
Planet Hemp (Créditos: @bmaisca/Retirado do Instagram da @30ebr)
No último sábado, dia 15 de novembro de 2025, São Paulo testemunhou um rito de passagem. Em meio à turnê de despedida, A Última Ponta, o Planet Hemp (atualmente formado por Marcelo D2, BNegão, Formigão, Nobru, Pedro Garcia e Daniel Ganjaman) transformou São Paulo em uma grande celebração da memória.
Revisitando sua trajetória de 32 anos com energia política, presenças marcantes da música brasileira e um público engajado, a banda deixou claro que aquela noite carregava um peso especial.
Um prólogo à altura
Antes mesmo da atração principal pisar no palco, o clima de animação já tomava conta do Allianz Parque. A abertura do espetáculo ficou por conta da BaianaSystem, banda brasileira de afro rock, que trouxe um prenúncio da intensidade que viria pela frente.
Com ritmos envolventes e uma presença de palco contagiante, a banda saudou o público com sua energia única. E a plateia, por sua vez, acompanhou a empolgação, mostrando-se receptiva, cantando e vibrando com cada música escolhida para compor a setlist.
Ali, ficou claro que a BaianaSystem foi a escolha perfeita para aquecer a noite e preparar o terreno para o que seria um dos shows mais marcantes da história do Planet Hemp.
Planet Hemp como documento histórico
Após o fim do show da banda baiana, os telões exibiram uma retrospectiva de momentos históricos e musicais do Brasil e do mundo.
O recorte começou em 1967, durante o governo Costa e Silva, período marcado pela forte repressão e censura. A partir desse ponto, a projeção costurava movimentos culturais, discos de resistência e expressões artísticas que enfrentaram o silêncio imposto pela ditadura.
Essa linha do tempo conduzia o público até o surgimento do Planet Hemp, cuja própria trajetória seria narrada ali, ao vivo, no palco.
Com a banda diante do público, deu-se espaço a um espetáculo dividido em capítulos, como em um livro. O primeiro deles, Quem tem seda?, abriu uma narrativa que ignorava a linearidade: histórias da trajetória do grupo se entrelaçavam a músicas antigas e recentes.
Memória, gratidão e personagens que construíram a banda
Entre hits e músicas consideradas “Lado B”, os músicos aproveitavam as pausas para agradecer à plateia, afirmando que esperavam estar honrando o público ao longo desses 32 anos de história.
Ao revisitar memórias, foram mencionados personagens essenciais para o nascimento e sobrevivência do Planet Hemp, como o músico Skunk, integrante da formação original e presença decisiva na identidade da banda.
Entre outras homenagens, também foi citado Fábio Costa, fundador da casa de espetáculos Garage, símbolo da cena alternativa carioca entre o final dos anos 80 e anos 90 e um dos berços da banda.
Naquele momento, a história do Planet Hemp se confundia com a história de toda uma geração.

O coro de “Jardineiro não é traficante” e a evolução da banda
Dando seguimento ao espetáculo, o coro da plateia em Jardineiro Não É Traficante marcou um dos momentos mais intensos da noite. A cena mostrava não apenas a força da mensagem da banda, mas também que o Planet Hemp não ficou preso aos clássicos do passado. Sua sonoridade evoluiu mantendo a essência, e o público pareceu evoluir junto.
E assim, diante de milhares de vozes, a banda comprovou que suas músicas mais recentes já conquistaram um espaço próprio na memória afetiva dos fãs.
Convidados históricos e os hits que não podiam faltar
Também houve uma sequência de participações especiais que reforçaram o caráter histórico do evento: Emicida, Seu Jorge, Pitty, João Gordo e Black Alien, que veio de carro, diretamente de Niterói, para uma surpresa especial.
Com Emicida, a banda cantou Nunca Tenha Medo e uma versão do hit AmarElo, do cantor paulistano. Já com Seu Jorge, as colaborações foram em Biruta (o cantor na flauta), e o medley Cadê o isqueiro?/Quem tem seda?/Pilotando o bonde da excursão. Ao lado dos dois, a banda também tocou Nunca Tenha Medo.
Junto da cantora baiana, Pitty, o show mudou sua esfera para uma vibe mais rockeira, onde apresentaram as versões de Admirável Chip Novo e Teto de Vidro.
Mas o maior momento de êxtase se deu quando Black Alien apareceu no palco. Ao lado do ex-Planet Hemp, a banda apresentou Contexto e reapresentou Queimando Tudo, deixando claro o quanto sua presença continua sendo um eixo fundamental do imaginário da banda.
Já no bis, João Gordo trouxe o peso do punk para Crise Geral, antes do encerramento com Mantenha o Respeito.
Um encerramento que eterniza o legado
Quando os últimos acordes de Mantenha o Respeito ecoaram pelo Allianz Parque, ficou evidente que A Última Ponta não simbolizava apenas uma despedida dos palcos, mas a afirmação de uma banda que atravessou décadas provocando, inovando e se reinventando sem perder sua essência.
E, se a turnê marca o fim de uma era, aquela noite deixou a certeza de que o legado do Planet Hemp permanecerá pulsando na história da música brasileira e como um movimento vivo para aqueles que lotaram o estádio na celebração de 32 anos em uma única noite.




