
Foto de destaque: Raissa Correa/@showww360/Rarozine
Após dois shows super elogiados por aqui, o Shame voltou para apresentar seu novo álbum, Cutthroat, em casa lotada, no último sábado (20).
Eles já sabiam que os brasileiros eram recíprocos em grau de intensidade à própria atitude da banda e em um dos vários momentos de interação da noite, revelaram sua predileção pelo país em detrimento dos outros locais que se apresentaram nessa turnê de divulgação o que só incitou ainda mais o espírito ”patriota pontual” após a vitória do Brasil contra o Haiti no dia anterior.
O Cine Joia ficou abarrotado e, mesmo com atrasos significativos e uma chuva bem inconveniente, assim que as bandas tocaram os pés no palco, o público explodiu em empolgação. Para abrir a noite, a Balaclava escalou a Catïça, grupo de Londrina, que, mesmo com pouco tempo na estrada, já mostra a que veio com suas críticas sociais e o que eles chamam de “punk metal pé vermeio”.
Pouco depois da abertura das portas, enquanto a discotecagem aquecia quem entrou cedo, deixando de lado o esquenta em bares nos arredores, com uma seleção que ia de Idles a Mannequin Pussy, os integrantes do Shame passaram pela entrada principal no maior estilo banda underground (provavelmente voltando de um rolê pela cidade após a passagem de som). Alguns sortudos garantiram fotos e autógrafos ali mesmo. Essa simpatia e o carinho com os fãs foram elevados a potências altíssimas mais tarde, enquanto hits, músicas do álbum novo e uma quase nunca tocada eram destilados no palco e o público se debatia, catártico, em rodas enormes.
Sem contar que, além do costumeiro letreiro com a tipografia despojada da Balaclava, os shows também contaram com aporte de iluminação lateral, dando um charme absurdo e enfatizando a vibe de algumas músicas em ambas as apresentações. Cada segundo era um ápice novo e foi assim que a noite se desenrolou.
Entre o deboche e a crítica, a verdade iluminada pela luz vermelha
Com 45 minutos de atraso, a Catïça pisou no palco e fisgou tanto quem já os conhecia de outros carnavais no cenário underground quanto quem ouvia o som pela primeira vez. Qualquer incômodo com a espera se desfez assim que o som ganhou velocidade e ecoou pelos PAs da casa. Diretos, incisivos e sem medo de soar escrachados. Filtro e ficar em cima do muro é cartilha ideológica do outro lado. Além do repertório de EPs anteriores desse tal de ”punk metal pé vermeio”, como a viral “low profile” (e se você se pergunta o que é jacu, significa desajeitado), “chuva de likes” e a debochada “Ayrton Senna ”, os londrinenses soltaram um spoiler do futuro, tocando uma faixa inédita e anunciando um disco novo.

Catïça no palco (Camila Pazini/@itspaganpoetry)
Apesar do peso das faixas citadas, a maior carga simbólica da noite veio com os primeiros acordes de “baixo astral”. Foi um instante genuinamente “trabalhadores do mundo, uni-vos”, trazendo uma crônica ácida sobre o dia a dia do proletariado sendo moído pelo capitalismo. O vocalista Nabu, inclusive, enrolou o fio do microfone no próprio pescoço nessa hora, aludindo ao fato de que a máquina de moer nos sufoca diariamente; mensagem recebida. E essa não foi a única denúncia social do set, já que a banda também abriu espaço para acenar à causa dos povos originários em ‘’povo nativo terra sem lei’’.
No palco, Nobu se envergava para trás, pisava firme e soltava gargalhadas estrondosas enquanto seu grito incitava o público, em perfeita sintonia com o teor das letras. Os outros integrantes também tiveram seu destaque, mas foi Dedé quem mais se empolgou no mesmo ritmo do frontman. Outro ponto alto da apresentação foi quando, em um tom quase poético e ritmado, Nobu disparou: “Em cima da estante, tinha um vinil, e esse vinil era Songs of Praise”, emendando sobre a felicidade de estar ali abrindo para o Shame. Uma vitória merecida para o grupo, em uma escolha de line-up que se mostrou certeira e dialogou perfeitamente com o fechamento da noite em nível de atitude. Para finalizar, eles puxaram uma roda maior, que se formou organicamente em momentos pontuais, mas, que dessa vez se alargou mais para receber os gringos.
Olé olé olé olé Shame! Sha-me!
Gringos?! Vamos dar um rewind nessa fita! Tem algo melhor do que um artista que realmente se joga na cultura local do país onde está se apresentando e veste a camisa, literalmente? Começando pela escolha da trilha de entrada, nada como Jorge Ben para inflamar um patriotismo cultural pontual, indo na contramão do uso verde-amarelo fascistóide de eleitores de você-sabe-quem. Seguido por um grito de “GOOOOL” de Charlie Steen, as guitarras engatilharam na primeira música, ‘’Axis of Evil’’. O repertório da noite se dividiu entre os quatro álbuns já lançados, dando espaço para favoritas como ‘’One Rizla’’, “Concrete”, “Fingers of Steel”, o momento mais calmo durante “Adderall” e a quase nunca tocada “Angie”. Mas foram as faixas do novo disco, Cutthroat, que ocuparam lugar majoritário no setlist, abrindo e fechando a apresentação.
Do português na ponta da língua até uma homenagem ao camisa 9, Ronaldo Fenômeno (após uma vitória de 3×0 do Brasil no dia anterior na Copa do Mundo), Steen mostrou um carinho especial e já pode ir ao Poupatempo mais próximo pedir um CPF e mudar o nome para Carlos. Isso, claro, pode ser explicado pelo fato de ele namorar Zoë Morris, que é luso-brasileira, mas o frontman poderia muito bem ser blasé e não se conectar com o público da forma que fez. Não dava para piscar: lá vinha um palavrão em português (daqueles bem coloquiais), os pulos eufóricos do baixista, um balão de coração magnetizado pela energia do palco triangular indo parar na mão do vocalista, ou levantamento de peso com o suporte do microfone.
Steen agia como um maestro do caos, um caos um tanto comedido perto de turnês anteriores, mas ainda assim um agito sem trégua, sustentado por uma infinidade de pedais dos dois guitarristas Eddie Green e Sean Coyle-Smith, e do baixista Josh Finerty. A troca constante de guitarras que passou das cinco vezes foi, inclusive, um dos maiores indicativos, além da construção das novas músicas, de que a mentalidade da banda amadureceu, apesar da crueza da máxima de que ”somos apenas garotos num pub se divertindo” ainda esteja lá.

O público respondia a cada comando. Se o vocalista pedia para abaixar, todo mundo obedecia; se falava para abrir a roda, abriam. No meio do caos, um fã empolgado fez um stage dive e caiu no chão, levantando como se nada tivesse acontecido, enquanto outro menino, visivelmente vivendo o momento da sua vida, segurava firme seu chapéu panamá para não perder o acessório no empurra-empurra ou, já que estamos lidando com ênfase, o olho do furacão.
O termômetro quebrou de vez durante “One Rizla”, faixa que abriu o horizonte da banda na ascensão do pós-punk revival. Logo depois, Steen perguntou, brincalhão, se os fãs queriam uma música tranquila. A resposta foi um “não” em uníssono. Ele tirou a camiseta, jogou na pista e a galera abriu a nonésima roda da noite.
Em outro momento memorável, ele explicou em português que a faixa seguinte surgiu de uma experiência corriqueira após comer acarajé e ser introduzido na história do notório cangaceiro Lampião. O verso de introdução de “Acorda, Maria Bonita!” eternizado por Volta Seca, uma espécie de poeta do cangaço, serviu de interlúdio para um spoken word divertido, com Steen em modo contador de histórias. A cada retorno do refrão, o tom do público subia e uma bandeira, que mais tarde foi amarrada no corpo do vocalista, tremulava. Não que precisasse, mas se introduzissem uma sanfona e um triângulo ali, só ia deixar o momento ainda mais abrasileirado.
A música final coroou a noite e, se as referências futebolísticas estiveram presentes o tempo todo, ali veio o gol da vitória: enquanto a banda quebrava tudo e as luzes interagiam com as batidas de “Cutthroat”, Steen foi até a borda do palco, se preparou e se jogou em um crowd surfing catártico sobre a pista.
Mesmo após 18 músicas cravadas, parte do público continuou estática no lugar, se indagando se viria um bis surpresa. Não aconteceu, mas por todo esse carinho recíproco, deu para perceber que eles não vão demorar a voltar e serão, sempre, recebidos de braços abertos por este “país tropical”.



