
No mês de junho, três produções brasileiras com protagonismo LGBTQIA+ chegaram aos cinemas, mas, em poucas salas e com poucos horários disponíveis.
Apenas Coisas Boas aposta em um romance entre dois homens ambientado no interior de Goiás durante os anos 1980. Já Trago Seu Amor mistura fantasia e romance ao acompanhar uma jovem bruxa que acaba se apaixonando pela pessoa que deveria ajudar. Quinze Dias, adaptação do romance de Vitor Martins, acompanha Felipe, um adolescente inseguro que vê seus planos para as férias mudarem quando passa a dividir a casa com o vizinho Caio durante 15 dias.
A dificuldade de distribuição não se restringe às produções brasileiras. O caso de Girls Like Girls, adaptação do universo criado por Hayley Kiyoko, mostra que esse cenário também afeta filmes internacionais voltados ao público LGBTQIA+.
Há 11 anos, a cantora e compositora norte-americana, Hayley Kiyoko, lançou um dos seus maiores sucessos: a música e o clipe “Girls Like Girls”. O vídeo se tornou um marco de representatividade ao retratar, sem esconder ou tratar como tragédia, o romance entre duas adolescentes em uma época em que histórias sáficas ainda eram raras no pop mainstream — ou, pelo menos, não de forma tão explícita quanto Hayley apresentou no clipe e na letra da canção.
Em 2023, o clipe virou livro e, em 2026, ganhou uma adaptação para o cinema. A trama acompanha Coley (Maya da Costa), uma garota de 17 anos que se muda para o interior do Oregon após a morte da mãe. Lá, ela conhece Sonya (Myra Molloy), uma das garotas mais populares do colégio. O romance que se desenvolve entre as duas enfrenta desafios em meio a uma comunidade conservadora. A obra aborda o primeiro amor, autodescoberta e aceitação.
Mas e os fãs brasileiros? Girls Like Girls estreou nos cinemas norte-americanos em 19 de junho. Nos Estados Unidos, o filme estreou em cerca de 400 a 500 salas. No Brasil, o longa estreou apenas em exibições limitadas, concentradas em apenas uma sala no circuito de rua do Rio de Janeiro, o Grupo Estação. E foi limitada a apenas três sessões, realizadas em 27 de junho, 1º de julho e 5 de julho.
O problema não parece ser a ausência de público, mas a dificuldade que obras LGBTQIA+ ainda enfrentam para ocupar espaço nas salas brasileiras. A diferença entre a distribuição de Girls Like Girls nos Estados Unidos e no Brasil levanta uma questão inevitável: histórias com protagonismo LGBTQIA+ ainda encontram mais barreiras para chegar às salas de cinema?
Esse problema também afeta o cinema nacional. Tem gente que quer assistir a filmes brasileiros, mas não consegue ir ao cinema às 14h de uma terça-feira. O público merece horários mais democráticos para apreciar as nossas produções. De um lado, grandes distribuidoras chegam aos cinemas com campanhas robustas, contratos fortes e garantias de exibição em múltiplas salas. Do outro, produtoras e distribuidoras independentes disputam espaço para filmes nacionais e produções alternativas, brigando por horários decentes e número suficiente de cópias. Um filme brasileiro, muitas vezes feito com recursos públicos e que apresenta uma enorme relevância cultural, entra no circuito quase escondido, com uma sessão isolada e some em questão de dias. Para quem mora fora dos grandes centros, a realidade é ainda mais frustrante.
O resultado é um ciclo difícil de romper: sem distribuição, o público não consegue assistir; sem público nas salas, a indústria conclui que essas histórias não despertam interesse. Quem perde é o cinema brasileiro, a diversidade de narrativas e o próprio público, que continua sem se ver representado nas telas. Afinal, representatividade também depende de acesso e o orgulho também merece uma sala de cinema.



