
Redd Kross (Créditos: Gilber Trejo)
A jornada do Redd Kross pela música começou cedo, bem ali onde o útero da contracultura californiana fecundava uma nova banda a cada segundo.
Influenciados por toda aquela efervescência dos anos 1970 e do começo dos anos 1980, os irmãos Jeff e Steven McDonald misturaram um pouco de bateria, um pouco de atmosfera e um bocado de barulho embebido em alegorias da cultura pop. Jogaram um beijo ao vento, evocando a beleza de um caleidoscópio livre de geometrias rígidas e criaram algo que eles mesmos gostariam de ouvir, se divertindo no processo.
Nos primeiros dias, quando ainda se chamavam The Tourists, eles abriram para o Black Flag e precisavam ser escoltados para fora dos clubes por serem menores de idade. Daquele flerte ensolarado com o hardcore punk até o presente, o grupo construiu uma discografia prolífica que se tornou cartilha de anarquia musical e influência cult das gerações seguintes de rock alternativo.
Pensando nisso, a Maraty, produtora que já trouxe grandes nomes da música alternativa para a cidade, resolveu unir forças com outras frentes culturais para transformar o Cine Joia em um epicentro do underground. No dia 26 de junho, o icônico palco triangular da casa recebe a estreia histórica do Redd Kross no Brasil, em uma noite que conta com shows de abertura de AlphaWhores e TwinPines, bandas que dialogam diretamente com esse mesmo espírito fora da caixinha, além da discotecagem de Flávia Durante.
O evento também celebra os 26 anos do festival In-Edit e o aniversário de 40 anos da London Calling, emblemática loja de discos paulistana que ocupa o segundo andar da Galeria do Rock. Na véspera, dia 25, o público ainda pode conferir a estreia do documentário Born Innocent: The Redd Kross Story, com local ainda a ser confirmado.
Em entrevista ao Musicult, Jeff McDonald analisou a dinâmica de manter uma banda em família e a evolução criativa do grupo após quarenta anos de estrada. O músico ainda utilizou uma canção do The Who para traduzir a experiência de estar nos lugares certos e na hora certa, celebrou a estética subversiva de John Waters e adiantou que o próximo alvo de sua obsessão e imersão musical é o Brasil.
Musicult entrevista: Redd Kross
O Redd Kross é o que chamamos de um “caldeirão musical”. De onde vem essa habilidade de misturar mundos que parecem totalmente diferentes, e como vocês mantêm esse fogo criativo queimando tão intensamente após mais de quatro décadas?
Acho que sempre fomos aquilo que queremos ouvir e ver. Aprendi muito cedo que eu poderia ser influenciado por quase tudo. Los Angeles é uma verdadeira mistura. Cinema, TV, música punk, cultura do surfe e do skate. Tudo isso encontra um caminho para a nossa moda, performances e música. Nós aproveitamos a verdadeira ‘’teenage wasteland’’ sobre a qual o The Who cantava.
Vocês viveram o auge e a glória de tantas subculturas musicais. Tem alguma memória específica de “bastidores”’ nos primeiros anos de banda que você pudesse compartilhar conosco?
Nos primeiros dias, nós não tínhamos bastidores [Risadas]. Quando começamos, éramos jovens demais para estar nos clubes, então nossos bastidores geralmente eram cozinhas ou becos. Só nos permitiam entrar no clube enquanto estávamos no palco e, após o show, éramos expulsos. O Steven foi o último membro a completar 21 anos.
Olhando para a sua discografia como um todo, como você vê a evolução das composições e das letras da banda?
É inevitável que, com os anos de experiência de vida, o leque se ampliou tremendamente. Temos a sorte de poder recorrer a essa abundância em vez de ficarmos presos ao passado. Não há motivo para ter bloqueios criativos quando a inspiração pode vir de qualquer lugar. Nós realmente nos divertimos!
Estar em uma banda já é difícil, mas fazer isso com a família por mais de 40 anos é uma verdadeira raridade. Nós já vimos alguns exemplos bem extremos de como isso pode dar errado, como os irmãos Gallagher. Como é a dinâmica de composição e liderança entre você e o Steve? Como vocês equilibram suas individualidades na hora de criar?
Como nós dois desempenhamos papéis de semi-liderança, raramente batemos boca hoje em dia. Nós dois somos fãs do que o outro traz para a mesa musicalmente, então não existe um desequilíbrio de poder. Não estou dizendo que não testamos a paciência um do outro às vezes, acontece, mas nunca é nada sério. Nós realmente amamos o que fazemos!
O último álbum homônimo de vocês, Redd Kross (2024), foi lançado bem no momento em que vocês comemoravam 45 anos de estrada, e foi amplamente elogiado por soar tão fresco quanto os seus primeiros trabalhos. Como foi o processo de composição do álbum?
Nós gravamos tudo o que tínhamos de músicas autorais solo e canções que escrevemos juntos. Depois que engrenamos na gravação, não queríamos descartar nenhuma faixa e, por algum motivo, todas soavam muito bem juntas, como se houvesse um fio condutor entre elas. O álbum duplo acabou acontecendo de forma orgânica.
Vocês têm um histórico enorme de fazer covers e versões de suas próprias influências pessoais. Existe alguma canção em particular que vocês ainda sentem o maior barato em tocar depois de todos esses anos?
Eu amo tocar covers. O desafio é transformá-los em algo seu. Nós ainda tocamos “Deuce”, do Kiss, às vezes. É muito divertido porque o Steven e eu sabemos a coreografia original por termos visto o Kiss tocar nos anos 70. Beatles é sempre divertido. Em um dos nossos primeiros grandes shows como atração principal em Los Angeles, nós tocamos todo o lado 2 do Sgt. Pepper’s. Não foi planejado, mas a gente costumava tocar o álbum inteiro nos ensaios por diversão, então simplesmente mandamos bala.
Como você vê o comportamento das novas gerações em relação à música? E você, como fã e músico, de que forma costuma consumir o trabalho de outros artistas?
O único ponto negativo de como as pessoas encontram música é que hoje em dia só estamos acostumados a ouvir trechos curtos e clipes. Nossa capacidade de atenção está um pouco ‘’frita’’, então, para mim, se eu descubro um grupo ou artista, eu mergulho completamente em todo o catálogo deles e não ouço mais nada até estar bem familiarizado. O último artista histórico com quem fiz isso foi o Phil Ochs. Passei cerca de 2 anos seguidos ouvindo praticamente só Phil Ochs.
Mudando um pouco de assunto para o cinema: um tempo atrás, você mencionou o clássico cult Female Trouble, de John Waters, em um podcast. Essa estética irreverente influenciou de alguma forma a identidade visual e a atitude do Redd Kross?
Nós descobrimos o John Waters nos cinemas de arte antes da revolução do VHS. Eu assistia a qualquer coisa que parecesse estranha e bizarra. A rebeldia da equipe original do John Waters era algo com o qual a gente se identificava demais, porque crescemos em subúrbios muito conservadores. Era maravilhoso saber que havia outras pessoas como nós por aí. O livro dele, Shock Value, foi um ótimo guia de referência e realmente nos inspirou a assumir o controle do que estávamos fazendo como banda e colocar a nossa cara no mundo, mesmo que levasse um tempo para as pessoas entenderem a proposta.
Junto com o show no Cine Joia, o documentário de vocês, Born Innocent, está estreando no festival In-Edit Brasil. Vocês tiveram uma participação ativa na produção?
O filme é, na verdade, obra do diretor Andrew Reich. Foi a visão dele. Ele trabalhou nisso por 8 anos. Nós entregamos a ele algumas caixas de vídeos, revistas e fotos, e a equipe dele encontrou o resto. Tanta coisa que eu nunca tinha visto! [Acharam] até fotos de um dos nossos primeiros shows com o Black Flag e do show em que o David Bowie estava na plateia.
Alguns anos atrás, o Steve deu uma entrevista para um site brasileiro onde mencionou os Mutantes e o cover de vocês de “Bat Macumba”. Desde então, vocês descobriram mais sobre a música brasileira? Existe algum artista ou música favorita que vocês conheceram recentemente?
A música brasileira será a minha próxima imersão total. Espero que tenhamos a chance de fazer novas descobertas, antigas e novas, nessa viagem.
Esta é uma pergunta clássica. Vocês começaram muito jovens e basicamente cresceram na indústria musical. Olhando para trás, para toda a história do Redd Kross, qual é o principal conselho que você daria para os jovens que querem começar uma banda e seguir esse mesmo caminho?
Meu conselho seria escrever o máximo de músicas que puder e fazer o máximo de shows possível. Divirta-se e nunca tenha medo de chocar ou de falhar. Pense em um visual diferente e não siga líderes. Quando chegar a hora de gravar, certifique-se de que você é o dono das suas gravações. Acho que qualquer um que queira fazer isso, consegue, desde que não se importe com o que os outros pensam.
Para encerrar, qual a expectativa para esse estreia no Brasil? Tem alguma mensagem que gostaria de deixar para os fãs brasileiros?
Estamos muito animados para finalmente tocar no Brasil e conhecer todo mundo! O show será “superfantástico”’, com surpresas e músicas de toda a nossa carreira. Não vemos a hora!




