
Fiddlehead (Créditos: Rafael Bino/Fúria Underground)
A noite de 22 de fevereiro de 2026 entrou para a memória dos fãs brasileiros. Depois de muitos pedidos de “come to Brazil”, as produtoras Powerline Music & Books e NDP (New Direction Productions) finalmente trouxeram ao país duas bandas de gerações diferentes e igualmente cultuadas: Rival Schools e Fiddlehead, que fizeram sua aguardada estreia por aqui.
Os santistas do Capote abriram a noite. Para quem ainda não conhecia o trabalho da banda, foi uma grata surpresa. Com forte influência do próprio Fiddlehead, o grupo equilibra emo, grunge e rock alternativo com personalidade. Em alguns momentos, o vocal remete a bandas como Terno Rei, mas com uma camada extra de peso.
No setlist, “Joelho Ralado” foi um dos destaques. A letra propõe uma reflexão sobre enfrentar dores e dificuldades, usando como metáfora a tentação de arrancar a casquinha de um machucado: “Arranquei a casca que torturava…”. Profunda, melancólica e contagiante, a canção reafirma Santos como um dos grandes celeiros do underground nacional. O repertório ainda trouxe faixas como “Perto do Fim (Chore por Mim)” e “Essência”, consolidando a ótima impressão deixada pela banda.
Emoção e entrega: Zander no palco
Na sequência, o Zander assumiu o palco e conduziu mais um daqueles momentos intensos que já se tornaram marca registrada do grupo liderado por Gabriel “Bil” Zander. Com um repertório repleto de músicas queridas pelo público, como “Meia Noite”, “Dezesseis” e “Auto Falantes”, o Fabrique Club virou um grande coro coletivo.
Cada apresentação do Zander tem uma energia própria, talvez esteja aí o segredo da longevidade e da conexão da banda com o público. Um dos instantes mais emocionantes da noite aconteceu durante “Bastian Contra o Nada”. O baixista Fausto Oi, conhecido também por sua trajetória em bandas como Dance of Days e Eu Serei a Hiena, não conteve as lágrimas ao lembrar do pai, falecido quatro dias antes. Ao final da música, o público respondeu em uníssono, gritando seu nome como um abraço coletivo.
Como de costume, o set também incluiu “Ímpar”, do Noção de Nada, outra banda fundamental na trajetória de Bil. A despedida veio com “Pólvora”, em uma performance intensa e divertida que incluiu um trecho inesperado de “Raining Blood”, do Slayer, prova de que o Zander nunca se limitou a rótulos.
Rival Schools: estreia histórica
A espera acabou: o Rival Schools finalmente subiu ao palco brasileiro e fez jus à expectativa. Longe de uma simples estreia protocolar, o show foi uma celebração marcada por suor, entrega e comunhão.
O repertório percorreu momentos emblemáticos da carreira, com destaques para “Wring It Out” e “Travel by Telephone”. Mas foram “Used For Glue” e “Undercovers On” que transformaram a casa em um coro ensurdecedor. Bastaram os primeiros acordes de “Used For Glue” para o público explodir como em final de campeonato, cantando cada verso a plenos pulmões.
À frente da banda, Walter Schreifels mostrou por que é uma figura tão respeitada na cena hardcore e alternativa. Com passagens por Gorilla Biscuits, Youth of Today e Quicksand, ele alternou sorrisos, olhares cúmplices e palavras sinceras de agradecimento ao público brasileiro. Na bateria, Sammy Siegler — veterano de Gorilla Biscuits, Shelter e 7 Seconds — impressionou pela energia e pela intensidade, tocando como se cada música fosse a primeira.
Outro aspecto que chamou atenção foi o equilíbrio entre técnica e espontaneidade. As guitarras soavam cristalinas e, ao mesmo tempo, carregadas de tensão, com dinâmicas que iam do contido ao explosivo em questão de segundos. A cozinha segurava tudo com firmeza, permitindo que as nuances das composições aparecessem com clareza. Ao vivo, as músicas ganharam contornos ainda mais viscerais, revelando camadas que, em estúdio, passam quase despercebidas.
Também impressionou a diversidade do público presente. Havia fãs que acompanham a trajetória da banda desde o início dos anos 2000 e uma geração mais jovem que descobriu o grupo por streaming ou influência de outras bandas. Essa mistura criou um ambiente raro: veteranos cantando cada verso com a mesma intensidade de quem estava vendo o Rival Schools pela primeira vez.
Entre uma música e outra, Schreifels conversava com naturalidade, parecia genuinamente tocado pela recepção e se divertia com o “caos” positivo criado diante do palco. Uma estreia que já nasce histórica.
Fiddlehead encerra a noite em alta
Coube ao Fiddlehead fechar a noite e a banda não economizou intensidade. Da abertura com “Grief Motif” aos últimos acordes, o show foi uma espiral crescente de emoção.
“The Years” e “The Deathlife” incendiaram a pista logo de início. “Sleepyhead” e “Million Times” reforçaram o tom melancólico característico do grupo, enquanto “True Hardcore (II)” elevou a temperatura com rodas e stage dives quase ininterruptos. Em “Tidal Waves” e “Head Hands”, a cena parecia coreografada pela própria vibração da música.
“My World”, “Eternal You” e “Sullenboy” vieram acompanhadas de coros ensurdecedores. “Get My Mind Right” e “Fifteen to Infinity” consolidaram a entrega total do público, que cantava de olhos fechados e braços erguidos. Após “Heart to Heart” e “Lay Low”, os gritos por bis ecoaram pelo Fabrique Club e ninguém arredou pé.
A banda retornou sob aplausos intensos. Sorrindo, Patrick Flynn anunciou: “Não vamos tocar uma música… vamos tocar mais duas”. O encore com “USMA” e “Loverman” selou a noite com emoção crua e sensação de missão cumprida.
Flynn, também conhecido por sua trajetória no Have Heart, equilibrou força e sensibilidade com naturalidade. Vestindo uma camisa do Santos Futebol Clube, arrancou aplausos ao brincar: “Ganhei essa camisa e me disseram que é o melhor time do país”. Professor de História, ele já declarou admiração por Paulo Freire, pelo filme Cidade de Deus e pelos Ratos de Porão, referências que ajudam a explicar a afinidade imediata com o público brasileiro.
Apesar da figura naturalmente carismática de Flynn (que não se importou em ser derrubado durante o stage dive de um fã mais emocionado), o Fiddlehead funciona como um organismo coeso, com olhares constantes e sintonia evidente entre os integrantes. A troca silenciosa de gestos e sorrisos revelava cumplicidade e confiança, algo que transparece na execução precisa das músicas. Essa sensação de unidade reforçou o clima de pertencimento na pista, como se banda e plateia compartilhassem, por algumas horas, o mesmo espaço emocional.



