
O cantor carioca mergulhou de cabeça no Universo em Desencanto. Foto: Reprodução.
Além de talentoso, talvez os primeiros adjetivos que se vem na cabeça ao lembrar de Tim Maia podem ser “esquentado” e “reativo”. Apesar disso, por um breve período a paz reinou na vida do cantor carioca, que deu um tempo nas drogas e melhorou a alimentação e a aparência, além de ter alcançado o seu ápice vocal com o álbum Racional, dividido em dois volumes publicados entre 1975 e 1976.
Mas não é assim que essa história termina. Na verdade, tem muitos capítulos dentro dela, desde o rompimento com uma grande gravadora até esperar a chegada de discos voadores que o levariam para o “planeta que ele realmente pertencia”. Após cair na real e perceber que foi enganado, o cantor fez de tudo para tentar apagar a fase “Racional” da sua carreira.
Em comemoração aos cinquenta anos do disco, hoje cultuado por fãs e colecionadores, o Musicult resgatou essa história maluca, que você acompanha abaixo.
O estilo de vida de Tim Maia pré-racional
Tim Maia se tornou um nome promissor da música brasileira enquanto cantor solo já no seu primeiro disco, o “Tim Maia”, de 1970. Ali, estavam sucessos como “Primavera (Vai Chuva)”, “Eu Amo Você” e “Azul da Cor do Mar”. No ano seguinte, o artista se consolidou de vez com o segundo disco, também homônimo, que tinha a presença das canções “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)” e “Você”. O tão esperado sucesso que Tim aguardava desde a época dos Sputniks, onde foi colega de banda de Roberto Carlos, havia chegado para ficar.
Entretanto, junto com o sucesso vieram os excessos. Com mais dinheiro, consequentemente, as drogas ficaram mais acessíveis, principalmente a cocaína e o álcool. Esse era o estilo de vida de Tim a partir dali, meio “sexo, drogas e rock’n’roll” (ou, no caso dele, “sexo, drogas & Soul”).
O universo em desencanto e o retorno ao verdadeiro mundo de origem
Um dia, em uma visita ao seu amigo e também músico Tibério Gaspar, Tim Maia teve acesso a um dos livros da coleção “Universo em Desencanto”, escrito por um médium carioca chamado Jacinto Coelho. Na obra, o autor prometia “um conhecimento do retorno da humanidade ao seu ‘verdadeiro mundo de origem’”.
Tim se interessou e questionou Tibério sobre o tal Universo. O amigo prontamente sugeriu fazer uma aproximação entre o médium e o cantor, o levando para acompanhar um culto da Universo em Desencanto em Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro.
Fazer parte da Universo em Desencanto exigia sacrifícios, tanto financeiros, como se desfazer de todas as coisas com valor material, quantos espirituais, ao se afastar das drogas, do consumo da carne vermelha e do sexo. Jacinto argumentava que isso faria com que os fiéis alcançassem um propósito maior, com uma vida de purificação que os conectaria com seres de um outro planeta.

A mudança na forma de fazer música na nova fase
O conceito da seita entrou na cabeça do Tim e não parou por aí. Toda a banda teve que “viajar” junto com o cantor. Serginho Trombone, um dos músicos que participou dos dois volumes de “Racional”, contou para o site Cliquemusic, em 2000, que os instrumentistas também deviam seguir as normas empregadas pelo líder da Universo em Desencanto e repassadas por Tim.
“Foi uma fase muito doida. O Tim vivia olhando para o céu procurando discos voadores. O pior de tudo é que ele convenceu a banda inteira a entrar para a seita. Pintamos todos os instrumentos de branco, até a bateria […] Ele acabou sendo o grande prejudicado, pois teve de se livrar de todos os produtos materiais de seu apartamento. Jogou fora fogão, geladeira e até o carpete da sala.”
O artista já vinha trabalhando em algumas músicas, que foram interrompidas e modificadas após a sua iniciação no Universo em Desencanto. Com roupas brancas, uma bíblia, e sem o seu tradicional cabelão Black Power, Tim fez sugestões de alteração nas letras e as apresentou para a sua gravadora naquele momento, a Polygram, que não gostou nada. Eles acharam aquela ideia “gospel demais” para o que esperavam de Tim Maia, já que as canções teriam referências aos ensinamentos adquiridos nas pregações da seita. Resultado: contrato rescindido e Tim se tornou um artista independente, fundando posteriormente sua própria gravadora, a Seroma.
A mudança teve um lado positivo e outro negativo. A vantagem é que, a partir daquele momento, Tim seria dono integral da sua obra, sem precisar dividir lucros com uma gravadora. Mas a desvantagem é que, sem o apoio para a divulgação, mesmo já sendo um artista grande, seria impossível vender muitos discos por falta de distribuição. A solução foi entregar os vinis por conta própria em lojas de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas a estratégia não funcionou e as vendas não passaram nem perto dos álbuns anteriores.
Foi um boicote tanto da mídia, que não tocava as canções do “Racional” nas rádios, com exceção da faixa “Que Beleza”, e dos próprios fãs, que não gostaram muito da capa com mensagens e figuras em alusão ao Universo em Desencanto.

Já chegou o disco voador?
Mais ou menos no fim de 1976, após uns anos vivendo dentro das normas do Universo em Desencanto, Tim Maia se cansou e desistiu. Não tinha nenhum disco voador vindo buscá-lo. E aí que a versão antiga do artista voltou como nunca. Tim, enfurecido, estava disposto a até mesmo dar fim à vida de Jacinto, o que não chegou a acontecer.
Jacinto ficou vivo, mas não impune. Tim Maia e os seus músicos, que também passaram a fazer parte da seita e largaram todos os seus bens materiais por ordem do cantor, invadiram a sede da Universo em Desencanto para confrontar o líder da seita. Serginho Trombone, na mesma entrevista para o Cliquemusic, contou:
“O Tim estava possesso. Ele foi para a janela de entrada da Universo em Desencanto e passou a gritar para todos que passavam na rua que aquilo tudo era uma grande farsa, que o Manoel Jacinto era um charlatão, que só queria o dinheiro dos fiéis. Ele gritava: ‘Cadê o disco voador? Cadê o disco voador?'”
De volta ao planeta Terra…
Até o fim da sua vida, Tim Maia fez tudo o que pôde para apagar a fase Racional da sua história. O cantor impediu até mesmo uma regravação da faixa “Que Beleza”, que seria feita por Marisa Monte em seu álbum “Barulhinho Bom”, de 1996. Ele estava convicto que as músicas do Racional Vol. 1 e Vol. 2 deveriam ser tratadas como se nunca houvessem existido um dia.
Contudo, o que aconteceu foi justamente o inverso. Com poucas edições disponíveis, quem tinha o vinil poderia vendê-lo pelo preço que quisesse para colecionadores e grandes fãs. Entre eles, se destacam o rapper brasileiro Marcelo D2 e Paul Stewart, filho do tricampeão mundial de Fórmula 1, Jackie Stewart. A título de curiosidade, atualmente, para ter o vinil do Racional Vol.1, é preciso desembolsar entre R$300 e R$1.600.
Os álbuns chegaram também nas plataformas digitais, como o Spotify, por exemplo, para alegria dos fãs e desespero de Tim, de onde quer que ele esteja, seja em um outro planeta ou Universo.
Tracklist de “Racional, Vol.1*”
LADO A (Versão vinil):
- Imunização Racional (Que Beleza)
- O Grão Mestre Varonil
- Bom Senso
- Energia Racional
- Leia o Livro Universo em Desencanto
- Contato Com o Mundo Racional
LADO B:
- Universo em Desencanto
- You Don’t Know What I Know
- Rational Culture
[*No primeiro volume do disco “Racional”, todas as faixas foram compostas por Tim Maia, sem nenhuma parceria creditada.]
Tracklist de “Racional, Vol.2”
LADO A (Versão vinil):
- Quer Queira Quer não Queira (Tim Maia, Juan Senon Rolón [que assina como Fábio])
- Paz Interior (Edson Trindade)
- O Caminho do Bem (Beto Cajueiro, Serginho Trombone, Paulinho Guitarra)
- Energia Racional (Tim Maia)
- Que Legal (Tim Maia)
LADO B:
- Cultura Racional (Beto Cajueiro)
- O Dever de Fazer Propaganda deste Conhecimento (Robson Jorge)
- Guiné Bissau, Moçambique e Angola Racional (Tim Maia)
- Imunização Racional [Que Beleza] (Tim Maia)
Ficha Técnica
- Vocal, arranjos e produção: Tim Maia
- Guitarra elétrica: Paulinho Guitarra
- Trompete: Paulinho Trompete
- Saxofone e flauta: Oberdan Magalhães
- Órgão elétrico e teclados: Robson Jorge
- Piano elétrico: Robson Jorge e Serginho Trombone
- Baixo elétrico: Beto Cajueiro e Paulinho Guitarra
- Bateria: Luiz Carlos Batera e Robério Rafael



