
Lamento (Créditos: Cavera Y Macaco)
Falar de hardcore e punk underground sempre foi, e infelizmente ainda é, falar de uma cena majoritariamente masculina. Dos palcos aos estúdios, das produtoras independentes aos selos e coletivos, a presença feminina existia, mas muitas vezes era invisibilizada, subestimada ou tratada como exceção. Esse cenário, no entanto, vem mudando de forma consistente nos últimos anos.
As mulheres estão assumindo cada vez mais o protagonismo no underground em diversas frentes: organizando shows, criando selos, produzindo festivais, registrando a cena por meio de fotos, vídeos e zines e, claro, formando bandas e ocupando o microfone com personalidade, discurso e identidade própria. Não se trata apenas de presença, mas de protagonismo, narrativa e transformação cultural dentro de uma cena que sempre teve como base a contestação e a ruptura de padrões.
Em São Paulo, um dos principais polos do underground brasileiro, esse movimento é visível e audível. Novas bandas surgem com mulheres à frente, não como coadjuvantes, mas como vozes principais, compositoras e articuladoras da própria cena. São grupos com propostas diferentes entre si, que transitam entre o hardcore, o punk, o crust e outras vertentes, mas que compartilham um ponto em comum: mulheres no comando dos vocais, das ideias e da energia que move o underground.
Nesta matéria, o Musicult apresenta três bandas de São Paulo que ajudam a representar essa nova configuração da cena. Bandas que não estão ali para ocupar espaço simbólico, mas porque têm som, discurso e presença para estar em qualquer palco.
3 bandas de mulheres no underground pra você ouvir agora
Death Lótus
Formada em 2024, a Death Lótus é uma banda de crust/post-crust antifascista que tem a veterana Rasika Riot como vocalista. Conhecida pela postura firme dentro e fora dos palcos e por sua atuação por anos com a banda Crush All Tyranny, ela sempre levantou bandeiras ligadas ao feminismo e ao antifascismo, posicionando-se de forma clara em debates sociais e políticos dentro da cena. Ao longo dos anos, tornou-se uma importante representante da luta por protagonismo feminino no punk de São Paulo, não apenas pela presença de palco, mas também pela forma como utiliza a música como instrumento de discurso e resistência.
Com a Death Lótus, Rasika lançou, em 2025, os singles Não Vamos Desistir e Liberdad, trabalhos que já deixavam evidente a linha política e contestadora da banda. Em 2026, o grupo lançou o EP Zeitgeist Karma, pelo selo El Rocha Records, consolidando ainda mais essa identidade sonora e ideológica, com letras que trazem mensagens políticas diretas e abordam temas urgentes, como desigualdades sociais e o massacre que o povo palestino vem sofrendo ao longo dos anos.

O trabalho reforça a proposta da banda de unir hardcore e punk a uma forte consciência política e social. Além de Rasika, a formação conta com Erick Farias (baixo), Marcelo Suka (bateria) e Doo Oliveira (guitarra). Além dos lançamentos em estúdio, a Death Lótus também vem participando de shows, festivais independentes e eventos organizados por coletivos da cena underground. As apresentações ao vivo reforçam a intensidade da proposta do grupo, com performances diretas, sem concessões e com forte interação com o público. Nesse ambiente, a banda amplia ainda mais seu discurso político e fortalece sua presença, ocupando espaços e dialogando com diferentes frentes da cena independente.
Lamento
A Lamento nasceu no fim de 2024, em São Paulo, e rapidamente chamou atenção dentro do underground pela sonoridade pesada e crua, fortemente calcada no crust punk. A banda é liderada pela vocalista e ativista Helô Knup, conhecida por sua trajetória em bandas da cena independente, como A Vida Toda Um Quase. Com estética sonora agressiva e letras carregadas de crítica social, o Lamento se insere em uma tradição do punk que vai além da música e se conecta diretamente com posicionamento político e ativismo.
Na banda, Helô mantém a postura combativa e ideológica já conhecida por quem acompanha sua trajetória. A vocalista levanta bandeiras como o antifascismo, o veganismo, o antiespecismo e a luta pela liberdade das mulheres, temas que aparecem de forma direta nas letras, nos posicionamentos públicos e na própria postura da banda dentro da cena underground. Mais do que uma banda, o Lamento se apresenta como um projeto artístico e político, alinhado com pautas sociais e de resistência.

Em 2025, a banda, que também conta com Filipe Freitas (bateria) e Samuel Sales (guitarra), lançou o EP Handala, trabalho que carrega uma forte mensagem de resistência e enfrentamento social. Entre as faixas, destaque para a música Retomada, que funciona como um chamado à revolta e à quebra de paradigmas pré-impostos pela sociedade, abordando a necessidade de questionar estruturas de poder, padrões sociais e formas de opressão historicamente normalizadas.
O Lamento também vem construindo sua trajetória por meio da lógica do faça-você-mesmo, participando de eventos independentes, ocupações culturais e shows organizados por coletivos da própria cena punk. Esse circuito, distante dos grandes palcos e da indústria musical tradicional, reforça o caráter político da banda, que entende a música não apenas como expressão artística, mas como ferramenta de mobilização, conscientização e construção de redes dentro do underground.
Cisma
A Cisma também foi fundada em 2024, mas segue por um caminho sonoro diferente de Lamento e Death Lótus. Enquanto as outras bandas apostam em uma sonoridade mais pesada e crua, a Cisma traz uma abordagem mais melódica, com forte influência de bandas como The Jam, sem abrir mão, no entanto, de letras politizadas e de uma postura crítica. O resultado é um punk mais melódico, com refrões marcantes e guitarras que dialogam com o post-punk e o punk rock clássico, mas ainda inserido no espírito contestador do underground.
Nos vocais, a banda conta com Ingrid Maida, que traz para as letras reflexões sobre o cotidiano que prende, sufoca e empurra as pessoas para uma vida automática, ao mesmo tempo em que fala sobre a necessidade de resistir a essas pressões e buscar viver de acordo com os próprios desejos e convicções. Essa temática aparece com clareza na música Dreams, que aborda justamente o conflito entre sobreviver dentro das regras impostas e tentar construir a própria liberdade.
Com a banda, que também conta com Mateus Santos (baixo), Diogo Vinicius (bateria) e Marcelo Ferreira (guitarra), a vocalista lançou, em 2025, o EP Contra o Tempo, trabalho que reforça essa identidade mais melódica sem perder o teor político e reflexivo das letras. O disco se apresenta como uma ótima pedida para quem gosta de punk com melodias mais marcantes, mas que ainda carrega questionamento social, inquietação e espírito de resistência — características que mantêm a Cisma conectada à essência do underground.

A sonoridade mais melódica funciona como porta de entrada para novos ouvintes, enquanto as letras e a postura da banda mantêm a conexão com o espírito crítico e contestador da cena independente, mostrando que é possível dialogar com diferentes influências sem perder identidade ou posicionamento.
Mais do que destacar novos nomes da cena, essas indicações ajudam a evidenciar o papel cada vez mais importante das mulheres dentro do underground. Seja nos palcos, nos estúdios, na organização de shows ou na articulação de coletivos e movimentos culturais, elas vêm ocupando espaços que historicamente lhes foram negados e transformando a cena a partir de novas perspectivas, discursos e formas de organização.
As bandas citadas não representam apenas bons nomes para se ouvir, mas também simbolizam uma busca constante por liberdade, protagonismo e espaço dentro de um ambiente que sempre se orgulhou de ser contestador — e que, justamente por isso, precisa continuar se reinventando, tornando-se cada vez mais diverso, inclusivo e representativo.
> Conheça mais bandas de mulheres no underground aqui e aqui



