
Cena de The Mastermind
The Mastermind, novo filme da diretora Kelly Reichardt, é apresentado ao espectador como um drama de roubo. Mas a verdade é que o longa se aproxima muito mais de uma comédia dramática, e é justamente o balanço desses dois fatores que constitui suas maiores qualidades.
Se eu fosse obrigado a defini-lo com o menor número possível de palavras, eu diria que o longa é o que aconteceria caso um episódio de Mister Bean fosse levado um pouco mais a sério.
Compartilhando isso com colegas que também assistiram ao filme, um deles disse que adoraria ver Rowan Atkinson – o ator britânico responsável por dar vida a Mister Bean – no papel principal, e a partir desse momento, esse se tornou um dos meus filmes imaginários preferidos.
Explico: o filme, que se vale do conceito da comédia de erros, perpassando pelo drama e pelo comentário social, conta a história de James Mooney (Josh O’Connor), um ex-estudante de Artes que não concluiu a graduação. Mooney é filho de juiz, tem amigos de sucesso financeiro e é casado com Terri (Alana Haim), uma mulher trabalhadora e que, diferente do marido, não mede esforços para tentar ascender socialmente de maneiras mais convencionais.
O casal tem dois filhos – um deles, interpretado pelo jovem Jasper Thompson, de apenas 11 anos, é dono de algumas das cenas mais engraçadas do filme – mas fica claro que Mooney não está satisfeito com a vida de classe média que está construindo. Surge então o grande plano: roubar alguns quadros da galeria de arte local e vendê-los por uma quantia milionária.
Quem é o tal Mastermind?
O sarcasmo com que a direção de Kelly Reichardt trata seu protagonista já começa pelo título: por mais que a distribuição tenha escolhido não traduzir o nome do longa, provavelmente buscando trazer ares mais cult para atrair um público jovem e cinéfilo, o “Mastermind” (um líder genial) que o título indica só existe mesmo na cabeça do protagonista.
Mooney é muito menos inteligente e sagaz do que acredita ser, ilusão muito bem construída nas primeiras sequências do filme, que mostram o protagonista observando o museu, fazendo cálculos e planejando seu grande roubo.
Essa ilusão é quebrada já nos próximos minutos, que mostram que Mooney não tem tanto prestígio assim entre sua família, é menos bem-sucedido que seus antigos amigos e se cerca de pessoas ingênuas que veem nele qualidades que ele não possui.
A partir daí, não é spoiler dizer que cada erro de Mooney o leva a outro ainda mais óbvio e humilhante, numa jornada digna de um Sísifo que sequer consegue tirar sua pedra do lugar, que dirá empurrá-la morro acima.
O fracasso é cansativo
O tipo de riso e engajamento que The Mastermind busca é aquele causado pelo nervoso do público, o que pode ser um deleite para os fãs das comédias cringe, e um desespero para quem não reage bem a esse tipo de humor. O problema é que, passada a novidade, The Mastermind se torna um pouco cansativo.
O jazz descompassado da trilha sonora é uma excelente escolha para transmitir a pretensa sofisticação e o desespero que Mooney sente ao tentar ser quem não é, mas, ao longo das quase duas horas de projeção, se torna alto demais, repetitivo demais e ameaça causar dor de cabeça no público, e não mais nos personagens.
A escolha por cenas longas e de câmera estática, trazendo o espectador para uma posição de testemunha envergonhada das trapalhadas do protagonista, gera momentos cômicos muito interessantes, inclusive no final meio Looney Tunes, mas, uma vez que tais recursos deixam de ser novidade e o desfecho do filme começa a ficar mais claro, torna-se um pouco cansativo acompanhar a música alta e os planos estáticos que espiam o destino cada vez mais ridículo que Mooney desenha para si.
Não é papel da crítica exigir da cineasta um filme imaginário e supostamente melhor que aquele apresentado em tela, mas também fica difícil não trazer a este texto a percepção de que The Mastermind seria muito mais engraçado, ácido e dinâmico caso abrisse mão de alguns 20 minutos de duração.
Mesmo assim, se você gosta de rir e se sente confortável com a desgraça alheia (fictícia, vale a pena repetir pra si), o filme encontra seus momentos de brilho. Assim como o Mister Bean cult que o protagoniza.



