
De Vitória da Conquista, na Bahia, comemorando quinze anos de história em 2025, a banda Outra Conduta lançou, em outubro, o seu primeiro disco de estúdio: “De Doutor a Malokero”, que conta com dez faixas, produzidas por Diego Oliveira, no Estúdio Drakkar, e traz participações especiais de Dona Iracema, Emissário Raell e Geisy Meireles, misturando rap, reggae e hardcore.
O quarteto formado por Velto Oliveira (vocais), Fernando Coelho (baixo), Léo Araújo (guitarra) e “Alemão” (bateria), que ficou popularmente conhecido na cidade e na região por realizar tributos ao Charlie Brown Jr, agora se lança de vez no autoral. Com um público que vai de skatistas até advogados – o que inspirou o nome do disco – a banda já estava fazendo barulho na cena com o cover, sendo uma presença garantida em festivais de rock na Bahia.
O disco é repleto de significados não só nas letras, mas também em sua parte visual. Há alguns detalhes escondidos na capa, que foram pensados de forma proposital pela banda.
“Na capa do álbum, que foi produzida por nosso amigo Paulo Henrique, fizemos uma singela homenagem ao nosso filho, Antônio, colocando um laço de autismo na minha camisa. Também tem a participação de Maia, a cadelinha de Léo, que tem uma história muito bonita de resiliência… ela tinha uma doença que mais mata cães, mas Léo a adotou, cuidou dela e ela conseguiu sobreviver!”, revela o vocalista.
O lançamento do álbum no ano em que a banda completa uma década e meia de história marca o início de um novo ciclo. Para Velto, o disco é o primeiro passo para alcançar sonhos maiores no futuro.
“Lançar esse álbum é a realização de um sonho para todos nós. Depois de 15 anos de banda nós realizamos esse sonho e estamos muito felizes, temos um grande caminho a percorrer e acredito que esse álbum acredito é um dos primeiros passos para realizarmos outros sonhos que temos.”
Confira abaixo um faixa a faixa do disco, explicado por Velto Oliveira, compositor das dez faixas.
Outra Conduta – De Doutor a Malokero: um faixa a faixa
01) Resiliência – A gente escolheu essa [para ser a música de trabalho do disco] pelo fato de estarmos fazendo quinze anos de banda esse ano. Quando fomos analisar todas as músicas do álbum, essa era a que mais combinava com o momento ali dessa comemoração dos quinze anos, porque a letra fala muito sobre você persistir no seu sonho e acreditar até o fim. Compus num dia em que estava assistindo o programa Globo Esporte e vi a história do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, que teve um momento de resiliência nas Olimpíadas [de 2004, em Atenas, na Grécia] porque ele foi parado por um padre irlandês no meio da corrida, mas persistiu até o final. Não chegou em primeiro lugar, mas ele chegou e chegou comemorando muito mais do que o primeiro lugar. Aquela história dele me inspirou a fazer uma música com esse tema de persistir e não desanimar com as adversidades no meio do caminho.
02) Por Ela – É uma música bem antiga, acho que foi uma das primeiras músicas que fiz para a Outra Conduta. Naquele momento em que fiz, eu idealizava uma mulher ideal, uma mulher da forma que eu gostaria. A música era totalmente diferente do que é hoje! A primeira parte eu deixei do mesmo jeito que era antes, com a letra original, mas na segunda parte quis dar uma significação diferente, então peguei um verso que escrevi para minha esposa, Geisy, e coloquei nessa música, porque já que encontrei a mulher que eu queria e me casei com ela, nada mais justo do que ressignificar colocando esse verso que eu fiz para ela.
03) A Música do Cachorro – Quem escolheu foi Fernando. Ele é apaixonado por essa música e eu não queria colocar no álbum, mas depois acabei gostando de como ela foi gravada. Toda vez que Fernando pedia para tocar a música, ele falava: “toca aquela música do cachorro” e acabou que o nome ficou, a gente tem muito disso, colocamos muita resenha interna da banda nas nossas músicas. Ela fala de um relacionamento em que a pessoa estava esperando a outra voltar, mas que tinha aquela incerteza de “será que volta ou não?”. E eu quis trazer essa metáfora de que Vitória da Conquista não tem mar para simbolizar o personagem da música a tomar essa decisão. Já que a pessoa não está na minha cidade, o que me resta é curtir a vida e seguir em frente…
04) Desagradável (feat. Dona Iracema) – Essa é uma música que escrevi no ano passado, já no processo de construção do disco. Eu sempre fui um cara que tinha muita dificuldade em dizer não para as pessoas e elas acabavam se aproveitando disso… chegou num momento que deu um estalo na minha mente e pensei: “cara, preciso mudar esse ponto de vista, eu vou gastar tanta energia para outras pessoas que não vou ter energia pra mim mesmo”. Foi aí que pensei em uma música com esse tema. Quero deixar claro que não estou pedindo para as pessoas serem desagradáveis o tempo todo com todo mundo (risos), é só uma maneira de libertação mesmo. A participação da Dona Iracema surgiu depois que a música já estava pronta, não foi uma participação que a gente tinha pensado antes. Ouvimos a música pronta e todo mundo falava “cara, tá massa, mas tá faltando alguma coisa… ela precisa ser mais desagradável”, aí tivemos a ideia de colocar umas vozes dando confusões ali na mente da pessoa que estava ouvindo, tipo, “vai, faz isso mesmo, desagrada”, com deboche e provocação. A Dona Iracema era a única banda que pensávamos para participar e para dar esse ar mais provocador na música.
05) – Pôr do Sol (feat. Geisy Meireles) – Essa foi uma música em que o Fernando criou a melodia com uma linha de baixo maravilhosa que ele fez. Ele levou a melodia para um ensaio e foi uma música que ficou pronta em uns 40 minutos, se eu não me engano. Foi a música mais mágica que a gente já fez em termos de sintonia, porque foi uma coisa muito rápida e ficamos até assustados no dia. Me inspirei numa viagem que fiz pra Itacaré com Geisy, curtimos um pôr do sol muito lindo lá e foi o melhor pôr do sol da minha vida. Quando Fernando chegou no ensaio, ele falou: “Fiz uma música e o nome dela é ‘Pôr do Sol’”, então já tinha mentalizado isso e esse momento do pôr do sol em Itacaré. Foi uma coisa muito difícil convencer Geisy a gravar, porque ela não se via cantando nenhuma música do disco por conta da tonalidade da voz feminina junto com a voz masculina. Um dia eu cheguei e falei: “Vamos deixar [Diego] Albino [produtor do disco] opinar sobre isso”, mas sem falar uma música em específico para ele. Pedi para ele opinar sobre qual música do repertório do disco ficaria legal com a voz de Geisy e ele falou “Pôr do Sol”, foi só aí que ela acreditou! Santo de casa não faz milagre, né (risos), não consegui convencer minha esposa a cantar, mas alguém conseguiu.
06) Nascer do Sol – Eu estava com alguns problemas emocionais… todo mundo acha que é uma música romântica [o refrão é: “e se um dia inteiro não for suficiente / no outro podemos nos encontrar / enquanto o nascer do sol existir / o dia voltará”], mas ela vem de um momento muito difícil em que eu estava enxergando tudo em volta muito cinza… um dia, abri a janela do meu trabalho, que é numa fábrica de dois andares, subi lá, olhei pela janela e estava um dia maravilhoso, então me questionei: “Como é que tô vendo isso aqui tudo tão maravilhoso e eu tô desse jeito ‘todo cinza’ aqui dentro?”. Achei aquele dia tão lindo que queria reviver várias vezes, por isso que eu fiz essa música. Foi nesse sentido, mas tem outras interpretações. As pessoas podem achar que é uma coisa mais romântica e tá tudo bem também.
07) 7 Dias no Bar – Foi uma música que fiz porque sempre que eu passava na frente do mesmo bar, toda vez via o mesmo cara. Achei curioso! O cara tá todo dia no bar… tive que escrever sobre isso, mas de uma forma que mostre a visão de quem está passando por um vício no álcool do jeito dele, sabe? Não queria que já iniciasse de uma forma triste, queria mostrar como a pessoa, quando entra no vício, acha que é bom e que está curtindo a vida… mas ela vai entrando nesse ciclo de ficar no “juro que só vai ser essa”, “hoje é só pra ver meu time jogar”, mas aí no dia seguinte tá lá de novo e tudo vira uma desculpa para continuar…
08) Passos Lentos – É uma música também antiga, a gente tem outra gravação dela lá em 2013, eu acho, na mesma época de “Por Ela”. “Passos Lentos” é uma música que o Renato Sena, que já fez parte da Outra Conduta, trouxe a letra, que teve algumas modificações minhas. Ela fala de um tema muito legal, principalmente hoje com a era digital – o que é engraçado já que a música foi feita em 2013, mas segue refletindo na atualidade. Hoje em dia com as redes sociais você está o tempo todo acelerando, acelerando, acelerando… muita gente está ficando ansioso por conta disso e essa música vem trazendo esse discurso de “eu vou continuar com os meus passos lentos e isso não vai me impedir de chegar lá”, entendeu?
09) Bem Mais Além (feat. Emissário Raell) – Emissário Raell mora no mesmo bairro que eu. A gente se conheceu na escola através de um antigo baixista da banda, que me apresentou ele e falou: “Esse mano aqui faz rap, a gente poderia pensar em alguma coisa junto…”, e eu já tinha a primeira parte da letra dessa música, aí ele criou a segunda parte. Nessa música, falamos muito sobre as pessoas e o que a gente vê em volta na nossa comunidade, porque vemos muita gente que é batalhadora, que é trabalhadora, e que às vezes não tem muita esperança de um futuro melhor por conta da falta de oportunidades e por estarem tão longe de algumas coisas. O Emissário Raell trouxe rimas ali que, quando você escuta, se estiver para baixo, acaba se libertando de alguma forma.
10) Outra Conduta (De Doutor a Malokero) – A gente precisava de um grito de guerra! Eu já tinha uma música chamada “Outra Conduta” antes, que era uma versão mais punk rock, mais hardcore, mas queríamos trazer uma outra energia para ela, com uma forma de tocar que fosse uma energia “pra cima”, entendeu? Então mudamos totalmente o estilo musical e a sonoridade. Queríamos trazer todo o universo que tá em volta da Outra Conduta, porque você vai no nosso show e vê de criança a idoso, de skatista a advogados, pessoas de vários gêneros e classes sociais, então, a Outra Conduta é isso: É uma mistura de tudo! E a gente quis trazer isso, né? E nós também trouxemos referências da nossa cidade, citamos a Dona Iracema, a [banda punk] Cama de Jornal, a galera do skate, a galera do rap também… tudo o que compõe a Outra Conduta.



