
Formado por João Zablonski, Guilherme Oliveira, Felipe Amaral e Carlos Eduardo, o projeto A Terra Vai Se Tornar Um Planeta Inabitável mistura a brasilidade e a música experimental. Transmitindo a energia e o ruído que habitam o ser de cada um dos integrantes, a banda compõe sobre temas como os relacionamentos, as despedidas e o fim do mundo.
O conjunto tem se movimentado dentro do underground. Em 2023, lançaram o álbum homônimo de estreia, com nove faixas produzidas e publicadas de forma independente. O trabalho mais recente da banda, o EP “ident II dades”, foi lançado em junho deste ano e conta com seis faixas que reforçam a estética do experimental.
>>ident II dades apareceu na nossa lista de melhores de junho, confira
Como e quando A Terra Vai Se Tornar Um Planeta Inabitável? E o que será produzido pela banda até lá? Isso é um pouco do que você acompanhará nessa entrevista, que transita entre o começo, o meio e o inevitável fim de tudo que já pisou nesse planeta algum dia.
Vamos começar pela gênese – o conjunto de fatos ou elementos que contribuíram para produzir uma coisa. Quando e como foi o “Big Bang” da A Terra Vai Se Tornar Um Planeta Inabitável? Há quanto tempo vocês se conhecem?
ATVSTUPI: Em meados de 2022, eu (João Zablonski) tava sem fazer nada, tinha acabado de chegar de um lugar com amigos, a gente tava passeando e eu tava com a ideia de fazer uma banda, esse negócio tava na minha cabeça fazia muito tempo já. Eu cheguei em casa e tinha uns amigos na internet que faziam música, já tava começando a borbulhar um negócio no Twitter de gente fazendo música e eu fiquei muito interessado. Falei “pô, cara, também sou músico já, mas não tem banda”. Tinha um amigo chamado Caio Bueno, ele é meu amigo de longa data, eu mandei mensagem pra ele, ele era musicista também, a gente trocou uma ideia: “Vamos fazer um projeto?”. Aí eu pensei em mais gente para chamar. Chamei um outro amigo também e aí a gente começou a rascunhar esse projeto de noite, tipo, no mesmo dia, a gente já começou a abrir a ideia de nome, de qual sonoridade a gente poderia fazer e tal.
De começo, a gente chegou na ideia do nome assim: cada um da banda deu três nomes e ninguém sabia qual era o melhor, [então] falamos “vamos colocar num site de roleta no Google e o que cair a gente usa, não pode trocar”. Aí ficou A Terra Vai Se Tornar Um Planeta Inabitável.
Por qual motivo vocês optaram por explorar essa sonoridade um pouco mais experimental, que, de certa forma, faz com que não seja possível definir um estilo musical exato para a banda? Isso é bom?
ATVSTUPI: É que às vezes acontece sem querer, sabe? No primeiro disco a gente não fez pensado para ser um shoegaze, aconteceu porque, a nível de técnica, na época, era muito escasso e o que a gente tinha de material para produzir também era muito escasso. Então acabou sendo tudo de baixa qualidade e gerou esse negócio de ser shoegaze, mas a gente nunca pensou no disco em si e na nossa cabeça era um pós-rock. Era uma influência que a gente tinha na época.
Só que aí a gente foi trabalhar em outros projetos e a sonoridade tava melhor, a gente tava mais acostumado a trabalhar, e aí surgiu essa possibilidade de a gente fazer, sei lá, a cada lançamento a gente faz um gênero diferente e acaba que fica muito distante uma coisa da outra. Porque se você pegar o primeiro disco e ouvir na íntegra, você vai achar uma coisa, se você pegar a Odisseia, que é uma música nossa de 20 minutos, você vai achar outra coisa. Nossa cabeça vai mudando, a gente vai amadurecendo nesse meio tempo, então nunca acaba sendo a mesma coisa. E eu acho que é bem positivo, porque é um diferencial que a gente achou nesse nosso meio de fazer as coisas. Porque a gente geralmente pensa e ouve coisas muito parecidas, as nossas influências são quase as mesmas, mas aí, sem querer, no processo, uma coisa muda totalmente o resultado e aí fica totalmente dissonante. Eu acho isso muito lindo.
Pensando nessa questão, isso abre um leque de possibilidades para ter mais referências para suas letras e composições. O que toca nos fones de ouvido dos membros do ATVSTUPI?
ATVSTUPI: Eu (João Zablonski) sou mais do MPB, do rock mais leve assim, o Gui já gosta das coisas japonesas e nunca tá ouvindo uma coisa mainstream, o mais [mainstream] que ele ouve é Mac DeMarco, que todo mundo conhece, mas ele entra para mostrar uma música e mostra uma que foi gravada por uma banda em 1990, só tem aquele lançamento no YouTube e ninguém sabe quem que é o cara que fez a música (risos). Aí tem o Edu, que gosta de um negócio mais pesado, mais porrada.
Então cada um traz uma vertente e a gente consegue se encontrar nessa vertente que é o meio termo de tudo que a gente gosta, sabe? A gente sempre faz uma música pensada por querer agradar o meu eu, o eu do Edu, o eu do Gui. Porque a gente pensa não só na diversão de tocar a música juntos, mas na diversão de se agradar primeiro e a sonoridade de cada um estar confortável tocando o que gosta realmente, porque é totalmente diferente a gente fazer uma música que, sei lá, só eu trouxe a música e fazer uma música que todo mundo colabora e que todo mundo traz aquele sentimento, aquela virtude que só ele tem tocando, sabe? É uma referência musical individual, acho muito bonito também.
Entrando na discografia do grupo, em 2023 a banda lançou o seu álbum homônimo de estreia, que foi produzido e publicado de forma independente. O que esse disco significa para a história do grupo e de que forma o processo de ser responsável pela produção total das faixas impactou vocês?
ATVSTUPI: Foi um processo muito doido, um processo que a gente pegou de começo ao fim trabalhando intensamente à distância, então dificultava tudo. E aí, depois que a gente lançou, teve um sentimento de conforto e de paz, a gente se encontrou musicalmente, porque deu muito trabalho fazer. De 15 músicas que a gente fez, só nove ficaram, tem músicas que a gente fez e nunca lançou. Mas a gente encontrou um momento de paz, um momento de conforto, um sentimento que a gente tem hoje só de agradecimento, porque foi o trabalho que levou a gente para lugares que a gente, hoje em dia, não imaginaria chegar se não fosse esse lançamento.
É muito individual esse sentimento de cada um, cada um ali pensa de um jeito, mas para mim (João Zablonski), que fui o único daquela [primeira] formação, é muito gratificante, porque acho que não tem nada mais bonito do que a arte explícita que a gente fez naquela época, com o pouco recurso que a gente tinha, a gente chegou a fazer no celular gravando com a guitarra dentro do guarda roupa. E foi um processo muito lindo. O sentimento que eu tenho é de agradecimento mesmo e paixão por esse trabalho.
E aí já no segundo grande trabalho, o EP “o fim é um começo”, que, inclusive, é colaborativo com uma outra banda, a Magnólia, vocês lançam por meio de um selo musical, o “Quituts”. Fazendo um paralelo entre a produção independente e a produção colaborativa com um outro coletivo, o que vocês sentiram e perceberam de diferente?
ATVSTUPI: No processo individual como banda, a gente leva mais em consideração passar um tempo junto do que fazer música. A gente preza muito o contato, da gente se encontrar e ficar conversando antes mesmo de começar a realizar uma produção de uma música, então surge muito natural as ideias. Num processo colaborativo, pra gente, é mais difícil, porque, tipo, a pessoa chega e tá “de outra cor” para a gente, sabe? Geralmente quando a gente tá fazendo uma música de banda, a gente tá todo mundo amarelo, por exemplo, e chega uma pessoa diferente, tá azul. E as ideias ficam diferentes. É um processo muito mais difícil, acaba saindo quando vem com uma ideia legal, mas é difícil.
Tem um trabalho bem interessante e curioso da banda, o “A Odisseia de 80 Dias”, que é uma música com 18 minutos de duração. O Spotify chega a caracterizar como um EP por conta disso, mesmo sendo um disco de apenas uma faixa. Levando em consideração o padrão de consumo e produção da indústria da música, isso, hoje, é uma loucura.
Como vocês lidam com essa questão das plataformas de áudio e de vídeo, onde tudo tem que ser condensado em dois ou três minutos para ser aceito e consumido pelo público mainstream?
ATVSTUPI: Hoje em dia é mais preocupante do que era antigamente, sabe? No começo ali a gente fazia por fazer mesmo, porque a gente gostava e tal. Hoje em dia a gente pensa em fazer músicas mais compactas para o nosso processo de distribuição, que é para gerar renda para gente conseguir viver só disso e, especialmente, ter só esse caminho para fazer, ter só esse zelo, ter a liberdade de tempo de fazer uma música. Então a gente, hoje em dia, pensa por um caminho mais comercial do que era antigamente, mas na época foi doideira.
A gente se reuniu e durou, sei lá, três semanas de produção, ficando todo final de semana junto. A gente nem imaginava que ia chegar a 20 minutos de música, a gente só foi fazendo, fazendo, fazendo, fazendo e chegou. É o maior trabalho que a gente tem até hoje disparado, a gente lançou sem pretensão nenhuma e é uma música que atingiu, sei lá, 30.000 streamings em menos de um ano de lançamento. A gente não entendeu, ficou todo mundo: “Pô, como é que essa música tem 30.000 streams? Tem 20 minutos!”, e tem música de, sei lá, dois minutos, que tem 10.000, 15.000, não chega nem perto. É o nosso trabalho mais elogiado, que se compara muito ao Pink Floyd, com as doideiras da vida aí.
E de que forma vocês enxergam esse mainstream enquanto artistas? É um objetivo? Consideram que o som de vocês seria aceito pela grande massa?
ATVSTUPI: Os trabalhos que a gente fez até agora são mais nichados para agradar o nosso público, que já é fiel desde o começo da banda. Mas a gente hoje em dia pensa em fazer músicas que, sei lá, de algum jeito, consiga furar essa bolha. A gente quer fazer isso do nosso jeito, sabe? E eu acho que a massa que domina isso ainda é muito plástica, é muito reta, tem que fazer certinho para realmente dar certo e tal. Mas a gente quer tentar fazer isso do nosso jeito.
Vocês já se apresentam ao vivo, inclusive fizeram dois shows alguns dias antes dessa nossa entrevista. Experimentar no palco é muito diferente do experimentar em estúdio? O que veio de novo com o som ao vivo?
ATVSTUPI: Eu acho que ficou a facilidade da gente compor. Antigamente a gente não tocava ao vivo, era só banda de estúdio mesmo. E aí no começo desse ano a gente começou a se apresentar ao vivo e era mais ou menos assim: a gente tocava as músicas e sentia que as músicas no ao vivo funcionavam mais que no estúdio. Então, hoje em dia a gente faz música mais pensada para tocar ao vivo do que para funcionar em estúdio, sabe? Porque a energia do show é totalmente diferente e parece que é um negócio mágico. E para gente é muito mais gratificante tocar ao vivo do que só ficar lançando música.
A gente já pensa nos instrumentos. Tipo, se tem dois guitarristas, a gente pensa, “pô, vamos colocar umas duas guitarras”. Na música não dá pra colocar quatro guitarras, senão vai ficar um pouco difícil de fazer [ao vivo], sabe? A gente pensa de uma forma muito diferente do que quando a gente fez antes.
E o público tem abraçado vocês no ao vivo, além do Spotify?
ATVSTUPI: Pô, demais, a galera cantando as músicas que a gente tinha lançado no dia do show de abertura do EP. Lançamos de dia, chegamos de noite para tocar e os caras já estavam cantando a música, todo mundo cantando.A gente ficou muito louco, porque é de outro mundo, a gente não é nem famoso para isso. Depois que acabou o show, pensamos “acertamos mesmo!”.
Aproveitando essa temática, o que vocês planejam para o futuro da Terra Vai Se Tornar Um Planeta Inabitável? Mais trabalhos de estúdio ou é hora de tocar ao vivo o que já foi lançado até aqui?
ATVSTUPI: Já começamos a produção do segundo disco. A gente quer fazer o melhor trabalho da banda, e aí a gente começou um ano antes o processo para gravar só no ano que vem só e lançar só final do ano. E aí a gente tá trabalhando intensamente nas músicas. Mas a gente tá fazendo sempre tudo pensado ao vivo, porque o ao vivo conquistou a gente depois que a gente começou a tocar.
É muito mais bonito assim, ver a música como ela é ao vivo do que em estúdio. Não que eu não goste das versões de estúdio, eu amo, mas ao vivo não tem preço. O sentimento de você ver as pessoas cantando e ver os instrumentos soando, quando entra a bateria, nossa, é tudo muito bonito. É uma coisa que a gente tá estudando mesmo, é fazer música pensando no ao vivo para melhorar a experiência de show e, consequentemente, a pessoa que ouve o áudio no Spotify ou no YouTube tem o mesmo sentimento ouvindo ao vivo, é até melhor.



