
Na última semana, estreou nos cinemas de todo o Brasil o aguardado thriller de Justin Tipping, estrelado por Marlan Wayans e produzido por Jordan Peele: GOAT.
Goat, sigla em inglês para “Greatest of All Time”, segue os passos do jovem quarterback Cameron “Cam” Cade (Tyriq Withers), em sua busca pela grandeza sob a orientação do astro Isaiah White, papel de Marlon Wayans.
À medida que o treinamento avança e se intensifica, o comportamento de Isaiah se mostra cada vez mais sombrio, levando Cade a extremos que podem lhe custar a vida.
Apesar do longa ser dirigido por Justin Tipping, o “selo Jordan Peele” funciona como uma forma de “apadrinhamento”. Isto indica a ideia de que o filme contaria com elementos e qualidade característicos dos seus filmes.
GOAT é um termo esportivo, frequente utilizado para referir-se aos melhores jogadores, aqueles que têm maior destaque. E o filme reflete sobre a necessidade de se obter glória, fama e reconhecimento no meio esportivo, tendo como pano de fundo para a trama o futebol americano.
Sem sacrifício, pode haver glória? O que é preciso para se tornar o maior jogador de todos? O que você está disposto a abrir mão? Questiona-se se vale tudo pela grandeza.
A trama aborda temas como a masculinidade tóxica, a romantização do sacrifício pela glória, fanatismo e a busca pela fama. Os temas são abordados a partir do pano de fundo do futebol americano. E como o esporte vem se tornando cada vez mais popular entre os brasileiros, isso facilita o entendimento das dinâmicas do jogo apresentadas.
A forma como o filme trabalha a dualidade entre verdade e ilusão, utilizando até mesmo um sofisticado jogo de luz e sombras e o contraste de cores, torna a trama altamente envolvente. O espectador se questiona a todo momento sobre o que assiste na tela. Há sempre uma sombra de dúvida: é uma alucinação induzida por dano cerebral e substâncias ou algo mais sinistro está acontecendo por trás de tudo?
O filme adentra de forma intensa problemas reais da indústria do entretenimento e dos astros de futebol: o risco constante e eminente de lesões, o glamour e a glória associados ao destaque no esporte, os custos da fama e a necessidade de se alcançar a excelência. A busca obsessiva por ser mais, sempre mais.
Goat é dividido em capítulos, uma escolha criativa que gera curiosidade e favorece a atmosfera pesada e os momentos de tensão de cada um deles. O espectador aguarda sempre o desfecho do capítulo e espera o próximo, até que, por fim, resulte nos eventos do último dia.
Os protagonistas Cade e Isaiah são personagens que despertam interesse, revelando-se cada vez mais complexos em suas características e motivações ao longo da narrativa. Marlon Wayans interpreta um Isaiah que supera expectativas, mostrando-se brilhante, sombrio e imprevisível, inserido na sua própria loucura e nas suas ambições de perfeição.
Entretanto, enquanto Cade e Isiah são apresentados e desenvolvidos de forma impecável, o mesmo não ocorre com outras personagens. Elsie (Julia Fox), por exemplo, é apresentada de forma superficial, sem que suas motivações e aspirações sejam devidamente exploradas, assim como personagens que são apresentados pouco antes do fim do filme ou o irmão de Cade, brevemente apresentado no início do filme. Assim, é difícil identificar-se ou interessar-se pelas personagens secundárias da trama.
Apesar de ser um thriller altamente envolvente, Goat deixa algumas pontas soltas que “esquece” de solucionar. O longa deixa no ar determinadas perguntas e sub-tramas que não são contempladas na sua conclusão. Neste caso específico, as respostas poderiam ser melhor trabalhadas para agregar ao desfecho da narrativa. Goat explora propõe diversas reflexões, mas aprofunda-se apenas em parte delas.
Assim, embora seja perfeitamente entendível a comparação com a obra de Jordan Peele, o filme não tem o mesmo impacto no que diz respeito à profundidade das reflexões sociais propostas e ao desenvolvimento de personagens e narrativa.
Goat é impactante, intenso e apresenta questões importantes, integrando de forma impecável o suspense à narrativa crítica voltada para as dinâmicas do mundo dos esportes, sobretudo do futebol americano, e do lado sombrio da fama.
Embora seja um thriller imersivo com ideias originais, protagonistas carismáticos e um olhar inovador sobre esportes, celebridades e glorificação da busca pela excelência, deixa espaço para maior aprofundamento de tramas e de personagens secundários.



