
Emma Stone em Bugonia
Yorgos Lanthimos é um cineasta divisivo. Ao examinar as reações à filmografia do diretor grego, é possível encontrar opiniões das mais diversas, que vão do amor ao ódio, sobre a maioria de seus filmes. A melhor parte disso, ao menos na minha opinião, é que Lanthimos parece estar muito ciente da divisibilidade de seu trabalho, e também parece se divertir com isso. Em Bugonia, seu novo longa protagonizado por Emma Stone e Jesse Plemons, a autoconsciência do diretor transborda em tela, e em alguns momentos é como se ele estivesse, cena após cena, desafiando seu próprio público a continuar gostando do que se vê na projeção.
Por mim, tudo bem, mas é certo dizer que vai desagradar muita gente.
2025: o filme
Bugonia conta a história de Teddy (Jesse Plemons), um apicultor que vive isolado na fazenda de sua família e conta apenas com a companhia de Don (Aidan Delbis), seu primo.
Teddy, inconformado com a produção cada vez menor de suas abelhas e outros problemas ambientais e sociais que observa, se recusa a permanecer apático: passa a atribuir todos os seus problemas a uma conspiração mirabolante que prega que alienígenas invadiram a terra e estão se passando por seres humanos. A solução: sequestrar Michelle Fuller (Emma Stone), a CEO de uma megacorporação que Teddy acredita ser uma dessas alienígenas, e exigir falar com seus superiores.
A sensação de ouvir Teddy contar seu plano para seu primo Don, na tentativa de convencê-lo a se juntar à resistência, por mais maluca que pareça de início, não difere muito da sensação de assistir um dos inúmeros mesacasts que assolam a página inicial do YouTube todos os dias.
Pra ser sincero, Teddy me lembra muito um personagem bastante específico da vida real, o qual me absterei de nomear em respeito à minha própria liberdade de expressão.
É aqui que a grife de Yorgos pesa de maneira positiva: Bugonia é o que um episódio de Black Mirror seria nesta década em que vivemos, caso a série ainda fosse boa como em suas primeiras temporadas.
A montagem do filme trabalha com uma mescla muito bem equilibrada entre o comentário social, o humor negro e uma pretensa ficção científica, que não é vaidosa o suficiente pra tomar tempo demais da obra nem insegura o suficiente pra não tomar as rédeas quando precisa. É nítido que Lanthimos sabe muito bem a história que quer contar, quer ela agrade ou não.
A força do texto e da direção ficam ainda mais destacadas porque Bugonia nega o maximalismo a que supostamente teria direito, dados os nomes que integram a produção, o elenco e o gênero ficção científica. A maior parte da projeção se passa em uma única locação, contando com mais duas ou três que servem de apoio em momentos específicos.
A força motriz do filme, afinal, são os delírios de Teddy e o esforço de Michelle para trazer seu antagonista de volta à realidade.
LinkedIn: o filme
O diretor tem sorte de contar com a presença da mais fiel colaboradora da fase estadunidense de sua carreira: a atriz Emma Stone, muito confortável em um papel desafiador, que depende do equilíbrio entre ceder ao ridículo da situação e ser levada a sério quando necessário.
Stone desenha aqui a paródia de uma CEO workaholic tão bem executada que não deixa de ser crível mesmo estando inserida na situação absurda em que se encontra: tentar utilizar vocabulário corporativo para se livrar das amarras de um indivíduo que crê estar lidando com uma alienígena disfarçada. Um LinkedIn em live-action. Só que bom.
Jesse Plemons, dono de uma carreira extensa e acostumado a interpretar todo tipo de personagem, também não encontra dificuldade para convencer o espectador de que um sujeito como ele existiria na realidade, nem que faria as coisas que faz. Por mais que isso seja um elogio ao ator, não se trata do melhor dos prognósticos em relação aos tempos de pós-verdade em que nós estamos vivendo.
Internet: o filme
Será que os absurdos da vida real também são fruto de algum alienígena escondido nas maiores patentes de uma grande corporação? Eu não duvidaria. Na verdade, até tenho meus palpites.
Seja pra sair do cinema inconformado ou satisfeito com a audácia do que acabou de acontecer em tela, vale a pena ir assistir Bugonia. Não é todo dia que um filme comercial se presta a extrair reações maiores que a apatia e algum contentamento seguro de seu público.
Bugonia estreia no Brasil durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 16 a 30 de outubro. Saiba mais informações aqui.



