
Março promete ser daqueles meses que ficam na memória de quem vive punk rock de verdade. Pennywise e Millencolin, dois nomes fundamentais do punk/hardcore melódico mundial, voltam ao Brasil para uma turnê conjunta que ainda conta com os canadenses do Mute e a força da cena nacional representada pela The Mönic, na já consolidada We Are One Tour. É um encontro de gerações, estilos e escolas diferentes do punk, mas com a mesma energia crua que atravessa décadas.
A turnê, realizada pela Solid Music Entertainment, passa por seis datas no país e traz um pacote completo: riffs acelerados, letras que falam de inconformismo, pertencimento e resistência, além daquele clima de catarse coletiva que só esse tipo de show consegue entregar.
Quando acontece a We Are One Tour 2026?
O rolê começa no dia 24 de março, em Porto Alegre, com show no URB Stage. No dia seguinte, é a vez de Florianópolis, onde a apresentação acontece no Life Club. A rota segue para Curitiba, no dia 27, com show marcado no Piazza Notte.
O destaque do giro fica por conta de São Paulo, única capital a receber duas datas.
O primeiro show acontece no sábado, 28 de março, no Terra SP, e também contará com as bandas Zander e Contra o Céu no line-up. O show teve ingressos esgotados em apenas três dias, reforçando a forte conexão das bandas com o público paulistano. Diante da alta demanda, foi anunciada uma data extra na cidade, marcada para 31 de março (terça-feira), na Audio, casa essa que na qual a banda já se apresentou há 11 anos, ao lado do Face to Face.
Entre as duas apresentações em São Paulo, a turnê passa pelo Rio de Janeiro, no domingo, 29 de março, com show na Sacadura 154, encerrando mais uma passagem intensa das bandas pelo país. Os ingressos para os shows estão disponíveis para compra no link.
Pennywise: uma história de punk e sobrevivência
Fundado em 1988, em Hermosa Beach, Califórnia, o Pennywise surgiu em meio à efervescência da cena hardcore do sul da Califórnia. Desde o começo, a banda deixou claro que não se tratava apenas de velocidade e agressividade: havia também um forte senso de comunidade, mensagem positiva e letras que dialogavam diretamente com jovens deslocados, frustrados e em busca de identidade.
A formação original trouxe Jim Lindberg nos vocais, Fletcher Dragge na guitarra, Byron McMackin na bateria e Jason Thirsk no baixo. Essa base moldou o som que viraria referência para incontáveis bandas nas décadas seguintes.
Disco a disco: a construção de um legado
A história do Pennywise nos discos começa oficialmente em 1991, com o álbum homônimo, um cartão de visitas cru, rápido e direto, que já deixava claro de onde a banda vinha e o que queria dizer. As músicas eram curtas, aceleradas e cheias de urgência, falando de deslocamento, frustração e da sensação constante de não pertencer.
Faixas como “Wouldn’t It Be Nice”, “The Secret” e “No Reason Why” ajudaram a estabelecer uma identidade sonora que misturava o hardcore da Califórnia com refrões que grudavam fácil, algo que se tornaria marca registrada do grupo. Além disso, foi nesse disco que surgiu “Bro Hymn”, música escrita por Jason Thirsk para homenagear três amigos que haviam partido pouco tempo antes.
Dois anos depois, em 1993, o Pennywise deu um passo importante com Unknown Road. O disco mostrou uma banda mais segura, com composições mais encorpadas e letras que iam além da simples revolta juvenil. A faixa-título virou um dos maiores hinos da carreira, traduzindo perfeitamente a ideia de estar perdido, mas ainda assim seguir em frente. O álbum é frequentemente lembrado como um dos grandes clássicos do hardcore melódico dos anos 1990 e ajudou a ampliar a base de fãs da banda fora dos Estados Unidos.
Em 1995, veio About Time, trabalho que consolidou de vez o Pennywise como um nome grande do punk rock mundial. O disco equilibra agressividade e emoção como poucos e apresentou ao mundo a música “Same Old Story”, que extrapolou o universo do punk e se transformou em um verdadeiro ritual coletivo nos shows. About Time também mostrou uma banda mais madura, capaz de escrever refrões gigantes sem abrir mão da intensidade.
A trajetória do grupo mudou de forma definitiva em 1996, com a morte do baixista Jason Thirsk, perda devastadora que poderia ter encerrado a história do Pennywise. Em vez disso, a banda decidiu seguir em frente e encontrou em Randy Bradbury o parceiro ideal para assumir o baixo. A entrada de Randy marcou uma nova fase e ficou evidente já em Full Circle (1997), um disco mais pesado, emocionalmente carregado e com forte senso de união.
Era um álbum sobre luto, sobrevivência e a decisão consciente de continuar, custasse o que custasse. Neste registro, alguns dos destaques são “Fight Till You Die”, “Broken” e uma regravação de “Bro Hymn”, que a partir daquele momento se tornava uma homenagem a Thirsk.
Com Straight Ahead (1999), o Pennywise mostrou que ainda tinha muita energia para gastar. O disco resgatou a velocidade e a agressividade dos primeiros anos, mas com letras mais reflexivas, falando de amadurecimento, responsabilidade e escolhas, apresentando as pesadas e melódicas “Just For You”, “Can’t Take Anymore” e “My Own Way” ao mundo.
Já em Land of the Free? (2001), a banda deixou o discurso ainda mais político, questionando o sonho americano e as contradições sociais dos Estados Unidos. Foi desse álbum que saiu “Fuck Authority”, um dos maiores hinos da carreira e presença obrigatória em praticamente todos os shows desde então.
O espírito de reconstrução ficou evidente em From the Ashes (2003). O título não poderia ser mais apropriado: o Pennywise soava confiante, coeso e plenamente consciente de seu legado. As músicas mantinham o peso e a urgência, mas com uma banda claramente mais experiente e sólida. Em The Fuse (2005), o grupo flertou com uma produção um pouco mais moderna, sem abandonar o som direto e os refrões fortes, mostrando que ainda era possível evoluir sem perder identidade.
Encerrando esse primeiro grande ciclo, Reason to Believe (2008) trouxe um Pennywise mais reflexivo, questionando política, religião, fé e o papel do indivíduo em uma sociedade cada vez mais contraditória. Foi o último álbum com Jim Lindberg antes de sua saída, em 2009, e acabou funcionando como uma espécie de ponto final de uma era.
Saída de Jim Lindberg
Em 2009, Jim Lindberg deixa o Pennywise, sendo substituído por Zoli Téglás, ex-vocalista do Ignite. Com ele, a banda lança All or Nothing (2012), um disco sólido, mas que dividiu opiniões por conta da mudança vocal.
Em 2012, Lindberg retorna, reacendendo a conexão com os fãs e trazendo de volta a identidade vocal clássica do Pennywise. Desde então, a banda segue ativa, focada principalmente em shows intensos e celebração de sua trajetória.
Apód a volta do seu vocalista original, o quarteto lançou, ainda, os discos “Yesterdays” (2014) e “Never Gonna Die” (2018).
Pennywise e o Brasil: uma relação de devoção
A relação do Pennywise com o Brasil foi construída de forma gradual, mas sempre intensa, show após show, até se transformar em uma das conexões mais fortes da banda fora dos Estados Unidos. Cada passagem pelo país ajudou a consolidar essa devoção do público brasileiro, conhecido pela entrega total, coros ensurdecedores e uma energia que dialoga diretamente com a essência do Pennywise.
A primeira visita da banda ao Brasil aconteceu em 2004, em um show histórico ao lado de Bad Religion e Dead Fish. Para muitos fãs, aquele foi um momento de catarse: finalmente ver ao vivo uma banda que havia ajudado a moldar gerações dentro do punk e do hardcore melódico. O shows foram marcados por intensidade absoluta, com o público demonstrando toda sua paixão pela banda de Hermosa Beach.
O retorno veio em 2007, já com o Pennywise em status de banda cultuada no país. Nessa passagem, a relação se aprofundou ainda mais: o público conhecia cada música, cada virada, cada pausa, transformando os shows em eventos caóticos e emocionais. A banda, por sua vez, demonstrava surpresa e gratidão diante da resposta brasileira, algo que começava a se repetir como padrão.
Em 2010, o Pennywise voltou ao Brasil já com Zoli Téglás nos vocais, marcando uma nova fase da banda após a saída de Jim Lindberg. Foi uma passagem importante e desafiadora, que apresentou ao público brasileiro uma formação diferente, mas ainda fiel à proposta hardcore e à energia explosiva dos shows. Mesmo com a mudança vocal, a recepção foi calorosa, mostrando a força do repertório e o respeito conquistado ao longo dos anos.
Dois anos depois, em 2012, aconteceu um dos momentos mais simbólicos da história da banda no país: o retorno de Jim Lindberg aos vocais, celebrado em um show carregado de emoção no extinto WROS Fest, em São Paulo. Essa passagem teve clima de reencontro, tanto para a banda quanto para os fãs, que acompanharam em peso cada música, reforçando a ligação construída desde a primeira visita.
Em 2015, o Pennywise voltou novamente já com a formação clássica estabilizada, ao lado dos também californianos Face To Face, passando por diversas cidades brasileiras. As apresentações dessa turnê consolidaram a sensação de que o Brasil havia se tornado uma segunda casa para a banda. O repertório abrangente, passando por diferentes fases da carreira, reforçou a ideia de celebração da própria trajetória.
As passagens de 2017 e 2018 apenas confirmaram esse vínculo. A essa altura, os shows do Pennywise no Brasil já funcionavam quase como rituais coletivos: desde os primeiros acordes até o coro final de “Bro Hymn”, o público cantava tudo, criando um ambiente de comunhão que a própria banda frequentemente reconhecia no palco.
Ao longo dessas visitas, o Pennywise construiu no Brasil uma base de fãs que atravessa gerações. Cada retorno deixa claro que não se trata apenas de mais uma data internacional, mas de uma relação genuína, feita de suor, gritos, união e refrões que continuam ecoando muito depois do último acorde.
Com quase quatro décadas de estrada, o Pennywise segue provando que tempo de carreira nunca foi sinônimo de acomodação. Pelo contrário: a banda continua na ativa, tocando com a mesma urgência, intensidade e entrega que ajudaram a moldar o punk/hardcore melódico ao redor do mundo.
Essa nova turnê pelo Brasil é mais um convite para celebrar uma trajetória construída à base de discos clássicos, shows catárticos e uma relação especial com o público brasileiro. Para fãs antigos e para quem vai viver essa experiência pela primeira vez, é a chance de fazer parte de mais um capítulo de uma história que segue a todo vapor, alta, suada e cantada em coro do começo ao fim.
(*) Crédito da foto: Divulgação



