
Não é exagerado afirmar que o terror passa por uma crise. O gênero, que já não é dos mais respeitados pelo público e pela indústria do cinema, de uns anos pra cá passou a enfrentar um novo monstro fora das telas: o tal do pós-terror. Do dia pra noite, milhares de entendidos passaram a categorizar o cinema de horror entre duas vertentes: a primeira, cringe e antiquada, é aquela que compreende os clássicos artifícios do gênero, como jumpscares, slashers e ameaças sobrenaturais. A segunda, de que é permitido gostar, é carregada por grifes como a da produtora A24 e só permite que o horror se instaure sob um forte compromisso ético, com personagens de passado detalhado e traumas que justificam cada uma de suas ações.
Em momentos como esse, alheio às exigências do ocidente, o terror japonês representa um merecido alívio a quem não busca um cinema que pede desculpas por existir a todo instante. Dollhouse, filme dirigido por Shinobu Yaguchi, vem pra nos contar mais uma história de boneca amaldiçoada, e não tem vergonha nenhuma disso.
Dollhouse: nem sempre é preciso reinventar a roda em um filme
Dollhouse conta a história de Kae (Masami Nagasawa), uma mãe que vive um período de luto intenso após perder sua filha de cinco anos em um acidente doméstico. O luto de Kae só começa a se atenuar quando ela volta pra casa com uma boneca em tamanho real e muito parecida com sua filha. Kae corta o cabelo da boneca, a limpa, veste roupas novas e passa a tratá-la como se fosse sua filha. Tadahiko (Koji Seto), marido de Kae, de início vê a situação com desconfiança, mas começa a aceitar melhor depois que percebe que a boneca está fazendo bem para a recuperação de sua esposa. As coisas começam a se complicar quando o casal engravida novamente e, pouco a pouco, Kae deixa a boneca de lado para dar atenção à sua filha de carne e osso.
O que se segue é uma jornada pelo sobrenatural que perde pouco tempo lidando com o ceticismo dos personagens. Logo, todos estão convencidos de que os problemas enfrentados pela família se devem à presença da boneca, e se inicia o esforço para tentar vencer a ameaça sobrenatural que se impõe.
Explorando outros gêneros
Dollhouse é um filme que não se furta de utilizar o humor quando necessário e, por mais contraditório que isso pareça, este é um recurso que acaba potencializando a tensão nos momentos mais assustadores. O ótimo timing cômico de alguns personagens e situações, com destaque para Kanda (Tetsushi Tanaka) – uma espécie de Van Helsing das bonecas possuídas – serve para abaixar a guarda da audiência, e consequentemente aumentar o impacto dos momentos mais tensos. Vem deste personagem o papel obrigatório de levar o casal protagonista à jornada em que conhecerão a história da boneca assassina que os persegue, o que acaba sendo uma excelente escolha para não deixar o ritmo do filme diminuir já depois da metade.
O uso da boneca nas cenas assustadoras também é muito equilibrado: sua influência sob os personagens vai desde pensamentos destrutivos, até dano psicológico e até mesmo físico, sem nunca se repetir ou exigir demais da boa-fé de quem assiste. A fisicalidade obviamente vem, mas não sem obedecer uma escalada de tensão que, por mais que um pouco burocrática, funciona muito bem para não afastar o público da premissa logo no começo do filme.
O resultado é um filme muito seguro de si, que sabe utilizar o clichê a seu favor: por mais que não tente reinventar o gênero, é muito capaz de utilizar as convenções do terror, também da comédia e da ação para entregar uma história que segue interessante pelas quase duas horas de projeção, sem se deixar levar pela armadilha de precisar ser mais do que é. Às vezes, é disso que nós precisamos.
Confira o trailer de Dollhouse a seguir, e assista ao filme nos cinemas, dia 6 de novembro.



