
Foto: Divulgação/A24
Havia um risco real de que Backrooms: Um Não-Lugar se tornasse mais uma tentativa de nostalgia digital, um produto feito para fãs da lenda da internet, longe de qualquer espectador que não frequentasse os fóruns certos. Felizmente, Kane Parsons demonstra ter maturidade suficiente para escapar dessa armadilha e entregar um filme que funciona independentemente do ponto de partida do público.
Do YouTube para os cinemas
Parsons ficou conhecido por criar, ainda adolescente, uma série de curtas-metragens animados no YouTube com base na mitologia coletiva dos Backrooms, um conceito nascido em fóruns que descreve uma dimensão paralela composta por ambientes deslocados da realidade. Corredores amarelados, tapetes pastéis, luzes fluorescentes e a sensação de que alguma coisa está errado sem que você saiba exatamente o quê: essa é a essência visual que o diretor coloca na tela grande, aos 20 anos, para uma produção da A24.
O salto era arriscado. A força das backrooms no ambiente digital existe exatamente na ‘não explicação’, e um longa convencional exige ao menos algum tipo de construção narrativa. Parsons e o roteirista Will Soodik (Westworld) encontraram um meio termo: em vez de tentar racionalizar a mitologia, eles criam personagens que os conflitos internos espelham o terror do espaço.
Clark e o labirinto como metáfora do fracasso
O protagonista Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, é um vendedor de móveis encalhado na própria vida, sonhos frustrados, divorciado e imerso na rotina de um estabelecimento que ninguém frequenta. Quando descobre no porão da loja uma parede que dá acesso ao Complexo, a mudança parece menos sobrenatural do que inevitável: Clark já estava preso muito antes de cruzar aquela parede.
Ao seu lado, a terapeuta Mary, vivida por Renate Reinsve, que brilhou em filmes como A Pior Pessoa do Mundo (2021) e o indicado ao Oscar, Valor Sentimental (2025), funciona como um contraponto emocional e como a responsável por fazer com que o espectador menos familiarizado com o universo entenda o que está acontecendo.
Quando os personagens ficam no caminho
Como nada é perfeito, o roteiro, nem sempre sabe quando parar. Algumas passagens que focam no aprofundamento dos dramas pessoais dos protagonistas duram muito mais do que o necessário, o que acaba criando um ritmo que enfraquece a tensão que deveria ser típca de um filme de terror. A caracterização de Clark e Mary funciona no ínicio, mas deixa de fazer sentido quando o filme começa a busca algo mais íntimo, fazendo com que o tempo de tela simplesmente não sustente esse desenvolvimento.
Existe também um problema narrativo em fechar questões que, embora compreensível como estratégia para uma possível franquia, pode deixar parte do público com a sensação de assistir uma história inacabada. Backrooms: Um Não-Lugar claramente não pretende ser um filme de respostas, e isso, até certo ponto, é uma qualidade. Mas a linha entre mistério e dúvidas é tênue, e a produção acaba cruzando vezes demais.
O maior acerto do diretor, no entanto, é outro: o de recusar o caminho mais óbvio. O cinema de terror que vêm sendo moldado pelas produções da A24, faz da elaboração do trauma uma fórmula quase obrigatória, e Backrooms coloca um pé nessa tradição, mas não entra de cabeça nela. Não existe uma leitura única para a narrativa que o filme entrega, e é justamente isso que o torna mais perturbador.
Backrooms: Um Não-Lugar está em cartaz nos cinemas.



