
Crédito: Luiza Meneghetti (@meneghetti.foto)
Há bandas que nascem de um encontro musical e há aquelas que renascem de memórias. A Paralelo ao Fim é do segundo tipo. Reunidos quase duas décadas depois dos primeiros acordes, o grupo decidiu mergulhar no próprio passado para desenhar o presente, abrindo espaço para um disco que abraça a nostalgia sem abrir mão da pulsação contemporânea do rock alternativo.
Entre referências cuidadosamente garimpadas, encontros simbólicos em estúdio e a força de uma amizade que antecede qualquer ensaio, a Paralelo ao Fim transforma lembranças em estética, e saudade em arranjo.
Na entrevista a seguir, conversamos com Guilherme sobre esse processo de reencontro com as próprias músicas, com a cena independente e com a energia de palco, passando pela experiência de gravar com Gabriel Zander e Leeo Hanna, a importância de festivais itinerantes e a maturidade que ressignifica letras antigas. Porque, às vezes, olhar para trás é o que faz a música soar mais à frente.

Musicult entrevista: Paralelo ao Fim
O título A Nostalgia me Abraçou sugere uma imersão afetiva no passado. Como vocês equilibraram esse sentimento com a urgência estética do rock alternativo contemporâneo?
Uma das primeiras tarefas que fizemos quando voltamos a tocar juntos foi montar uma playlist com referências e definir a estética que gostaríamos de alcançar. A partir disso, começamos o processo de revisitar as músicas que tocávamos na adolescência e rearranjar uma por uma. O processo teve muitos testes, altos e baixos — momentos em que as faixas nos agradavam muito e outros em que não estávamos tão satisfeitos. Porém, ao longo do processo, tudo foi se ajeitando, e chegamos ao estúdio satisfeitos com o que havíamos realizado na pré-produção.
Gravar no Family Mob Studios e trabalhar com Gabriel Zander certamente trouxe camadas técnicas e simbólicas ao disco. Como foi esse encontro entre admiração e colaboração na prática de estúdio?
Quando estávamos analisando a estética sonora que gostaríamos de alcançar, percebemos algo em comum entre as bandas que tínhamos como referência: o Gabriel Zander (Bil) havia produzido ou gravado muitas delas, como Menores Atos e Metade de Mim. Trabalhar com o Bil foi uma experiência incrível. Cada comentário e cada ajuste que ele fazia durante o processo de gravação elevava as músicas a um novo patamar, o que nos deixava ainda mais satisfeitos com o resultado.
Além disso, tivemos a presença do Leeo Hanna, da banda Surra, como engenheiro de som — alguém que nos fez sentir muito à vontade durante todo o tempo em que estivemos no estúdio. Assim como o Bil, ele abraçou o projeto de uma forma surpreendente, e sem ele não teríamos alcançado essa qualidade sonora.
Participar do 4º Circuito Nova Música, Novos Caminhos, com curadoria de Lúcio Ribeiro, é um marco. Como vocês enxergam o papel de festivais itinerantes na renovação da cena independente?
Os Festivais como o Circuito Nova Música são de grande importância para o cenário independente, pois, além de darem visibilidade a artistas de diferentes gêneros, proporcionam vivência e experiência com estruturas às quais artistas independentes nem sempre têm acesso. Ficamos muito felizes em participar da 4ª edição do Circuito — toda a organização e as pessoas responsáveis por fazer o evento acontecer são incríveis. Desejamos vida longa ao Circuito e a todos os festivais itinerantes que fortalecem a cena independente.
A estreia ao vivo na capital paulista, abrindo para Zander, foi um momento simbólico. Como foi a recepção do público e o impacto desse show na trajetória da banda?
A recepção do público foi muito boa. Esse evento foi uma união da banda de casinha com o show do Zander, se tornando o “Zander de Casinha”. Então, além das pessoas que estavam ali para ver o Zander, havia também o público que o casinha atrai. Desde a divulgação do evento, o público nos abraçou de uma maneira incrível — e no palco não foi diferente.
Vocês citam referências como Menores Atos, Basement e American Football. Como essas influências se traduzem na construção dos arranjos e na escolha de timbres?
Essas bandas moldaram diretamente o som que estávamos tentando alcançar. Realizamos um processo de análise dos possíveis “clichês” presentes nas músicas delas — quais pedais utilizam, quem produziu, etc. Como já gostávamos muito dessas bandas e as ouvíamos há bastante tempo, esse processo foi muito natural. Não foi algo forçado para que o nosso som se encaixasse nessa “roupagem” — simplesmente fluiu. Conseguimos chegar a um meio-termo em que percebemos essas influências no nosso som, mas também mantemos nossa própria personalidade.
O álbum foi lançado via selo Downstage. Como vocês avaliam o papel dos selos independentes na construção de carreiras sustentáveis no cenário atual da música alternativa?
Os selos independentes são responsáveis por construir uma identidade e dar rosto a uma cena. Seu papel vai muito além do lançamento de novas músicas — envolve a construção de uma identidade coletiva, o auxílio estratégico aos artistas e o fortalecimento desse senso de comunidade, para que, juntos, os artistas construam algo muito maior. Sabendo disso, nos justamos ao selo Downstage por intermédio da Bia Vaccari, que tem auxiliado a gente com esse processo de pós-lançamento do disco.
A amizade de infância entre vocês é um dos pilares do projeto. Como essa conexão pessoal influencia o processo criativo e a tomada de decisões artísticas?
Por sermos amigos há quase 20 anos, há coisas que se resolvem apenas com um olhar — nem precisamos falar nada. Durante o processo criativo, essa conexão esteve presente o tempo todo: desde a definição dos figurinos para um ensaio de fotos até as devolutivas das mixagens do disco. Também há uma divisão natural de papéis na banda: eu fico mais responsável pela direção musical e composição, e o Vini cuida da organização e da produção dos itens que envolvem as responsabilidades da banda.
O disco fala de amadurecimento. Como esse amadurecimento se manifesta nas letras, especialmente ao tratar de temas como ansiedade e desilusões amorosas?
Como muitas músicas foram revisitadas da nossa adolescência, o grande impacto está no significado que as letras dessas canções têm para nós hoje. Na época, muitas delas refletiam situações muito intensas; porém, agora, com mais maturidade e feridas já cicatrizadas, olhamos para essas letras de outra forma — como se estivéssemos observando um retrato antigo de nós mesmos.
Ouça a Paralelo ao Fim na sua plataforma favorita e siga a banda nas redes sociais.
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Entrevista por Erick Tedesco.



