
Foto: Ana Alves/Musicult
O My Chemical Romance nunca foi apenas uma banda, e o espetáculo apresentado em São Paulo, no Allianz Parque, deixou isso mais claro do que nunca.
Celebrando os 20 anos de The Black Parade, o grupo transformou o estádio em um universo que uniu show, peça teatral e ritual coletivo. A distopia, que em 2006 parecia exagerada, hoje soa quase documental, mas o que a banda propõe não é profecia: é sobrevivência emocional.
O regime fascista, os figurinos, o olho vigiando a plateia e os personagens constroem um universo que dialoga diretamente com a estética exagerada e dramática que moldou o emocore. Pode soar datado (mas e é justamente esse o ponto).
O My Chemical Romance não tenta atualizar sua estética para agradar novos algoritmos; a banda assume o excesso e a teatralidade como parte de sua marca, e da memória de uma geração criada entre clipes da MTV, filmes e uma sensação de solidão.
20 anos de The Black Parade
O risco de um espetáculo tão narrativo seria a música virar trilha sonora. Isso nunca acontece. Mesmo no auge da encenação, o que sustenta tudo é a música. Toda a banda se mostra impecável e Gerard Way, como frontman, continua sendo um caso raro: cada gesto, cada vocal e cada pausa existem para levar ao público o drama das canções, e isso é o que o torna tão bom naquilo que faz.
A decisão de tocar o álbum na íntegra funciona como se fosse o primeiro ato de uma peça gótica, toda a estética criada pela banda impressiona e hipnotiza aqueles que assistem, o show vai além e passa a ser um espetáculo cheio de simbolismos.
Quando o teatro cai e a banda retorna ao palco “fora dos personagens”, fica claro o que realmente importa: o My Chemical Romance segue sendo uma máquina. Hits, lados B e surpresas encontram um público adulto, emocionado e plenamente consciente de que aquelas músicas ajudaram a atravessar a adolescência, e agora ajudam a encarar o presente e realizar um sonho.
Mesmo que a espera por “The Ghost of You” não tenha se tornado realidade, o My Chemical Romance entregou, em dois dias de Allianz lotado, o melhor que uma produção internacional pode oferecer, mostrando que não importa quanto tempo passe, sempre é possível entregar algo novo para os fãs, e é isso que o público pode ver, um álbum que todos ali conheciam muito bem, mas apresentado de uma maneira totalmente inédita.
O My Chemical Romance de 2026 não vive apenas da nostalgia. Vive da coragem de manter intacta sua identidade em uma era de shows iguais e experiências fracas. Ao transformar o estádio em um teatro, a banda lembra que o emo nunca foi só um estilo musical. E, duas décadas depois, seus fãs continuam ali, talvez mais fiéis do que nunca.
Confira o setlist das duas noites do My Chemical Romance no Brasil:



