
Quase Deserto é um filme que segue uma premissa curiosa. Trilíngue, o longa acompanha três personagens principais: Benjamín (Daniel Hendler), um jornalista argentino em fuga após se envolver em uma conspiração política, Luís (Vinicius de Oliveira), um brasileiro em busca de recomeçar a vida no exterior, e Ava (Angela Sarafyan), essa sim estadunidense, mas tão marginalizada quanto os dois imigrantes, por possuir uma síndrome rara que poucos ao seu redor entendem.
Cada um deles tem seus próprios desafios pessoais, mas talvez o principal vilão de suas jornadas seja o fato de terem escolhido a hora e o lugar errado para serem quem são: Detroit, a outrora cidade do futuro que atualmente jaz em prédios vazios e casas abandonadas; tudo isso no meio da pandemia de Covid-19 e durante a corrida presidencial que colocou Joe Biden e Donald Trump para concorrer pelo voto dos cidadãos dos Estados Unidos, e também acirrar os ânimos, preconceitos e opiniões já exacerbadas daqueles que vivem na suposta terra da liberdade.
Mais atual, impossível: mesmo que se passe em 2020, as reviravoltas e o conservadorismo da política institucional posicionam Quase Deserto como um dos filmes de premissa mais atual e relevantes para o momento que nós – cidadãos do mundo hiperconectado – vivemos agora, em 2025. Parecia impossível dar errado. Mas deu.
Deserto de ideias
O filme de José Eduardo Belmonte toma decisões esquisitas em relação à condução do universo estabelecido. O primeiro terço da projeção é muito interessante, apresentando Detroit sob os olhos e justificativas dos imigrantes argentino e brasileiro para se refugiarem na cidade-fantasma durante um período tão difícil para a política dos EUA e do mundo.
Por meio de uma condução bastante pop, com cortes rápidos, narração, cenas de perseguição e diálogos rápidos que alternam entre os idiomas nativos de cada personagem, o filme é eficaz em convencer o espectador a ficar e aprender mais sobre aquelas pessoas. A apresentação de Ava, a única estadunidense do trio, também é interessante e recoberta de mistério.
Mas as coisas mudam a partir do momento que o conflito principal do longa é estabelecido.
Não é a intenção desta crítica entrar em spoilers e acabar com uma das únicas forças motrizes que o longa conserva: o mistério. Basta dizer que Ava se encontra em uma situação com a qual os dois estrangeiros se identificam e acabam se compadecendo. É nesse momento que o filme sai dos trilhos, deixa o interessantíssimo thriller político de lado e embarca em uma jornada aventuresca que é, no melhor dos cenários, bem intencionada. No pior, é bastante genérica e visa apenas estabelecer valores que são lugares-comuns da produção ficcional, como a família, união, altruísmo e fazer o moralmente correto.
Acontece que todo o setup do primeiro terço nos treina a esperar mais. Quase Deserto tinha potencial para entregar o moralmente dúbio; sair do automático como aqueles personagens fizeram no momento em que decidiram imigrar para tentar mudar suas vidas. Escolhe apostar no certo quando o espectador espera pelo duvidoso. Em alguns momentos, dá vontade de acompanhar a jornada dos muitos coadjuvantes interessantíssimos aos quais o filme nos apresenta para apoiar a jornada dos anti heróis latinos na terra arrasada em que se encontram.
Fica a impressão de que essa história poderia ter sido contada em qualquer cidade, por quaisquer personagens, em qualquer contexto político e cultural. Toda a ambientação tão bem construída no início do longa só serve, afinal, para estabelecer algumas motivações rasas e trazer um senso de identificação e satisfação para o espectador.
Quem diria que um filme falado em três idiomas, ambientado em um dos momentos mais complexos da história recente em uma das cidades com maior potencial cinematográfico dos Estados Unidos poderia resultar em um produto final tão genérico?
Por mais que seja um filme trilíngue dirigido por um brasileiro, a condução da narrativa acaba entregando um conto a respeito das mesmas virtudes continuamente reiteradas pelo cinema estadunidense, tornando a análise do discurso muito mais interessante do que o discurso em si.



