
Molho Negro (Divulgação/Assessoria)
Se você é cronicamente online, você conhece o meme “a morena tá viva” que é replicado sempre mudando o nome “morena” por algum artista que lança algo novo, que volta a fazer shows depois de um hiato etc. E, quando eu ouvi VIDAMORTECONTEÚDO, na madrugada do dia 31 de outubro, uma das coisas que me veio à mente foi “O MOLHO NEGRO TÁ VIVO”, como o meme, ironicamente ouvindo um disco com tantas críticas à vida digital e à quantidade energia que gastamos nela.
E não porque o Molho Negro não lançava nada há anos ou entrou em hiato. Não foi isso. Em 2022 a banda lançou ESTRANHO, que, inclusive, é um disco muito bom, mas algo nele soava diferente, pelo menos pra mim. Era um disco mais denso, mais pesado e com melodias não tão rápidas. O conjunto da obra parecia refletir a vida da banda em São Paulo – uma cidade que torna tudo mais denso e triste – e, possivelmente, a mudança de formação.
>>Entrevistei João Lemos em 2022, logo depois do single “Berrini”, confira aqui
Sempre que eu falava sobre ESTRANHO com amigos, comentava que o disco era, de fato, estranho. Faltava mais da acidez e do humor extremamente peculiar do Molho Negro ali. Mas isso não quer dizer que os álbuns anteriores ao ESTRANHO fossem alegres, esse não é bem o termo a se usar quando falamos de Molho Negro, mas se tem uma coisa que a banda sempre fez bem foi tratar de temas ruins com um jeito irônico que a torna única. E se você é cronicamente online, como eu disse ali no começo, sabe que não há tema pior para se abordar do que os muitos problemas que a vida digital tem trazido pra gente, então a junção da necessidade de expor as angústias que sentimos com a tecnologia/redes sociais com uma banda que sabe abordar essas angústias de um jeito irônico-melancólico-desesperado faz de VIDAMORTECONTEÚDO um disco indispensável em 2025 – e até o fim do mundo, que, inclusive, estamos assistindo por meio das telas dos nossos celulares, e que João Lemos alerta logo no começo do disco em “Ficar Morto Vende”:
Nós lamentamos o ocorrido, mas queremos informar que o mundo que você vive já tem data pra acabar/ Basta calcular pelo quanto você espera que a água suba pouco, mas a água não espera.
Sim, o disco já começa com o fim do mundo, e segue tendo a nossa passividade quanto a isso e a vida digital como fios condutores, explorando a busca incansável por “sinal”, ou uma forma de conexão real em um mundo de likes e engajamento, e a imposição de que devemos criar conteúdo a todo momento enquanto somos condicionados a expor nossas vidas preocupados com o que podem ou não pensar de nós.
Não consigo parar de pensar no que outras pessoas pensam/ Já me disseram que se eu ver o lado bom fica mais fácil de fingir pro mundo
Mas o disco não é só desesperança (“Ou você morre fazendo arte, ou vai virar criador de conteúdo”), é também um disco sobre resgatar memórias para se reconectar – e dessa vez, de fato com quem se é de verdade (“Eu vou passar uma tarde na Espraiada, eu volto quando eu me reencontrar, tem tempo que eu não sinto mais nada”) -, e também sobre persistir, mesmo que não venda em anúncios impulsionados por algoritmos (“Mas se não der em nada, tudo bem, a gente toca até pra ninguém”).
Quanto à sonoridade, é um disco mais rápido e com os gritos de João Lemos presentes em quase todas as faixas, talvez os dois pontos que me fizeram repetir o meme que iniciou este texto, como se a banda “retornasse às raízes”, mas não é só isso. É Molho Negro em sua melhor forma, mas brincando também com sintetizadores, na faixa “Bombas e Refrigerantes”, uma das minhas favoritas, e também explorando um lado mais obscuro, em “Claustrofobia”, que me lembrou muito a fase inicial dos Titãs (coincidentemente, esses dias, João Lemos citou Cabeça Dinossauro como um disco que marcou a vida dele).
No fim, VIDAMORTECONTEÚDO é sim uma prova que a banda segue viva e atenta, como se o Molho Negro tivesse parado, olhado em volta e decidido traduzir o mundo que estamos vivendo, acelerado, cheio de ruídos e, ainda assim, com energia suficiente para fazer uma banda berrar que a gente vai continuar aqui, produzindo alguma coisa que valha a pena compartilhar, nem que seja só pra não enlouquecer sozinho.

VIDAMORTECONTEÚDO é o primeiro disco do Molho Negro pela Deck, e o show de lançamento já tem data pra acontecer. Será dia 21 de novembro na Casa Rockambole. Ingressos no site da Meaple.



