantar toda a plateia (momento fofo demais!).
Outra participação especial foi a de Camila Brandão, baixista na Charlotte Matou um Cara e vocalista na Maga Rude, mas que, nessa participação, tocou guitarra na música “TDA”. O show da The Monic terminou com a energia lá em cima, com a galera animada e batendo cabeça, algo que só um rock bem praticado é capaz de proporcionar.




Destroy Boys
E então, chegou a vez das headliners: Destroy Boys.
Esse show de São Paulo foi o penúltimo show de uma turnê intensa que a banda, que é dos Estados Unidos, fez aqui pela América Latina. Infelizmente a banda estava com um desfalque de integrantes, ou, como disse a Alexia Rodits, a banda estava numa formação “Frankenstein”, já que um dos integrantes teve problema no passaporte e outro um problema de saúde.
Esses desfalques, principalmente de Violet Mayugba, fizeram falta, mas apesar disso, foi notável o esforço que a banda fez para entregar um grande show aqui no Brasil, para um público que cantava alto as músicas, acompanhando a vocalista. A cada nova música que ia sendo tocada uma dedicação era feita, em especial as pessoas não héteros, que, como ela disse, existem muito antes do Brasil se tornar o Brasil e dos Estados Unidos se tornarem os Estados Unidos.
Em outra música, a “I Threw a Glass At My Friend’s Eyes And Now I’m On Probation”, ela destacou a importância de tomar cuidado ao namorar um cara muito mais velho que você quando se é jovem.
O show estava se aproximando do final, e a sensação era de que o tempo tinha passado em um instante, como se por um momento o mundo lá fora – com suas obrigações e responsabilidades – sequer existisse.
A cada música, a Destroy Boys ia conquistando cada vez mais as pessoas, e o público também conquistava a banda, por exemplo quando cantaram muito alto a música “Piedmont”.
O show acabou, com direito a um mosh só de meninas e a vontade de pedir mais uma vez um “come to Brasil” pra que a Destroy Boys volte logo ao Brasil, dessa vez com a formação completa.
Quanto ao Não tem Banda com Mina, o festival provou que, sim, tem muita banda incrível com mulher, e que eventos assim são necessários para movimentar a cena e inspirar mais minas a fazer o que querem. Fica a nossa torcida por vida ao longa ao festival, com cada vez mais apoio, não só do público, mas de patrocínios.







