
A ideia de mais uma adaptação de Pinóquio não é das mais atrativas. O clássico conto italiano, afinal, já foi recontado inúmeras vezes em diferentes países, abordagens e técnicas; desde a clássica animação da Disney de 1940 até a recontagem do clássico por Guillermo Del Toro, em recente produção para a Netflix.
A versão dirigida por Igor Voloshin, entretanto, traz algumas diferenças em relação a como o personagem é lembrado pela cultura pop.
Pinóquio ou Buratino?
Não é a primeira vez que Igor Voloshin se aventura na recontagem de clássicos infantis: o cineasta tem sua própria versão de O Mágico de Oz, uma trilogia cuja segunda parte chegará aos cinemas em 2027.
Já a versão de Pinóquio realizada por Voloshin pode trazer alguma confusão nas audiências brasileiras, uma vez que é baseada no personagem Buratino, protagonista do conto As Aventuras de Buratino, do autor russo Aleksej Nikolaevič Tolstoj, que decidiu adaptar Pinóquio de maneira mais próxima ao contexto russo.
O Musicult, entretanto, recebeu a cópia dublada do filme, onde o personagem principal é chamado de Pinóquio e o artesão responsável por sua criação se chama Gepeto, como no conto original italiano. Trata-se de uma decisão puramente mercadológica e que dilui a especificidade cultural da obra perante o público, mas que é de responsabilidade do esforço de localização e que, portanto, não devo considerar como ponto fraco da obra original e de seus realizadores.
As diferenças narrativas
A história começa quando três baratas falantes roubam uma chave mágica e a entregam ao carpinteiro Gepeto (Aleksandr Yatsenko), com instruções para utilizá-la para fazer um pedido representando seu maior desejo. Após o carpinteiro pedir por um filho, ele percebe a presença de um tronco de madeira em sua oficina, que usa para esculpir um boneco. Este boneco é Pinóquio (Vitaliya Kornienko), um boneco vivo, curioso e bondoso, que acaba se colocando em situações difíceis devido à sua inocência e curiosidade.
Diferentemente do clássico conto italiano, o nariz que cresce ao contar mentiras não é um aspecto dessa versão da história. Pelo contrário: Pinóquio é sincero até demais, como uma criança questionando o mundo ao seu redor, e essa sinceridade cria os principais conflitos do longa.
Pinóquio sindicalista
Os aspectos mais interessantes da história, e justamente os que mais divergem do moralismo da adaptação da Disney, inteiramente focada na importância da obediência e da conformidade, são o quanto o personagem é inconformado perante as injustiças que encontra pelo mundo.
Pinóquio não se cala perante Karabas (Fyodor Bondarchuk), o principal antagonista do longa, um dono de teatro que escraviza e aterroriza os atores de sua companhia, que em determinado momento inclui o próprio Pinóquio. Em vez de olhar apenas para sua própria salvação, o boneco incentiva seus colegas de palco a se livrarem das amarras do carrasco, afinal, sem os atores, não há teatro. Em outros momentos, o protagonista preza por lutar pela reabilitação de indivíduos que escolheram o caminho do crime, mas em quem Pinóquio insiste em enxergar bondade.
Outra diferença clara entre as duas versões do personagem se dá em relação ao objetivo final de cada personagem: enquanto o Pinóquio da Disney deseja se tornar um menino de verdade, o desejo mais sincero de “Buratino” é que seu pai possa, finalmente, ter o filho que sempre sonhou. A jornada do personagem vai de fora pra dentro: ele é tão preocupado com seus arredores que precisa aprender a se valorizar também, e não o contrário.
O resultado é um filme que tem sim seus defeitos (na cópia dublada, nem se fala: fiquei curioso para ouvir as músicas no original russo, uma vez que suas contrapartes em português são péssimas), mas que consegue se manter interessante o suficiente para quem não conhece o conto russo Buratino, e que traz reflexões relevantes para o público infantil sem incorrer tanto no moralismo ocidental a que estamos acostumados.
Propositadamente, me furtei de analisar aspectos técnicos nesta crítica com profundidade. Pinóquio é um filme live action com alguns elementos em computação gráfica, sendo o principal deles o boneco protagonista. Não é o filme mais bonito nem o mais memorável do ponto de vista plástico, mas isso não afeta negativamente em nada a apreciação da obra. A produção faz o que precisa ser feito para que a história seja aproveitada pela audiência, e isso é suficiente.
Se vale a pena assistir? Talvez não seja a primeira indicação que eu faria para um adulto, exceto se este tivesse um interesse particular em uma interpretação russa do conto clássico; mas é possível imaginar as crianças se divertindo enquanto aproveitam um cinema um pouco diferente do convencional.



