
A essa altura, o nome “Wicked” já representa uma grife do teatro musical, extrapolando o nicho dos amantes dos palcos e se tornando uma das peças mais populares do gênero, mesmo entre os não habituados a essa forma de arte. Não é surpresa pra ninguém que a adaptação cinematográfica atraia tanta ou mais atenção que o material base para o público geral, ainda mais com nomes como Ariana Grande e Cynthia Erivo nos papéis principais. O primeiro filme alcançou ótimos resultados, sendo aclamado pelo público e elogiado pela crítica, mas será que Wicked: Parte 2 faz jus às expectativas, a essa altura maiores ainda, dos fãs de Glinda e Elphaba?
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Desafiando a gravidade
Wicked: Parte 2 retoma o drama de Glinda (Ariana Grande) e Elphaba (Cynthia Erivo) exatamente de onde o primeiro filme parou: o momento em que Elphaba, revoltada com a omissão e as manipulações do Mágico de Oz (Jeff Goldblum), precisa se exilar após o início de uma campanha de difamação que a transforma, aos olhos do público, na Bruxa Má do Oeste. Enquanto isso, Glinda, agora dona do epíteto “A Boa”, precisa decidir entre se tornar de vez a porta-voz do Mágico e de seus truques ou ajudar a amiga em sua missão de desmascará-lo.
Quem já assistiu ao musical e ao primeiro filme sabe que a adaptação cinematográfica escolheu se dividir da mesma forma que a peça se divide, sendo cada filme representante de um dos atos da obra original. Isso pode representar um problema para parte do público e uma boa notícia para outra: depende de qual dos dois atos é o seu preferido.
Deixando de lado as preferências deste crítico (que prefere o primeiro ato, diga-se) em prol da fluidez do texto, é seguro dizer que a sequência faz, sim, jus à qualidade do filme anterior. Não há muito que se dizer em relação à direção de John M. Chu, cineasta um tanto burocrático, porém bom o suficiente no que se propõe na maioria das vezes: obedecer ao estúdio e manter a consistência de uma propriedade intelectual.
Ambos os filmes custaram caro, e o dinheiro se traduz em tela: a recriação de Oz é bonita, colorida, viva e com muito a encher os olhos do espectador.
Por sua causa tudo mudou em mim
É nas atuações da dupla principal e de todo o elenco de apoio que o longa brilha de verdade. Wicked: Parte 2 é um filme muito mais sério e sombrio que o primeiro. Elphaba e Glinda não se sentem completas sem a presença uma da outra, sentimento transmitido pela ira da personagem de Cynthia Erivo, altiva e ameaçadora na maioria de suas aparições, mas também triste e vulnerável quando necessário; e pela tristeza que Ariana Grande transmite com sua Glinda, sempre sorrindo frente ao povo de Oz, porém com os olhos marejados quando está sozinha.
Os momentos em que as duas interagem, muito mais espaçados em relação à primeira parte, são excelentes recompensas para quem esperou um ano (ou até mesmo algumas décadas) para presenciar o ápice dessa história nas salas de cinema.
O destaque, obviamente, fica para Tudo Mudou (For Good), ápice do amadurecimento das duas personagens, e o prenúncio de um final que talvez não seja tão feliz como passamos o filme inteiro desejando.
Não há lugar como o lar
Wicked: Parte 2, é claro, é uma adaptação de um musical teatral para o cinema, e com isso vem vários desafios relacionados à adaptação de duas linguagens totalmente diferentes.
No início, a separação da história em dois filmes diferentes gerou desconfiança, uma vez que a peça original possui uma duração que caberia tranquilamente em um filme (longo, mais ainda assim: em que consiste um filme longo em tempos de longas da Marvel com quase três horas de duração?), mas a decisão se mostrou acertada, e o segundo filme segue os passos do primeiro ao se permitir mais tempo para explorar nuances da história que não são vistas no teatro.
Flashbacks, músicas inéditas e um ritmo que se permite respirar ao construir os personagens, suas relações e dilemas são, afinal, recursos que funcionam muito bem nos cinemas, e em nenhum momento passam a sensação de fillers que não agregam substância ao longa.
Wicked: Parte 2 conclui a saga de Glinda e Elphaba com os ares épicos que as duas protagonistas e seus fãs mereciam presenciar nos cinemas, e (espera-se), cria um excelente precedente a respeito da adaptação de musicais da Broadway para as telas e seu potencial de alcançar muito mais pessoas para, quem sabe, popularizar essa cultura no Brasil e no mundo.
Seria muito ousado sonhar com uma adaptação à altura de Hamilton? Eu espero que não.



