
Raul apostou em um visual de profeta na mensagem sonora e visual do disco. Foto/Capa: Januário Garcia e Aldo Luis.
Há cinquenta anos, em 1976, após uma sequência de três ótimos álbuns, o baiano Raul Seixas apresentava ao público o disco “Há Dez Mil Anos Atrás”, o quinto de sua carreira, de onde vieram alguns dos seus grandes sucessos: “Meu Amigo Pedro”, “Eu Também Vou Reclamar”, e, claro, a própria faixa-título, que, apesar de ter sido composta em parceria com um dos maiores escritores brasileiros, Paulo Coelho, conta com um erro de português na famosa frase do refrão, eu nasci há dez mil anos atrás / e não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais (o correto seria “eu nasci há dez mil anos”, ou “nasci dez mil anos atrás”…) – o que não fez a menor diferença no fim das contas.
Em homenagem às cinco décadas do álbum, o Musicult produziu um especial sobre a história do LP, que surgiu em meio a uma pressão interna da gravadora, mas que foi um sucesso de vendas e que sempre é lembrado entre os melhores da discografia do Maluco Beleza.
Raul “Rockstar” Seixas
A discografia de Raul – enquanto rockstar Raul Seixas, e não Raulzito, o produtor musical e integrante da banda Raulzito e os Panteras, que “emulavam” a fase iê-iê-iê dos Beatles – foi um meteoro nos anos iniciais. Já no álbum de estreia, “Krig-Ha, Bandolo!”, de 1973, o cantor acertou os hits “Ouro de Tolo”, “Metamorfose Ambulante” e “Al Capone”, alcançando um nível muito alto para um primeiro trabalho solo. Igualar ou até mesmo superar o que havia feito parecia difícil, mas ele conseguiu já no ano seguinte, 1974, com “Gita”, o disco mais vendido de toda sua história. A partir dali, era meio que um caminho sem volta: as coisas seriam niveladas por cima, ou seja, o próximo lançamento deveria ser sempre melhor em vendas do que o anterior. O que não aconteceu com “Novo Aeon”, de 1975, que, apesar de muito bom em qualidade sonora e em letras, na época, não passou nem perto do sucesso do seu antecessor.
Os antecedentes de “Há Dez Mil Anos Atrás” se interligam diretamente com “Novo Aeon” não só por esse motivo, que já fez com o que disco “nascesse” pressionado para vender mais do que o LP de 1975, mas também pela própria imagem que Raul Seixas havia adotado no álbum anterior. O estilo místico e os signos presentes em “Gita”, como a tal Sociedade Alternativa, ficaram de lado para dar espaço a uma versão mais “limpa”, digamos assim, do artista. Talvez pelo fracasso em “Novo Aeon”, no álbum seguinte, o baiano retornou com o jeito que remete a um profeta e guru, o que já dá para perceber na icônica foto da capa, feita por Januário Garcia, no Rio de Janeiro, em que Raul aparece com uma peruca de fios brancos e barba longa.

Gravação e lançamento
Gravado entre maio e novembro de 1976, a produção do disco apresentava um impasse entre Raul e a Philips [neste que também foi o último lançamento de canções inéditas do cantor pela gravadora, desconsiderando o álbum “Raul Rock Seixas”, que apenas tem versões de músicas de outros artistas e que praticamente foi para cumprir contrato e sair de vez de lá]. A gravadora queria repetir um grande sucesso de vendas ao mesmo tempo em que o artista não se sentia valorizado, mesmo com seu renome nacional, sendo tratado quase como um produto da empresa.
O álbum saiu no fim do ano, em dezembro, mas desde junho já rodava pelas rádios o compacto simples (hoje conhecido como single) “Há Dez Mil Anos Atrás”, que ajudou a popularizar a canção antes mesmo do disco completo ser disponibilizado. Já para a televisão, Raul gravou dois clipes pelo programa Fantástico, da Rede Globo: “Eu Também Vou Reclamar”, um country bem humorado e cheio de “alfinetadas” a nomes da música brasileira, além da própria “Há Dez Mil Anos […]” e sua letra aberta para interpretações (tem até gente que acha que o personagem principal da história é o diabo, risos).

Recepção do público, crítica e o legado do disco
Se o que a Philips queria eram vendas, deu certo. Foram mais ou menos 100 mil no primeiro ano de lançamento. Já na crítica, jornalistas da época não falavam tão mal, mas também não encheram o disco de elogios, com exceção de Nelson Motta, que, representando o Jornal O Globo, definiu o álbum como “um grande trabalho” por suas letras, que misturavam humor e mensagem na dose certa, além da versatilidade de Seixas para apresentar diversos estilos sonoros em um mesmo LP sem se perder.
O disco poderia ter sido lançado hoje, há cinquenta, ou há dez mil anos, e mesmo assim continuaria sendo relevante. Sobre legado, é indiscutível o seu lugar entre os melhores no catálogo do artista baiano e na história da música brasileira, que, de certa forma, não conseguia colocar o cantor numa caixinha e defini-lo. Ele era rock? Ele era MPB? Ele era tango [em “Canto Para Minha Morte”]? Country [em “Eu Também Vou Reclamar”]? Ele era tudo isso e pouco mais. Ele era Raul Seixas.
Tracklist de “Há Dez Mil Anos Atrás”
LADO A (Versão vinil):
Canto Para Minha Morte (Raul Seixas, Paulo Coelho)
Meu Amigo Pedro (Raul Seixas, Paulo Coelho)
Ave Maria da Rua (Raul Seixas, Paulo Coelho)
Quando Você Crescer (Raul Seixas, Paulo Coelho, Jay Vaquer)
O Dia da Saudade (Raul Seixas, Jay Vaquer)
LADO B:
Eu Também Vou Reclamar (Raul Seixas, Paulo Coelho)
As Minas do Rei Salomão* (Raul Seixas, Paulo Coelho)
O Homem (Raul Seixas, Paulo Coelho)
Os Números (Raul Seixas, Paulo Coelho)
Cantiga de Ninar (Raul Seixas, Paulo Coelho)
Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás (Raul Seixas, Paulo Coelho)
[*A faixa “As Minas do Rei Salomão” é uma regravação. Sua primeira versão apareceu em “Krig-Ha, Bandolo!”, três anos antes. No disco de 1976, ela ganhou uma nova roupagem no arranjo, porém, sem alterações na letra.]

Vinil do disco “Há Dez Mil Anos Atrás”. Na internet, cinquenta anos depois, o preço varia entre R$100 e R$350. Foto: Reprodução
Ficha Técnica
Violões por Rick Ferreira e Jay Anthony Vaquer
Guitarras elétricas por Rick Ferreira e Jay Anthony Vaquer
Piano por Miguel Cidras, Túlio Mourão
Acordeon por Chiquinho do Acordeom
Baixo por Juan Capobianco, Paulo César Barros e Liminha
Bateria por Pedrinho Batera
Percussões por Miguel Cidras, Áureo de Souza, Ariovaldo Contesini, Jackson do Pandeiro e Marco Mazzola
Produção** e direção: Sérgio de Carvalho
Coordenação Musical: Jay Anthony Vaquer
Arranjos e regência: Miguel Cidras
Engenheiro de Som: Luigi Hoffer, Ary Carvalhães e Luís Cláudio Coutinho
Mixagem: Luigi Hoffer e Sérgio de Carvalho
Capa: Aldo Luis
Arte Final: José Paulo e Jorge Vianna
Foto: Januário Garcia
[**O disco “Há Dez Mil Anos Atrás” foi o primeiro da discografia de Raul Seixas que não contou com a produção de Marco Mazzola. Os dois voltaram a se reunir somente em 1977, já na gravadora Warner, por onde Raul gravou e lançou o álbum “O Dia Em Que a Terra Parou”].



