
Refused em São Paulo (Créditos: @rafaelbinofotografia/@furiaunderground)
Noite de 31 de outubro, o ar abafado do Terra SP misturava expectativa, nostalgia e uma pitada de nervosismo coletivo. O público sabia que não estava prestes a ver “apenas mais um show”: a lendária Refused, um dos nomes mais revolucionários do hardcore, vinha ao Brasil em sua turnê de despedida. E antes que os suecos transformassem o palco em um manifesto em forma de som, a Eu Serei a Hiena, quarteto paulistano que representa com maestria o underground nacional, deu início à noite com um show intenso, técnico e emocional.
Produzido pela Balaclava Records em parceria com a Powerline Music & Books, o evento reuniu gerações sob um mesmo grito: o de que a música, quando sincera, ainda pode ser arma e catarse.
Eu Serei a Hiena: um início denso, catártico e preciso
O Eu Serei a Hiena, formado por Fausto Oi (guitarra), Juninho Sangiorgio (guitarra), Wash Souza (baixo) e Nino Tenório (bateria), abriu a noite com a convicção de quem sabe que não está ali para “esquentar o palco”, mas para marcar presença.
Desde os primeiros acordes, a banda apresentou uma sonoridade firme, com guitarras que alternavam melodia e ruído, e uma base rítmica que dava peso e movimento a cada faixa. Em “Asterix”, o público começou a se aproximar do palco. “Chotto Machigatte Iru”, com suas quebras rítmicas e atmosfera dissonante, mostrou a maturidade do grupo, um post-hardcore que não busca agradar, mas comunicar algo mais profundo.
O ponto alto veio com “Na Expectativa”. O público, velho conhecido da banda, reagiu com entusiasmo. O set também contou com músicas como com “Do The Free the Borders” e “Yes (I do), uma faixa explosiva que misturou caos e precisão, terminando sob aplausos sinceros.
O show do Hiena foi o tipo de abertura que não se apaga da memória. A banda entregou emoção, peso e identidade, provando que o punk e suas mutações seguem pulsando forte em São Paulo.
Refused: entre o caos, a dança e o discurso

Pouco depois das 21h, as luzes se apagaram e o público, em uníssono, começou a gritar. O Refused subiu ao palco com Dennis Lyxzén à frente, um dos frontmans mais carismáticos e conscientes da história do hardcore, acompanhado por David Sandström (bateria), Magnus Flagge (baixo) e Mattias Bärjed (guitarra).
A abertura com “Poetry Written in Gasoline” soou quase como uma ironia poética. “The Shape of Punk to Come” veio logo em seguida e, 26 anos depois do lançamento do álbum homônimo, a banda reafirmava seu legado como arquiteta de um som que moldou o futuro do gênero. O setlist foi caprichado, com músicas como “The Refused Party Program”, “Rather be Dead” e “Summerholidays vs. Punkroutine”.
Entre saltos, giros e passos de dança quase performáticos, Lyxzén não parava. Dançava com a urgência de quem sabe que o corpo também é discurso. E, entre uma faixa e outra — como “Circle Pit”, “Burn It” e “Economy of Death” — o vocalista transformava o microfone em tribuna.
Falou de política, de empatia, de resistência — e fez discursos abertamente progressistas, reafirmando a essência do Refused como uma banda que sempre entendeu o punk como ferramenta de transformação social.
Em um dos momentos mais fortes da noite, Lyxzén declarou:
“Se você acha que pessoas trans e LGBTQIA+ são o problema do mundo, então o problema é você.”
O público reagiu com gritos, aplausos e punhos erguidos. Era mais que um discurso, reafirmado pela bandeira da Palestina estendida no amplificador de baixo — era um lembrete de que a música pode, sim, ser um ato político, e de que ainda há espaço (e necessidade) para o punk ser subversivo de verdade.
O epitáfio que ainda grita
Quando veio “Refused Are Fucking Dead”, a sensação foi agridoce. O título soava quase literal — afinal, esta é a turnê de despedida da banda —, mas a energia contradizia qualquer ideia de fim. A música, com sua construção quase ritualística, foi acompanhada de olhares emocionados, e Lyxzén, suado e ofegante, ainda encontrava fôlego para agradecer o público brasileiro por “ainda acreditar em algo real”.
Um dos pontos altos foi quando a banda tocou o hit “New Noise”, que incendiou o Terra SP. O público, em coro, respondeu ao clássico grito “Can I scream?!” com uma intensidade que parecia querer rasgar o teto da casa.
Encerraram com “Pump the Brakes” e “REV001”, deixando o palco em meio a aplausos longos, abraços entre desconhecidos e um sentimento coletivo de que algo importante tinha acabado, mas também sido renovado.



