
Zepelim e o Sopro do Cão (Créditos: Caio Fernandes)
A banda Zepelim e o Sopro do Cão, de Campina Grande (PB), lançou na última sexta-feira o álbum Arquibancada Sol, pelo selo DoSol.
Inspirado na “Geral” dos estádios, espaço popular conhecido como arquibancada sol, o disco trabalha a ideia de resistência e coletividade em meio à precariedade, explorando uma sonoridade que mistura rap, hardcore e punk ao sotaque e referências do interior nordestino.
Conversamos com Babu, vocalista da ZSC, sobre o disco e falando sobre essa inspiração para o conceito do álbum, ele contou:
Eu sou um frequentador assíduo da arquibancada sol, a geral, do Estádio Amigão, o maior estádio aqui de Campina Grande, e também do Estádio Presidente Vargas, que é casa do meu time de coração, o Treze Futebol Clube. Então tenho em mim essas vivências da bancada, do grito, do calor, do suor. Desde criança acompanho o Treze com meus familiares e amigos, então tenho milhares de memórias afetivas com a geral, e a diversidade social e cultural, pluralidade, a presença da classe trabalhadora, em meio à insalubridade e o festejo, sempre me chamou atenção. E nessa caminhada da música, a gente enfrenta diversas batalhas pra manter a banda, pra conseguir manter o fazer artístico, e aí fui percebendo que rolava uma analogia entre esse conceito de arquibancada sol com o local onde a ZSC se situa na cultura, do lado do sol, na guerrilha, enfrentando todos os percalços pra manter a chama acesa e fazer o que se ama. A arquibancada sol moldou meu caráter de tal forma que fiz um disco com esse nome. Portanto, esse disco é contra a modernização do futebol, arenização e higienização nos nossos estádios, contra a camarotização dos nossos festejos populares. Um viva pra geral, pra pista, pra pipoca, viva o povo e a classe trabalhadora. Esse disco surgiu dessas viagens aí.
Arquibancada Sol vem depois de um primeiro disco de boa repercussão local, que consolidou um público na Paraíba e levou a banda a realizar importantes shows pelo Nordeste, como o Festival DoSol 2024, o que, consequentemente, levou a banda a gravar com selo DoSol, com produção de um nome gigante no rock independente nacional: Alexandre Capilé (Sugar Kane, Water Rats), o que, segundo Babu, foi um marco e tanto para a ZSC:
Foi daora demais, Capilé é um cara sensacional e fácil de lidar. A gente trabalhou muito na pré-produção, então chegamos muito afiados e sabendo o que a gente queria. Capilé foi pouco interventivo e conduziu bem demais a produção. Essa pouca intervenção também foi foda por apontar pra uma validação de tudo que a gente criou pra levar pro estúdio. Não que a gente tenha uma autoestima baixa, mas a gente tá longe do eixo, fora dos grandes centros, então estar com Capilé e sentir que tava tudo bem, que a gente tava no caminho certo e produzindo com êxito, foi satisfatório e aliviante. Quanto ao Dosol, o que mudou foi poder ter contato com as pessoas que fazem o Dosol, Ana e Foca são maravilhosos com a gente, e todo mundo que compõe aquele elenco fabuloso do Dosol também.
Mas como tudo pra banda independente é mais difícil, durante a pré-produção, Babu teve que conciliar sua reabilitação física após lesão no joelho, com o processo de produção e escrita das letras, porém, isso deu ainda mais significado e percepções acerca da ideia de Arquibancada Sol: a vivência de limites e adversidades para manter a produção artística.
A reabilitação veio em meio ao processo de composição das letras, então esse conceito de Arquibancada Sol, do “vivendo no limite” que é um dos sons do álbum, já estavam muito bem estabelecidos na produção. Então esse acontecimento da minha contusão serviu muito pra eu “abraçar” ainda mais o processo e o conceito da Arquibancada Sol. Me fez não baixar a guarda e deu ainda mais significado ao imaginário do disco. Boto fé que esses símbolos de resistência que a gente já tinha estruturado me fez mais forte nesse momento, eu consegui entender ainda mais o que a gente tava fazendo naquele momento. O eu do passado, que criou os conceitos, a ideia do nome e tudo que gira em torno do disco, foi determinante pra que no futuro, na lesão, eu pudesse ser perseverante e seguir em frente sem me ater à dor e ao cansaço.
As composições nasceram da parceria entre Babu e Dede Guima, que estruturaram instrumentais, arranjos e melodias, mais tarde desenvolvidos coletivamente com os outros integrantes da banda: Igor Punk, Igor Carvalho e o baterista convidado Petrus Martins.
Musicalmente, Arquibancada Sol consolida a fusão de referências que já apareciam no primeiro trabalho da banda: o rock brasileiro dos anos 1990 dialoga com influências internacionais de diferentes épocas, como Refused, Fugazi, Rage Against the Machine e Beastie Boys, além de nomes contemporâneos como Turnstile, Fontaines D.C. e Amyl and the Sniffers.
Já a identidade visual de Arquibancada Sol foi desenvolvida por Dede em parceria com sua mãe, Erika Cabral, artista que trabalha com ilustração infantil, colagens e artes manuais. A referência é o quadro “Operários”, de Tarsila do Amaral, criando uma releitura em que a classe trabalhadora e a ‘geral’ da arquibancada são representadas como símbolos centrais.

E com um disco sobre resistência e superar as adversidades, a gente sabe que fazer música no Brasil fora do eixo Rio-São Paulo é sempre um pouco mais complicado. Perguntamos para o Babu como a ZSC vê a cena underground nordestina hoje, e se há algum plano de trazer os shows desse disco para São Paulo e/ou outros estados e regiões neste ano ainda ou num futuro próximo, já que, por enquanto, as datas de shows contemplam apenas os estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte.
Falando pela nossa experiência, vejo que a gente precisa sempre se validar mais do que o normal pra poder ter acesso a certos lugares. Por isso, o objetivo desse disco era chegar com os dois pés na porta da cena, a gente acredita no nosso potencial e estamos na batalha pra continuar vivo e fazendo arte, que é o que nos move. Aqui no Nordeste, a gente mirava muito no Festival Dosol, estava nos nossos planos, a gente não sabia ainda como chegar lá, mas a gente sabia que uma hora ou outra a aproximação viria. E veio, com participação no festival em 2024 e convite pra gravação do disco em 2025. O Dosol é determinante para o crescimento da cena underground nordestina, temos muito orgulho de fazer parte desse movimento. E a gente tá tentando fechar uma agenda para o Sudeste ainda esse ano, provavelmente role, vamos aguardar o processo (risos).
E se você curtiu o som da Zepelim e o Sopro do Cão, confira a agenda de shows da banda em outubro e siga a banda nas redes sociais.
- 04/10 – Quintal do Tenebra – Lançamento do disco em Campina Grande (PB)
- 05/10 – Sede DoSol – Lançamento do disco em Natal (RN)
- 11/10 – Viva Usina – Lançamento do disco em João Pessoa (PB)
- 18/10 – João Pessoa (PB)



