
Há mais de três décadas, o riot grrrl provou que uma guitarra suja, uma bateria sem cerimônia e uma voz disposta ao deboche bastavam para incomodar. Em Florianópolis, a Dirty Grills recorre a esse legado para romper barreiras e se divertir.
Formado em 2021 por Jéssica Gonçalves (guitarra e voz) e Mariel Maciel (bateria), duas veteranas com mais de 20 anos de cena independente catarinense, o duo chega ao terceiro EP, “Depressão Pós-Party”, com quatro faixas de fuzz, reverb e velocidade, gravadas em 2025 no Estúdio Aurora, em São Paulo.
A principal virada está no idioma. As letras agora vêm em português, escolha que Mariel define como “um desafio enorme” e que aproxima o sarcasmo habitual da banda de um cotidiano bem reconhecível. Os títulos funcionam como pequenas cenas, e “Toque de Recolher na Ilha” ecoa noites em que o público precisou se trancar dentro dos bares para se proteger da ação policial. “Se isso não virar assunto pro artista, pra quem vive isso no cotidiano, acho que tem algum problema aí”, afirma.
Na conversa, Mariel também fala do método sem fórmula do duo, da dinâmica como condição para que o peso faça sentido, da parceria com o Aurora Discos e de uma trajetória que já passou por Psicodália e Bananada.
E antecipa a próxima parada: o Festival DoSol, em Natal, que para a baterista, fã declarada do Far From Alaska, tem a força de sonho realizado.
Musicult entrevista: Dirty Grills
“Depressão Pós-Party” reúne letras que observam o cotidiano com sarcasmo, enquanto a música reage com urgência e peso. Como vocês transformaram essas situações em canções e o que esse contraste revela sobre o momento atual da Dirty Grills?
Não temos nenhuma fórmula para fazer música, esse EP foi feito da mesma maneira que os outros. Geralmente a Jess vem com um riff ou com uma frase e partimos daí, brincando na hora. Os temas são sempre variados, nenhuma música precisa conversar com a outra nesse ponto e a gente gosta de comunicar isso com humor e barulho, principalmente ao vivo. Então, acho que esse contraste do sarcasmo com o peso sempre foi uma característica presente nos nossos trabalhos, até porque nós somos o que as pessoas vêem mesmo, duas amigas se divertindo despretensiosamente.
A escrita em português aparece como um desafio assumido neste EP. O que mudou na construção das letras, na escolha das palavras e na própria interpretação vocal para que o idioma preservasse a crueza e a energia da banda?
Nossa, sem dúvida, escrever em português está sendo um desafio enorme, e o que mudou na construção das letras é que está tudo muito mais complexo (rsrss). Mas a ideia é manter uma linguagem mais informal e solta, que converse fácil com nosso público, sendo uma extensão de como a gente é na vida. Ainda estamos experimentando tudo sem pensar muito. Se soou bem, funcionou, se não, recomeçamos. Estamos bem animadas com essa nova fase!
Em um duo, cada instrumento ocupa muito espaço, mas também precisa sustentar tudo o que a música exige. Como guitarra, bateria e vozes foram organizadas em “Depressão Pós-Party” para criar essa sensação de volume e movimento?
Em termos de composição a gente não é muito organizada. A Jess puxa um riff e eu vou atrás, e assim vamos vendo o que acontece, o que a música pede e o que nos agrada. Nesse ep tem “Superglue”, que foi nossa primeira composição da vida e ela foi feita da mesma forma. Mas o que aprendemos como duo e também no estúdio é a importância da dinâmica pro peso poder brilhar e fazer sentido como a gente gosta, sem ficar simplesmente uma massa sonora. Agora, em termos de gravação, a gente só agradece ao Aurora Discos por nos proporcionar essa segunda experiência de gravação naquele parque de diversões que era o estúdio Aurora. Eles sempre entenderam muito bem nosso som, mais do que a gente até (risos), e sempre se jogaram de cabeça nas ideias e arranjos no estúdio!
As quatro faixas têm títulos que funcionam quase como cenas ou pequenas narrativas, especialmente “Toque de Recolher na Ilha” e “Devido à Turbulência, o Serviço de Bordo Foi Cancelado”. O que esses títulos revelam sobre o modo como vocês observam Florianópolis, as relações e os desconfortos da vida cotidiana?
Floripa é um lugar super fascista, vivemos períodos muito tensos aqui à noite, com a polícia boicotando bares e casa de shows, usando de força bruta e abuso de poder desnecessário com a galera na rua, por nada. Inúmeras vezes tivemos que nos trancar dentro dos bares para nos proteger de quem deveria estar nos protegendo. Se isso não virar assunto pro artista, pra quem vive isso no cotidiano, acho que tem algum problema aí. De qualquer forma, temos muita sorte e um privilégio enorme de vivermos numa bolha de pessoas incríveis aqui em Floripa, numa cena extremamente resiliente e unida!
A Dirty Grills nasceu durante a pandemia e chega ao terceiro EP depois de ampliar sua circulação por diferentes festivais e cidades. Quais experiências acumuladas desde 2021 entraram neste disco, mesmo quando não aparecem de forma explícita nas letras?
Acho que assim como milhões de bandas vindas da pandemia, a gente já nasceu com uma gana monstruosa de voltar a existir, fazer e acontecer, assim como o público, claro, que sem isso não teria nada. Então as coisas aconteceram muito fluidamente pra gente desde o começo, graças à galera que curte nosso som. Desde então já fizemos 2 Maratona cultural, Psicodália , Festival Bananada, Rock in Rio no Espaço Tagima, inúmeros shows em São Paulo e sul do Brasil. A próxima parada vai ser o Festival DoSol em Natal e continuamos contando as próximas paradas.
O EP também integra o repertório que vocês levam exatamente ao citado Festival DoSol, um dos eventos mais importantes da música independente brasileira. O que significa apresentar esse trabalho em um palco dessa dimensão pode abrir novas conexões para a Dirty Grills fora dos circuitos em que vocês já atuam?
Poxa, pessoalmente falando, eu estou realizando um sonho de tocar lá, viu (risos!) Sou MUITO fã do Far from Alaska, que é de Natal, e desde que conheci eles, vendo eles tocar lá com mil bandas incríveis, fiquei apaixonada pelo festival! Então, não vemos a hora de curtir esse momento e poder trocar ideia com a máximo de gente legal possível. E esperamos muito que a galera curta o show, claro!



