
O artista Matheus Gomes Lima. Foto: Divulgação
Depois de quase dez anos na banda Elefantes Voadores, o carioca Matheus Gomes Lima agora se arrisca na carreira solo com o lançamento do disco “Carnaval”, que mistura MPB, indie, reggae, rock, blues e muitas outras coisas…
“É o meu primeiro, então, de alguma forma, ele consegue representar e sintetizar todas essas fases sonoras que eu fui passando ao longo da minha vida. Tive minha fase indie, tive uma fase MPB, mergulhei em Lenine, The Killers, Arctic Monkeys, Muddy Waters e tudo foi filtrado ao ponto de chegar nesse momento que soa como eu.”
O artista enxerga o fim da sua antiga banda não como um final de ciclo, mas sim como um renascimento e uma nova forma de ver a sua própria arte. A amizade permanece e, vez ou outra, um ex-colega de banda aparece para fazer uma gig com ele nos palcos.
“Ainda sou um grande amigo dos meninos da banda e eles me apoiam muito hoje. Teve um show que o baterista desse meu projeto solo não pôde tocar, aí chamei o Ivan, que era baterista da Elefantes Voadores, para participar. É legal ter o contato e o apoio deles, mas agora estou um pouco mais consolidado e entendendo que eu sou um artista solo.”
Arquiteto e “megalomaníaco”, segundo ele mesmo, Matheus assinou todas as etapas do disco. Todas mesmo, desde composição das músicas até roteiro dos clipes – que ele também aparece como ator – e a capa do álbum.
“O que eu percebi nesse processo é que sou megalomaníaco (risos), porque eu quis assumir todas essas funções […] é muito cansativo, mas foi a maneira que eu queria fazer esse álbum, queria realmente tocar em tudo e deixar minha impressão digital em todos os aspectos.”

Satisfeito com o resultado do disco de estreia, Matheus pensa em seguir compondo álbuns… fazendo uma comparação com o cinema, o artista relata que, para ele, faz mais sentido produzir “longas” do que “curtas”.
“Eu gosto de fazer a comparação entre diretores de cinema que fazem filmes e curtas… posso gostar do curta do David Lynch, mas o que vai me fazer apaixonar pelo David Lynch é ver o filme dele, sabe? Então, tenho essa relação com os discos, acho que eles acompanham a sua vida e você os redescobre conforme você vai avançando na vida.”
Leia a entrevista completa com Matheus Gomes Lima a seguir
Matheus, “Carnaval” é seu primeiro álbum solo após quase uma década com os Elefantes Voadores. Como foi esse processo de se redescobrir como artista depois do fim da banda?
Matheus: Cara, foi muito engraçado. Gosto de pensar na banda como um relacionamento, e foi o relacionamento mais longevo até agora da minha vida. Eu namoro há oito anos e só agora tá chegando na mesma quantidade de tempo que eu tive com a banda… então, a Elefantes Voadores foi um grande “casamento” e o seu fim também foi um grande “divórcio”, sabe? Eu encarei dessa forma pelo impacto que teve na minha vida. Foi muito impactante, por exemplo, dar shows sem a minha banda ou entrar em estúdio com músicas que eu tocava com a banda e que agora estava tocando sozinho ou com outras pessoas. Foi todo um desafio e foi todo um processo que, com certeza, teve muito de se redescobrir nesse percurso para entender que era o meu nome que estava ali nos perfis de música e tal. Mas foi muito bacana ao mesmo tempo. Ainda sou um grande amigo dos meninos da banda e eles me apoiam muito hoje. Teve um show que o baterista desse meu projeto solo não pôde tocar, aí chamei o Ivan, que era baterista da Elefantes Voadores, para participar. É legal ter o contato e o apoio deles, mas agora estou um pouco mais consolidado e entendendo que eu sou um artista solo.
Inclusive, o disco é um projeto que foi idealizado ainda na época da banda, mas só agora saiu do papel. O que mudou nele e em você durante esse período de espera?
Matheus: Acho que seria um disco completamente diferente se fosse um disco da Elefantes Voadores. Tudo bem que eram sete composições minhas que já estavam na banda e que estavam planejadas para esse álbum, se fosse o caso, mas é diferente quando você tá com outras quatro pessoas, né? A música vai sendo levada por outros arranjos e outros direcionamentos em termos de projetos, videoclipes e etc. Eu virei um artista solo para fazer esse álbum, então, acabou que a jornada para fazê-lo também foi muito pessoal, aí pude mergulhar de cabeça em todos os pontos, já que seria assim. Acabou que, para mim, foi essa a grande mudança do que seria um álbum da banda para um álbum solo: se tornou um álbum muito íntimo.
Por ter sido lançado neste contexto, após o fim da banda, você sente que esse disco é como um “renascimento” pessoal e artístico?
Matheus: Quando eu comecei o processo de gravação, ainda tinha essa coisa do “acabei de terminar [o ciclo com a banda]”, mas o tom geral do álbum, quando eu o ouço, é de renascimento, sabe? Gosto sempre de lembrar, até para mim mesmo, que estive na banda e não apago isso da minha trajetória, porque foi muito importante, mas acho que o álbum marca esse renascimento. Algumas músicas que já haviam sido lançadas pela banda estão com um frescor, com uma cara e com uma energia diferente, isso me dá até um fôlego novo para tocar essas músicas em apresentações ao vivo, por exemplo. É assim que eu estou encarando essa nova fase.
O disco mistura rock, MPB, reggae, blues… enfim, soa como uma verdadeira festa de Carnaval, né? Como foi misturar isso tudo?
Matheus: O nome “Carnaval” é muito bom para esse álbum, porque acho que eu nunca vou conseguir ter o tempo que tive pra fazer esse disco. Basicamente, tive minha vida toda para fazer essas composições, né? É o meu primeiro, então, de alguma forma, ele consegue representar e sintetizar todas essas fases sonoras que eu fui passando ao longo da minha vida. Tive minha fase indie, tive uma fase MPB, mergulhei em Lenine, The Killers, Arctic Monkeys, Muddy Waters e tudo foi filtrado ao ponto de chegar nesse momento que soa como eu. Então, é até engraçado quando eu vou fazer uma composição e aí, de repente, pego o violão e falo “caramba, não esperava que isso parecesse tanto Lenine”, às vezes até eu sou pego de surpresa! Isso acabou se refletindo na sonoridade do álbum. E também preciso mencionar que foi um casamento muito perfeito ter produzido esse álbum em coprodução com o Vinícius Pitanga, porque ele entendeu esse direcionamento que eu queria dar para o disco e também mergulhou comigo. Ele é um cara que veio da escola do Rock, mas que se abriu até mais do que eu para outros gêneros, então ele me ajudou muito a levar essas músicas para outras direções. “Já que o nome do álbum vai ser ‘Carnaval’, então vamos jogar para todas as direções”, ele pensou. O Vinícius foi uma parte muito importante para esse álbum, porque “Carnaval” soa como carnaval.
Você traz uma definição curiosa sobre a sonoridade do álbum com a frase “Djavan conversa com The Killers”. De que forma isso fez sentido pra você?
Matheus Gomes Lima: Por exemplo, em “Marataízes”, eu falei: “cara, acho que isso aqui parece Lenine e parece Paralamas do Sucesso”. E ele: “cara, mas isso aqui tem muito Tim Maia também, vamos fazer um ‘sopro meio Tim Maia’ para ela”, então ele foi pegando essa ideia e a gente assumiu isso como missão. Nessa faixa, o violão me lembra muito “Irmã de Neon”, do Djavan, ao mesmo tempo que me lembra também Joy Ride, do The Killers. Então sinto que dentro de mim teve um caldeirão em que essas coisas conversaram e conseguiram fazer diálogos improváveis, não só nessa parte, como em outras. Sting conversa com o Tim Maia, que conversa com o Herbert Vianna, que conversa com a Marisa Monte… E aí isso tudo faz sentido de alguma forma.
Você assumiu várias funções no projeto, como a composição, produção, direção de videoclipes, design gráfico… O que aprendeu nesse processo de fazer um álbum “de ponta a ponta”?
Matheus: O que eu percebi nesse processo é que sou megalomaníaco (risos), porque eu quis assumir todas essas funções. Isso dá uma dor de cabeça danada, enfim, é o mal dos nossos tempos. Como artista independente, você, teoricamente, tem a liberdade de poder fazer uma música e subir nas plataformas por conta própria, mas isso também abre uma discussão sobre precarização do trabalho criativo. Compus as dez músicas do disco e aí me envolvi com a produção porque queria tocar em todo o processo criativo também, é um barato pra mim, sabe? Queria me divertir também pensando numa ideia legal para o clipe e escrevendo o roteiro, queria atuar nesse clipe… então, uma coisa foi levando à outra. Aproveitei para me envolver em todos os pontos. Sou arquiteto e têm essa fama na faculdade de que todo arquiteto é, de fato, megalomaníaco, porque você está pensando no detalhamento do piso do banheiro e depois você está pensando na cidade, então você tem a tendência de mexer em muita coisa ao mesmo tempo. Acho que peguei essa mania e trouxe para a música também. Agora estou mexendo com o marketing e com a promoção do disco. É muito cansativo, mas foi a maneira que eu queria fazer esse álbum, queria realmente tocar em tudo e deixar minha impressão digital em todos os aspectos.
Tem uma banda de apoio te acompanhando nessas apresentações ao vivo. Como está sendo voltar a ter essa experiência de estar tocando com outras pessoas, agora em um projeto que tem o seu nome e sua cara?
Matheus: Quando saí da banda, uma das preocupações que eu tinha era justamente essa de continuar tocando ao vivo. Não queria ser só um artista que grava um álbum e não tem esse contato com o público, porque o momento do ao vivo é o momento da celebração, então, assim que saí, já chamei uns amigos que toparam tocar comigo. Formei uma “gangue” de novo e agora a gente está ensaiando constantemente desde o começo do ano pra encontrar uma sinergia e fazer essas músicas darem certo ao vivo. Já fizemos algumas apresentações esse ano e foram legais. A minha vida toda eu passei sendo aquela pessoa de banda, porque sempre estive em uma, e é engraçado, porque tem show que eu falo “essa é minha música”, e não “essa é a nossa música”, e é algo que ainda tô pegando. Mas acho que como a banda é com os meus amigos, isso dá uma tranquilizada e faz o processo ser muito mais fluido por já ser uma relação que vem de antes da carreira solo. Está sendo mágico poder me reencontrar com um grupo de novo e ter essa rotina de ensaio, de rever os amigos, sentir que eles estão curtindo…
Já pensa em próximos projetos, colaborações ou novos sons?
Matheus: Eu fiquei por muito tempo mantendo esse disco como uma chama acesa na minha mente. Não tenho exatamente um plano construído para logo depois, também quero deixar a vida me surpreender um pouquinho, mas tenho alguns princípios que vão modelar esse caminho. Por exemplo, gosto muito da ideia de produzir álbuns. Eu gosto de fazer a comparação entre diretores de cinema que fazem filmes e curtas… posso gostar do curta do David Lynch, mas o que vai me fazer apaixonar pelo David Lynch é ver o filme dele, sabe? Então, tenho essa relação com os discos, acho que eles acompanham a sua vida e você os redescobre conforme você vai avançando na vida.
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