
Pablo Vermell (Créditos: Silas H.)
Entre a nostalgia e a sensibilidade elétrica da Geração Z, o cantor santista Pablo Vermell lançou seu primeiro álbum, Futuro Presente, nesta semana, depois de 4 EPs.
A obra tece uma ponte entre o soft rock dos anos 70, o pop dos 80, o britpop dos 90 e a música alternativa contemporânea para imprimir uma reflexão sobre amor, distanciamento afetivo e autoimagem em um mundo hiperconectado.
A faixa-título é o coração do disco: “Futuro Presente” é uma canção sobre estar com o outro, consigo e com o tempo, e acompanha outras 7 faixas autorais de Pablo, que contou com participações da cantora amazonense Corama, violões de Lucas Gonçalves (Maglore), e também da banda estadunidense Valiant Blues ao longo do disco.

Com tantos significados, o Musicult conversou com Pablo sobre Futuro Presente para entendê-los, desde as influências e a criação do disco à edição deluxe, jornalismo musical e redes sociais. Confira a entrevista abaixo:
Musicult entrevista: Pablo Vermell
O título do álbum e todo o conceito dele transita entre o futuro, o presente e também a nostalgia… Como surgiu essa ideia de trabalhar o tempo como elemento central do disco?
O conceito surgiu de uma forma muito natural, né? Porque eu sempre me inspirei muito em coisas do passado, né? Desde Paul McCartney, Roberto Carlos, Wings, Eagles, mas eu entendo que quando paro pra compor, quando me olho no espelho, não vejo só isso. Eu sempre misturo as referências mais nostálgicas com as coisas mais modernas. Escuto muito Clairo, muitas bandas mais modernas também, então sinto que o nome Futuro Presente reflete tudo isso.
Não foi uma coisa que pautou o disco do início ao fim, como “Ah, o conceito é esse e a partir daqui a gente vai montar o álbum”, na verdade, quando a gente pensa num primeiro disco, no meu caso que também sou compositor, ele acaba sendo reflexo do nosso próprio eu-lírico, né? Sinto que nos últimos 6 anos, enquanto artista solo pude me desenvolver bastante. Meu primeiro lançamento foi em outubro de 2020 e quando decidi fazer um disco foi justamente pra consolidar aquilo que entendi como consolidado. E a partir dessa percepção nasceu a ideia de fazer um disco e de refletir sobre o tempo, sobre os 20 e poucos anos. E eu sempre acabo falando disso, né? De vivenciar a rotina, de trabalhar no dia a dia, de ter a música também e de fazer mil coisas ao mesmo tempo e, mesmo assim, continuar fazendo a roda girar. Isso sempre está explícito ou implícito nas minhas músicas de alguma forma. E quando eu entendi isso é que eu cheguei no nome Futuro Presente, inclusive o nome do disco veio primeiro e depois eu compus a faixa-título.
Interessante você falar sobre o nome do álbum vir antes da música, porque eu tinha mais perguntas sobre o seu processo criativo para o álbum e a diferença entre ele e o processo dos singles e lançamentos anteriores. Isso de vir um nome antes da música em si, já tinha acontecido antes, por exemplo?
Isso nunca tinha acontecido antes. Já tiveram casos, acho que até dentro do próprio disco, de eu querer falar sobre um assunto específico, querer brincar com alguma situação e, a partir disso, construir uma canção, por exemplo, “Low-profile” surgiu realmente de achar engraçado os jovens terem muitos perfis privados e acabarem se expondo mais do que deveria se expor, sabe? E, por exemplo, na versão deluxe do disco, que sairá ano que vem, vai ter uma canção chamada “Regis”, que brinca um pouquinho com como me sinto em relação ao jornalismo musical. Eu sou jornalista também e o que me levou a fazer jornalismo era gostar de ler sobre música, só que sinto que hoje a maior parte dos jornalistas não tem coragem de falar mal das coisas. A gente não vê review falando mal de uma banda indie hoje em dia, se não for pra falar bem nem falam e eu acho super legal quando falam mal também de alguma coisa, porque às vezes falando mal, você também vai fazer outras pessoas ouvirem, nem que por curiosidade, isso é uma das coisas que eu pensava e resolvi escrever uma música brincando com isso. Então, primeiro penso em coisas que me inspiram e aí escrevo sobre elas, mas o rolê de pensar no nome de uma coisa e trabalhar em cima desse nome nunca tinha acontecido antes.
E o que você sentiu de mais diferente no processo de criação desse álbum comparado aos lançamentos anteriores?
Foi super diferente, porque já lancei três EPs até hoje. O primeiro EP, Fullgás, nasceu da minha ideia de querer fazer uma coisa super anos 80, porque antes de ser artista solo eu tive uma banda que durou 10 anos e que nunca chegou a dar grandes passos, e na banda eu não tinha liberdade criativa pra seguir as referências dos anos 80 que eu tinha. Então quando fiz esse EP, foi olhando para esse lugar.
Já quando fui gravar o EP Dissolver, queria retratar um pouco mais do alternativo dos anos 90, tipo Flaming Lips, Pavement e música alternativa europeia que eu tava ouvindo muito na época, então fui nesse lugar de “virar a chavinha”. E aí quando fui fazer o EP Plural foi outra pegada, focada em colaborações, e ele nasceu disso, de explorar colaborações diferentes, tanto que ele vai desde a disco music com a sofi frozza, em “Mais que eu”, uma versão de “Turquesa”, até o rock em “Como me dói”, com o Clube Dezenove, e também chega na MPB com “Daniel”, uma música acústica com o lekinn. Então, os processos criativos dos EPs foram nos lugares de explorar vertentes específicas que eu gostava muito e de gostar de colaborar com os outros, tanto que faço isso no quarto EP, Frenesi, que é de remixes, porque entendo que, enquanto artista solo, a maior vantagem que a gente tem é autonomia pra fazer coisas diferentes.
Por outro lado, quando fui gravar o disco, não queria explorar uma vertente específica, queria algo que me representasse como um todo, algo que navegasse por todos os lugares musicais que me inspiram, e pra mim isso é o mais legal, tanto que o disco abre com uma faixa que referencia totalmente Jovem Guarda, Erasmo, Roberto, e final dos anos 70, com o Revolver e o Sgt. Peppers, dos Beatles, e até o primeiro disco do Fábio Júnior inspira “Na Espera”, mas em “Falar é fácil demais” e “Low-profile” exploro a música brasileira, o quanto amo o acústico dos Titãs, do Capital Inicial e também Clube da Esquina; e aí “Frio” é uma música que grita Terno Rei, dream pop contemporâneo; já “Miopia” mostra um pouquinho do quanto eu gosto de shoegaze; e “Adeus é para os fracos” tem a dualidade de ter um easter egg que brinca com uma canção do Paul McCartney né? E eu adoro que o disco acaba voltando pro começo, né? Porque “Futuro presente” é uma faixa muito galgada no violão, que conversa com o começo do álbum, mas tem algumas camadas de sintetizadores.
E sobre “Low-profile”, mesmo sendo sobre a gen z, a gente vive em um momento em que quase tudo é medido pelos números das redes… como você vê a sua relação com as redes sociais e como isso impacta no seu trabalho? É possível ser low profile sendo artista em tempos de redes sociais?
Eu vejo as coisas em duas vias. Entendo que as redes sociais são imprescindíveis e que é impossível construir uma carreira enquanto artista independente, do zero, sem trabalhar as redes sociais da melhor forma possível. Mas pessoalmente, não me sinto confortável em criar conteúdo para a internet como gostaria. Vivo um grande dilema. Quero criar conteúdo para alcançar novas pessoas e fazer com que quem já gosta da minha música se sinta de fato engajado e parte de uma comunidade, mas tenho receio de criar conteúdo falando, opinando, enfim, de modo que eu conquiste um público que adora minhas falas e meus vídeos, mas não se converte em ouvintes reais. Espero driblar essa situação em breve. Errando, acertando, errando. Acho que é parte do processo. No fim das contas, é uma pena ter essa sensação de que a música pela música não basta.
E você citou seus processos criativos anteriores e suas influências dos anos 80, 90… e esse trabalho agora, o álbum, é uma junção de todas essas influências e trabalha muito esse conceito do tempo, da nostalgia… você se considera uma pessoa nostálgica? Muita gente diz que é ruim ser nostálgico, outras acham que é um sentimento bom… e você? O que pensa sobre isso, especialmente em relação à música?
Eu amo a nostalgia. E eu sinto que ela pode ser um bom fio condutor para quem nós vamos nos tornando enquanto adultos. Nascemos como uma página em branco, e vamos nos construindo conforme vamos adquirindo repertório. Por isso, a nostalgia pode vir até mesmos daquelas coisas que existiam e foram lançadas antes mesmo da gente ter nascido. Beatles foi a minha primeira grande paixão musical, então fui ficando mais velho e me aprofundando cada vez mais. Demorei anos para entender que o Paul era o meu Beatle favorito. Demorei anos para realmente ouvir a discografia solo dele. E hoje são coisas que fazem parte das coisas que mais amo e referencio musicalmente. Eu gosto muito da nostalgia e acho que ela pode ser super positiva.
Vi seu show na Feira Gato e ouvi a música sobre o Regis Tadeu, achei muito legal e vendo sua explicação, concordo com vc. Falando do meu lado e passando um pano pra mim e pros amigos de veículos independentes, rs., nós que não vivemos do site, acabamos mesmo ignorando aquilo que não gostamos muitas vezes por falta de tempo pra poder falar de tudo, aí focamos no que a gente gosta, mas concordo com você e sinto que, às vezes, até grandes veículos parecem ter medo de falar o que pensam de algumas bandas/artistas. Mas e do lado dos artistas? Você acha que existe hoje uma resistência maior a críticas? Vejo muito artista que, quando criticado, prefere jogar a responsabilidade em haters da internet do que rever algumas questões do próprio trabalho… você acha que isso tudo também é um efeito das redes sociais?
Com certeza! São dois fatores. O primeiro está relacionado ao ego megainflado dos artistas, que têm medo das críticas. Que não entendem que podem errar, que são humanos. E que, para além disso, nunca vão agradar a todos e não entendem o potencial que uma crítica têm – no sentido de atrair ouvintes curiosos, que podem se tornar potenciais fãs. Afinal, inúmeross discos que foram massacrados pela crítica se tornaram sucessos comerciais estrondosos. Mas o outro lado da moeda também é importante. Muitas vezes o veículo de imprensa não fala mal porque está nas mãos do mercado. Como um site relevante, que é pago pra fazer anúncio de grandes gravadoras e até diretamente de artistas de médio porte, para além das entrelinhas do business, vai falar mal expressamente de lançamento A ou B? Qual foi a última vez que um disco de uma cantora pop mainstream foi abertamente criticado pela mídia? Existe o medo de hate dos fãs-clubes, existe o medo das represálias das gravadoras e afins. Enfim, Régis é uma música que fala um pouco disso, mas que usa um eu-lírico em primeira pessoa para parecer que é sobre o lado do artista que tem medo de ser criticado na internet.
Agora eu queria falar sobre as colaborações desse disco. Como surgiram essas colaborações, especialmente a com a Valiant Blues, que é uma banda de fora?
Conheci o trabalho da Corama através de amigos em comum e entendi logo de cara que poderíamos fazer algo especial juntos. Por isso, convidei ela para participar da faixa-título.

Já a Valiant Blues é um caso diferente. No meio da pandemia, o Tristan e a Belém, guitarrista e baixista/vocalista da Valiant, me seguiram no Instagram porque sempre ouviam minhas músicas no Spotify, especialmente “Turquesa”. Eu fiquei muito feliz em ver minhas canções, quase todas em português, atravessando o oceano dessa forma. Depois de algum tempo, construímos uma relação de amizade virtual muito especial, começando a trocar demos, referências e tudo mais. Assim, nasceu nossa primeira parceria em 2023: o single “Yourself In A Shell”.
Quando estava definindo o repertório do Futuro Presente, olhando as demos que tinha guardado me deparei com essa colaboração inacabada com a Valiant. Entendi que “Adeus É Para Os Fracos” dizia tudo o que eu sentia em relação à urgência e a perspectiva de que o jovem adulto contemporâneo não tem tempo para sofrer. O dinamismo do século 21 e até o próprio capitalismo, muitas vezes, nos obrigam a seguir adiante antes mesmo de superar traumas e dores, sabe?
Adoro que as colaborações do disco nasceram de forma remota, com amizades feitas a distância. A internet é uma grande ferramenta para construirmos pontes com os mais diversos artistas. Gosto muito de trabalhar com bandas e compositores diferentes sempre. É inspirador.
E com quem você gostaria de trabalhar um dia no futuro?
Ah, sempre temos vontade de trabalhar com artistas e profissionais que admiramos e escutamos. Tenho vontade de colaborar com algumas bandas como A Terra Vai Se Tornar Um Planeta Inabitável, Pelados, Raça, jonabug, Morro Fuji, Jambu, Tuyo, Chico e o Mar, Varanda e Caco/Concha. E também, claro, artistas como Luiza Brina, Maria Beraldo, Papisa, Alê Sater, Sophia Chablau, Fernando Motta, Jade Baraldo, Zé Ibarra e Julia Mestre. Só alguns nomes que amo e, quem sabe um dia, as coisas possam fluir.
Agora queria que você falasse sobre os shows da era Futuro Presente?
Eu já preparei três formatos possíveis pras apresentações né? Um com banda, outro voz e violão e outro com só mais um músico soltando as bases e eu fazendo voz e guitarra, mas, nesse momento, não tem nenhum show marcado e a gente não está com tanta pressa pra marcar os primeiros shows do disco, até porque, na música independente a gente sempre acaba dependendo de uma série de variáveis, né? Eu tenho uma banda que está comigo sempre, então eu tento casar minha agenda com a agenda dos meninos porque, por mais que seja um projeto solo, ao vivo funciona como uma banda.
E pra terminar, queria que você indicasse outros artistas ou bandas independentes que você acha que quem ouvir seu disco, vai curtir também ou que você ouve muito e acha válido indicar.
Vou aproveitar esse espaço pra divulgar artistas e bandas novas que acho que têm trabalhos incríveis: Daguerre, Os Fugitivos, Pratagy, Feli Ruiz, Uiu Lopes, Rafael Castro, Capote, Samuel Amaro e Disk Mandy.
Ouça o disco na sua plataforma favorita e siga Pablo Vermell nas redes sociais do artista



