
Booze & Glory (Créditos: Raissa Corre/Rarozine)
Para os fãs de street punk, Oi! e da cultura skinhead, a noite de 28 de fevereiro foi especial e certamente deixou muitas lembranças. Após nove anos, os ingleses do Booze & Glory voltaram ao Brasil para tocar no lendário Hangar 110, um dos espaços mais emblemáticos do underground nacional.
Em mais uma iniciativa da NDP (New Direction Productions), a noite reuniu, além dos britânicos, as bandas Faca Preta e 88Não!. Nem o frio e a chuva persistente foram capazes de esfriar o clima — no máximo, provocaram alguns atrasos. Do lado de fora, a rua estava gelada; lá dentro, o ambiente era de calor, do reencontro aguardado por anos.
A primeira a subir ao palco foi a Faca Preta, com seu punk rock melódico e letras de protesto. Liderado por Fabiano Santos, o grupo mostrou energia crua em um repertório que alternou músicas antigas com faixas do EP mais recente, Fogo no Sistema. A canção-título esteve entre os destaques, ao lado de “São Paulo” e “Donos do Futuro”, além de um cover caprichado de “We’re Coming Back”, do Cock Sparrer.
A apresentação serviu como prova de que o punk rock brasileiro segue ativo, se reinventando e mantendo o discurso afiado.



Na sequência, foi a vez do 88Não! Formada em 2000, no ABC Paulista, a banda mistura punk rock e hardcore ao street punk e ao Oi!, com letras que retratam o cotidiano do subúrbio. No repertório, apareceram faixas conhecidas como “Agitar (Get Up)” e “Bairro Pobre”, executadas com intensidade.
Um dos momentos mais marcantes veio com “Espelho” e “Melhores Dias”, que contaram com um naipe de metais formado por integrantes das bandas Gritando Ska e Marzela, acrescentando elementos de ska à apresentação. Para quem aprecia punk com melodia e temática social, o 88Não! é sempre uma boa pedida.



O retorno esperado: Booze & Glory no palco
Depois de uma longa passagem de som, o Booze & Glory finalmente subiu ao palco exibindo a energia característica do street punk. Bastaram os primeiros acordes para que o Hangar 110 se transformasse em algo próximo a um pub inglês em dia de jogo.
“The Day I’m in My Grave” abriu o show da banda liderada por Marek Rusek, unindo punks e skinheads de diferentes idades em um coro que, em vários momentos, sobrepunha a voz do vocalista.
A apresentação reafirmou a conexão antiga do grupo com o público brasileiro. Desde o início, a pista se movimentava em rodas que se abriam e fechavam a cada refrão. O repertório apostou em músicas que consolidaram a trajetória da banda, recebidas em volume máximo. “Carry On” foi entoada como hino, enquanto “Swingin’ Hammers” e “Boys Will Be Boys” mantiveram o ritmo acelerado.
Quando soaram os acordes de “London Skinhead Crew”, o show atingiu seu ápice. Fãs subiram ao palco espontaneamente, dividiram o microfone e cantaram ombro a ombro com a banda, em um momento de celebração coletiva. A ligação com o futebol também esteve presente. Parte do público vestia camisas do West Ham United, clube do coração dos integrantes, e bandeiras do time apareceram durante toda a apresentação, reforçando a atmosfera britânica.
Nesse clima, vieram ainda “Three Points”, “The Streets I Call My Own” e, encerrando o set, “Only Fools Get Caught”. O que mais chamou atenção foi a proximidade entre a banda e a plateia. Não havia distância entre palco e pista; subir, cantar junto e voltar para a multidão parecia parte do ritual.

Além da festa, houve espaço para reafirmar posicionamentos, como o combate ao fascismo, mensagem reforçada pelo grupo. O show foi direto, com poucas pausas e uma sequência de músicas que manteve a intensidade do início ao fim. Um retorno à altura da expectativa, fortalecendo os laços com o público brasileiro — tanto que o vocalista prometeu que a espera pelo próximo encontro não será tão longa. Resta torcer para cumprir a palavra.
Saí do Hangar 110 com a roupa suada, a voz rouca e a sensação de ter vivido algo maior do que um simples show. Foi intenso, barulhento e sincero, do jeito que precisa ser. Sem pirotecnia ou grandes efeitos, mas com verdade. E, no fim, é isso que faz diferença.




