
Millencollin (Créditos: @gicahernandes/@newfacesrock)
A última parada da We Are One Tour 2026 no Brasil transformou a Audio, em São Paulo, em um encontro de gerações do punk rock e hardcore melódico na noite de 31 de março. Reunindo Mute, Millencolin e Pennywise, além da abertura das paulistanas da The Mönic, o evento marcou o encerramento da turnê no país com casa cheia, público fiel e um line-up que atravessa diferentes fases.
Responsáveis por abrir todas as datas brasileiras da turnê, promovida pela Solid Music Entertainment, a The Mönic acompanhou o giro que passou por Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. A presença da banda reforça o espaço para nomes nacionais em um pacote majoritariamente internacional e evidencia a conexão entre diferentes cenas dentro do punk contemporâneo e, claro, o protagonismo feminino na cena.
A We Are One Tour consolidou uma proposta que vai além da nostalgia ao reunir nomes históricos ainda em atividade com bandas de gerações mais recentes. O resultado é um recorte consistente do gênero, capaz de mobilizar um público diverso e reafirmar a força do circuito de shows internacionais no Brasil.
The Mönic abre noite com discurso afiado
Quem abriu a noite na Audio foi o The Mönic, que mais uma vez mostrou por que foi escolhido para acompanhar toda a We Are One Tour no Brasil. O setlist trouxe músicas como Sabotagem, Teoria, Antes Tarde, Lobotomia e TDA, construindo uma apresentação dinâmica e bem recebida pelo público desde os primeiros minutos.
Dois momentos especiais vieram nas participações: MC Taya subiu ao palco em Bitch, Eu Sou Incrível, enquanto Luisa, da Swave, participou em TDA, reforçando o clima de colaboração e cena.
Durante o show, a apresentação se alternava entre as músicas e o discurso afiado da vocalista e guitarrista Dani Buarque, que falou sobre a importância da inserção de bandas formadas por mulheres em uma cena musical ainda majoritariamente masculina. O público reagiu de forma bastante positiva, apoiando tanto a banda quanto a mensagem, com aplausos e gritos de incentivo entre as músicas.

No aspecto musical, o The Mönic entregou uma apresentação consistente, com peso e boa definição de som, mostrando segurança de palco e entrosamento. Foi um show essencialmente punk rock, que deixou claro que a banda não está ali apenas como abertura, mas como um nome que vem conquistando espaço e atenção dentro da cena.

Mute apresenta setlist pesado e melódico
Na sequência da We Are One, os canadenses do Mute assumiram o palco da Audio com uma apresentação que rapidamente elevou o nível técnico da noite. Liderado pelo baterista e vocalista Étienne Dionne, o trio chamou atenção pela precisão e pela capacidade de equilibrar velocidade e melodia sem perder intensidade. A sonoridade passeia pelo hardcore melódico, mas incorpora elementos mais elaborados, com flertes claros com o power metal, especialmente nos solos de guitarra marcados por arpeggios bem construídos.

Ao longo do set, músicas como Resistance e Fading Out ajudaram a estabelecer o tom da apresentação, evidenciando não só a coesão da banda, mas também o domínio técnico de cada integrante. A execução afiada, somada a mudanças de dinâmica bem trabalhadas, manteve o público atento e engajado, mesmo diante de uma proposta mais complexa em comparação ao punk mais direto que abriu a noite.
A conexão com a plateia também foi um dos pontos altos. Entre uma música e outra, Dionne fez questão de destacar o quanto era especial estar de volta ao Brasil, interagindo constantemente com o público. Em vários momentos, arriscou frases em português, gesto que foi recebido com entusiasmo e ajudou a estreitar ainda mais a relação com os fãs presentes na Audio.
Na reta final, a intensidade se manteve em alta, com faixas como Nevermore e Fill The Void reforçando o peso e a sofisticação do repertório. O encerramento veio com a clássica Bates Motel, executada com força e precisão, fechando o show de forma contundente e deixando a sensação de que o Mute entregou uma das apresentações mais tecnicamente impressionantes da noite.

Millencolin traz nostalgia e melodia ao palco
A apresentação dos suecos do Millencolin começou de forma emblemática, com Penguins & Polarbears abrindo o set e imediatamente transportando boa parte do público para o fim dos anos 1990 e início dos 2000. Liderada pelo baixista e vocalista Nikola Sarcevic, a banda mostrou logo de início que o show seria guiado pela nostalgia, mas sem soar datado, apoiado em melodias que atravessaram gerações dentro do hardcore melódico.
Ao longo da apresentação, o repertório passeou por diferentes fases da banda, com músicas como Bullion, Sense & Sensibility e Ray aparecendo no set e sendo cantadas em coro por boa parte do público. O Millencolin sempre teve como marca registrada melodias muito bem construídas, e isso ficou evidente ao vivo, nos refrões que parecem feitos sob medida para serem cantados por multidões.
Um dos momentos mais marcantes do show veio com The Ballad, que trouxe um clima mais melancólico e introspectivo para a apresentação. A música, uma das mais emocionais da banda, foi acompanhada com atenção pelo público, quebrando por alguns minutos a sequência mais acelerada do set e mostrando um lado mais sensível do Millencolin. Logo depois, o clima voltou a subir com outras músicas mais rápidas, mantendo a dinâmica do show sempre em movimento.
Outro grande destaque foi Happiness For Dogs, que soou muito forte ao vivo e reforçou como a banda conseguiu continuar relevante mesmo após décadas de carreira. As melodias continuam sendo o grande trunfo do Millencolin, e é impressionante como muitas dessas músicas continuam soando atuais e energéticas, mesmo para quem não acompanhou a banda em seu auge.
O encerramento veio com No Cigar, talvez a música mais conhecida da banda para o grande público, muito por conta de sua presença em Tony Hawk’s Pro Skater 2. Bastaram os primeiros acordes para a Audio praticamente inteira cantar junto, em um dos momentos mais altos da noite. Mesmo que a banda já não tenha a mesma energia física de anos atrás, o show do Millencolin continua sendo marcante justamente pela força das músicas e das melodias que ajudaram a formar o gosto musical de muita gente que estava ali.

Pennywise encerra a noite com chave de ouro
Fechando a noite, os californianos do Pennywise subiram ao palco da Audio mostrando por que a banda mantém uma relação tão forte com o público brasileiro ao longo de décadas. Formado por Jim Lindberg (vocal), Fletcher Dragge (guitarra), Randy Bradbury (baixo) e Byron McMakin (bateria), o grupo abriu o show com As Long As We Can e, a partir daí, o que se viu foi uma sequência praticamente ininterrupta de clássicos do hardcore melódico californiano.
Músicas como Peaceful Day, Broken, Can’t Believe It e My Own Way apareceram ao longo do set e foram recebidas como hinos por um público que claramente já tem uma história com a banda. O Pennywise tem essa característica de transformar show em celebração coletiva, com muitos coros, rodas e uma energia constante que vem tanto do palco quanto da pista. Mesmo com quase 40 anos de estrada, a banda segue entregando apresentações pesadas, rápidas e cheias de energia, sem dar a impressão de que está diminuindo o ritmo.
O setlist ainda trouxe alguns covers que ajudaram a deixar o clima ainda mais descontraído e festivo, como Bob e Kill All The White Men, do NOFX, além de (You Gotta) Fight For Your Right (To Party), dos Beastie Boys, que foi cantada em coro e virou quase um karaokê coletivo dentro da Audio. Esses momentos mostram também o quanto o Pennywise sempre esteve inserido em uma cena maior do punk e do hardcore, e como essa cultura de shows e turnês mantém uma atmosfera quase familiar entre bandas e público.
A ligação do Pennywise com o Brasil, especialmente com São Paulo, ficou evidente mais uma vez. Antes do ato final, Marco “Alemão” Badin, do Hangar 110, subiu ao palco para anunciar o primeiro show da banda na casa, marcado para o dia 23 de maio, já com ingressos esgotados. O anúncio foi recebido com empolgação, reforçando a ideia de que o Pennywise praticamente toca em casa quando vem ao país. Existe uma conexão muito clara entre a banda e os fãs brasileiros, construída ao longo de várias turnês, shows intensos e uma identificação muito forte com a energia do público daqui.
Como já é tradição, o encerramento veio com Bro Hymn, talvez o maior hino da banda e um dos momentos mais emocionantes de qualquer show do Pennywise. Com a plateia cantando praticamente sozinha em vários trechos e os músicos de todas as bandas no palco, a música fechou a noite em clima de celebração, amizade e espírito de cena, valores que sempre estiveram muito ligados à história da banda e do punk rock como um todo.
No fim das contas, a We Are One Tour 2026 cumpriu exatamente o que o nome promete: reuniu bandas de diferentes países, gerações e estilos dentro do punk rock, conectando público, músicos e cenas distintas em uma mesma noite. Do discurso e peso do The Mönic, passando pela técnica impressionante do Mute e pelas melodias nostálgicas do Millencolin, até a energia sempre confiável do Pennywise, o show na Audio não foi apenas o encerramento de uma turnê, mas a celebração de uma cultura musical que continua viva, barulhenta e relevante.




