
No começo dos anos 2000, Hollywood nos impôs o pouquíssimo criativo conceito das releituras de clássicos infantis e contos de fadas. Versões cool de velhos conhecidos de muitas infâncias, como Oz – Mágico e Poderoso e João e Maria – Caçadores de Bruxas começaram a infestar as salas dos cinemas como se todos tivéssemos pedido por isso. Depois, os inúmeros live-actions da Disney ajudaram a sacramentar o conto de fadas live-action como um dos piores subgêneros do cinema moderno.
Não à toa, há duas semanas eu jamais imaginaria que uma releitura de terror da Cinderela teria alguma qualidade, algo a dizer ou perspectiva para agregar. Eu estava errado.
Precisamos de mais uma Cinderela?
Talvez o grande trunfo de A Meia-Irmã Feia seja não ser estadunidense. Não que o cinema dos Estados Unidos seja ruim. O país dono dos maiores estúdios, maiores investimentos e maiores possibilidades no audiovisual produz um cinema de extrema qualidade, mas nem sempre essa qualidade se reflete nas primeiras camadas do mainstream. Já faz muito tempo que eu não assisto algum dos remakes live-action da Disney, e eu tenho certeza de que não estou perdendo nada. Há um certo vício na maneira com que Hollywood trata seus remakes que faz com que até os mais disruptivos sejam limitados pelos mesmos vícios de linguagem e medo de rejeição do público. A Meia-Irmã Feia, produção norueguesa, naturalmente não precisa padecer dessas mesmas limitações.
Dirigido por Emilie Kristine Blichfeldt, o filme decide contar a já conhecida história sob o ponto de vista da meia-irmã de Agnes (Thea Sofie Loch Næss, interpretando uma versão muito interessante da Cinderela que conhecemos), Elvira (Lea Myren), uma jovem descrita por sua própria mãe como feia, gorda e sem talentos. Os conflitos começam quando todas as jovens do reino são convidadas para um baile onde o príncipe irá escolher sua noiva, e a mãe de Elvira vê na jovem a possibilidade de dar um novo golpe do baú.
O grande trunfo de A Meia-Irmã Feia é como ele engana o espectador ao fingir se tratar de uma história distante, um mero conto de fadas com um toque de terror e cinismo, como as audiências contemporâneas estão tão habituadas. Na verdade, os assuntos tratados pelo filme são muito atuais.
Por meio de procedimentos cirúrgicos dolorosos e estratégias para emagrecer que até seriam absurdas demais se não fossem utilizadas na vida real (sem muito spoiler: engolir um ovo de tênia pra poder comer à vontade ainda é um método utilizado, sendo possível até mesmo achá-los à venda na internet); Elvira vai tendo seu corpo e espírito quebrados e reconstruídos, transformando a jovem sonhadora de outrora em uma pessoa cheia de traumas e nenhum escrúpulo para alcançar aquilo que ela acha merecer.
Mais atual do que deveria
As personagens, inclusive, são outro ponto forte da obra: todas muito reais, com seus defeitos à mostra e sem maniqueísmo. Esqueça a Cinderela inocente de outrora: Agnes se acha superior a todos à sua volta, e deixa isso bem claro pra quem quiser ouvir; mas isso não faz com que ela deixe de ser uma jovem que se vê sozinha no mundo após se tornar uma órfã de pai e mãe explorada pela madrasta e pela irmã postiça. O típico cinismo estadunidense, viciado em transformar todos os personagens em pessoas horríveis, sem nenhum traço positivo ou motivação justa, passa longe de seduzir o texto deste conto de fadas moderno.
Emilie Kristine Blichfeldt também acerta ao impedir que seu longa padeça do moralismo que se tornou regra no cinema comercial. A Meia-Irmã Feia é um body horror, gênero do horror em que o maior monstro a ser superado é o próprio corpo humano. Sendo assim, o filme não se furta da nudez, do sexo, do sangue e das vísceras necessárias para transmitir sua mensagem.
Emilie também não tem medo de fazer dos homens os principais algozes de suas protagonistas: de cabeça, só consigo lembrar de uma representação masculina positiva em cena, entre tantos homens que permeiam a história de Elvira e Agnes.
No fim das contas, tudo de negativo a que as protagonistas se sujeitam, o fazem para agradar um homem e a sociedade patriarcal que as cerca. O verdadeiro horror é constatar que pouco mudou.
A Meia-Irmã Feia estreia hoje, dia 23 de outubro, nos cinemas brasileiros.



