
El Mató a un Polícia Motorizado (Créditos: Flavio Santiago @onstage666)
No dia 11 de outubro, enquanto uma manifestação histórica tomava o centro da cidade para lutar contra a ascensão da extrema-direita, o Cine Joia recebia a banda El Mató a un Policía Motorizado para mais um capítulo de uma relação que já dura quase duas décadas.
A banda argentina voltou a São Paulo pela turnê de seu disco mais recente, Súper Terror (2023), dois anos depois de brilhar numa tarde de sol impiedoso no Primavera Sound São Paulo. Desta vez, tendo o público inteiramente para si.
Show de abertura: Los Otros
Antes mesmo de que o show de abertura começasse, a casa já tinha um público considerável, e alguns fãs guardavam lugar junto ao palco com a clara determinação de quem não sairia mais dali nem para ir ao banheiro.
Coube ao trio Los Otros, formado por Tom Motta (guitarra e voz), Isabella Menin (baixo e voz) e Vinicius Czaplinski (bateria), fazer o aquecimento da plateia no Cine Joia. Logo de início, um problema técnico no baixo de Isabella travou o show. Tom contornou o impasse de modo eficiente: puxou um “olê, olê, olá, Lula, Lula!”. O coro, que reverberou de imediato, viria a se repetir em diversos momentos daquela noite.
Superado o contratempo, o grupo mostrou carisma, virtuosismo, vozes afinadas e boas canções, com notável capacidade de performance ao vivo. O set foi curto, mas bastou para que o trio fosse intensamente aplaudido por um público caloroso e interessado.
El Mató a un Policía Motorizado: entre a euforia musical e a esperança política
Com cerca de meia hora de atraso, a El Mató subiu ao palco. Santiago Motorizado (baixo e voz), Willy “Doctora Muerte” (bateria), Manuel “Pantro Puto” (guitarra), Gustavo “Niño Elefante” (guitarra) e Agustín Spassoff “Afloyd” (teclados) abriram o show com Navidad en Los Santos. Na sequência, Un Segundo Plan, faixa de abertura de Súper Terror, trouxe o clima oitentista do disco que move a turnê.
Depois de La Noche Eterna, hit do cultuado álbum La Síntesis O’Konor (2017), o coro por Lula voltou. Em Diamante Roto, o público se sentiu tomado o suficiente para abrir o primeiro mosh da noite, misturando inflamação política e musical num vínculo estabelecido entre dois povos que, no futebol e na vida, insistem em se tratar como inimigos.
Em seguida, conforme soava a guitarra de abertura de Medalla de Oro, canção que conversa com a festa argentina pelo título da Copa do Mundo, Pantro Puto colou um adesivo do Lula no peito. Com isso, a plateia veio abaixo, gritando e fazendo a letra “L” com os dedos, orgulhosa como quem segura uma taça de Copa do Mundo nas mãos — ou ao menos como quem anseia por conquistá-la.
Ao fim da música, um grupo que mais cedo acompanhava o clássico Grêmio e Internacional pelo celular arremessou uma camisa do Grêmio para o palco. Santiago aceitou o presente com algum temor, mostrou o escudo do clube lentamente para o público e, tímido, perguntou algo como “está tudo bem mostrar o escudo desse time?”. A reação indiferente da plateia tranquilizou o vocalista, que respondeu com um sinal de positivo.
Depois de Mujeres Bellas y Fuertes e Más o Menos Bien, o público entoou um “vamo, El Mató”, ao que Santi devolveu um coração feito com as mãos. Vieram então as faixas Sábado e Tantas Cosas Buenas e, antes de El Tesoro, uma pausa para relembrar: o frontman da banda contou que faz 19 anos desde a primeira vez que a banda tocou em São Paulo. Foi em 2007, no extinto Inferno Club, na Rua Augusta. E a noite no Cine Joia se apresentava como mais um capítulo dessa bonita história.
Amigo Piedra, Destrucción e Yoni B levaram o show ao seu momento mais simbólico. Santiago avisou que a próxima música era “para o 13”. O coro por Lula recomeçou e a banda emendou Excálibur, cujo título remete à espada da lenda arturiana, a espada que só o governante legítimo pode empunhar.
Após El Mundo Extraño, o set principal terminou com El Fuego que Hemos Construido. A banda então deixou o palco rapidamente, sem dizer nada, e a plateia ficou sem saber se era o momento de pedir bis. O staff da El Mató subiu ao palco para afinar os instrumentos e encerrou a dúvida.
O encore começou com El Magnetismo e Ahora Imagino Cosas. Então, Santi anunciou que Fuego seria a última e perguntou se estava tudo bem. Ouviu um sonoro “não”. Assim, abrindo mão do cerimonial de despedida que tantos artistas fazem questão de preservar, a banda ainda emendou Chica de Oro e Mi Próximo Movimiento, encerrando a apresentação de forma enérgica.
Não por acaso, a noite passou duas vezes pelo fogo, elemento que atravessa a obra da El Mató e fecha todos os seus discos. Esse show, que é parte de uma turnê mundial bem-sucedida com diversas datas esgotadas, mostrou uma banda irretocável, à altura do tamanho que alcançou ao longo dos anos, e deixou em seu público um sentimento que está entre a euforia musical e a esperança política. Lá fora, a cidade ainda se via úmida pela chuva que caiu à tarde.






