
Anônimos Anônimos (Créditos: Rick Costa)
Desde que ouvi Anônimos Anônimos pela primeira vez, na estreia da Repetente Records, eu sabia que estava diante de uma banda que tinha muito a oferecer. As artes visuais dos EPs, singles e vídeos chamava atenção, as letras eram rápidas, irônicas e diretas, e o som transitava entre o punk e o hardcore melódico de uma forma muito autêntica. Hoje, em um novo selo, o Forever Vacation Records, a banda lança Acabou Sorrire, seu primeiro álbum completo, produzido por Alexandre Capilé (Sugar Kane/Water Rats) e com mixagem e masterização de Gabriel Zander (Zander).
E se a presença dos dois poderia sugerir uma mudança em direção a algo mais melódico, a verdade é que esse caminho já vinha sendo construído há algum tempo.
Nos EPs anteriores, os Anônimos experimentaram diferentes estilos dentro do rock alternativo, quase como uma banda ainda tentando descobrir qual era sua identidade definitiva. O disco mostra que essa busca terminou e que eles encontraram sua melhor forma: quando deixa a ironia um pouco de lado e se entrega a composições mais íntimas.
“Nos primeiros EPs experimentamos tocar um pouco de cada estilo que a gente gosta dentro do rock, então a banda soava bem maluca, não tinha ainda uma cara definida. Aí, quando decidimos compor esse primeiro disco, com a ajuda do Capilé, decidimos focar no que fazemos melhor: as canções mais melódicas e com temas pessoais. Agora temos um repertório coeso, e estamos prontos para mostrá-lo para todo mundo”, diz Flávio Particelli, vocalista da Anônimos Anônimos
When I got the music, I got a place to go
Quem pegou a referência, percebe que o título do álbum nasceu como uma brincadeira com Acabou Chorare, dos Novos Baianos. Se o clássico brasileiro remete a uma celebração, Acabou Sorrire parece ocupar um lugar oposto: menos festa, mais abraço. Não é um disco triste, mas um trabalho introspectivo, que encontra força justamente em suas vulnerabilidades.
E as referências à MPB não se restrigem à brincadeira do título, já que “Timidez”, um dos singles que foram lançados antes do disco, inova ao começar quase como um samba triste na voz de Henrique Almeida, guitarrista da banda. E aqui temos outro acerto da banda: focar na sua identidade como uma banda de rock que faz som em português mesmo bebendo de fontes nacionais e internacionais.
As letras caminham por situações reconhecíveis: relacionamentos bons e ruins, amizades que fazemos e perdemos ao longo dos anos, crescimento e amadurecimento, crises pessoais, a passagem do tempo, a saudade e a nostalgia e as pequenas frustrações que se acumulam na vida adulta em um mundo que nos cobra constantemente.
Existe, a cada faixa, uma sensação de proximidade, como se as músicas fossem escritas por alguém tentando organizar os próprios pensamentos enquanto percebe que outras pessoas vivem exatamente as mesmas coisas.
E pra quem é apaixonado por música e/ou busca viver dela, o disco bate ainda mais forte, já que a mensagem que fica no fim de tudo é de que se não fosse pelo amor à música e pela música em si, a vida ficaria ainda mais difícil.
Um disco perfeito sobre imperfeições
Abraçando seus pontos fortes na criação musical e sem medo de mostrar os pontos fracos da vida adulta, a Anônimos Anônimos se mostra uma banda pronta com seu disco de estreia, confirmando que o que eu achava lá em 2022, quando eles lançaram o EP Baita Astral, era verdade.
Acabou Sorrire é um disco sobre imperfeições, inseguranças e questionamentos, mas curiosamente também é o trabalho mais seguro e perfeito que a Anônimos Anônimos já lançou.
Ouça Acabou Sorrire na sua plataforma de streaming favorita e siga a banda nas redes sociais



