
Pedro Emílio (Foto por Alexandre Tofolli)
Indicado ao Grammy Latino ao lado de obras com potencial para se tornar clássicos da música do Brasil e do continente, como Caju, de Liniker, por exemplo, o álbum Enquanto os Distraídos Amam, do baiano Pedro Emílio, marca uma estreia em grande estilo do artista.
Concorrendo na categoria “Melhor Engenharia de Gravação”, o disco, produzido por Matheus Stiirmer, é definido como “algo muito natural” para o cantor.
“Inicialmente, ele nasce sem a proposta de ser um disco, nasce sem um nome e nasce de uma amizade. Foi de uma maneira muito natural.”
Com raízes na música de igreja, Pedro tem uma maneira muito singular de enxergar a arte e as canções.
“Hoje tenho esse olhar de criar coisas e inventar coisas, de saber louvar a arte, tem muito disso e acho que tá tudo meio interligado. As sensações melódicas que a música dá é um pouco sobrenatural, né? A gente sai do nosso estado natural e acessa outros sentimentos. Isso tem tudo a ver com a igreja”
Uma outra característica que veio dessa fase é ser capaz de escrever canções que possam ser entendidas de uma forma fácil, sem muito rodeio.
“Quando você é criado na igreja, você também aprende [a analisar] ‘deixa eu ver o que está sendo cantado aqui’, então sou dessa escola de tentar escrever canções que todo mundo entenda. Para mim, é um êxito minha avó ou minha irmã de quinze anos entender e gostar”
E pelo jeito funcionou. Para além da indicação ao Grammy, o disco já acumula um milhão de plays em cerca de quatro meses nas plataformas. O artista recorda que tinha 240 ouvintes no Spotify pouco antes do lançamento e do boom que veio com o álbum.
“Esse é o nível de grandeza… tô muito feliz! Acho que, por conta dos plays, pode ser que as pessoas tenham entendido sim o que eu quis passar. Recebo comentários e críticas positivas sobre o disco de pessoas que admiro muito e que nem imaginava que receberia. É um disco que eu tenho certeza que ainda vai me dar muitas alegrias e quanto mais pessoas ele alcançar, melhor! A gente tá no começo disso tudo, tô feliz com um milhão, obviamente, mas tô pronto pra mais e vou trabalhar para mais.”

Musicult entrevista: Pedro Emílio
Danilo: Você começou sua história na música ainda na Bahia, o estado onde você nasceu, cantando na igreja aos seis anos. De que forma essa experiência te marcou e te moldou para ser um artista hoje?
Pedro Emílio: Cara, recentemente estava vendo uma entrevista do Cupertino, d’Os Garotin, falando sobre isso, parece que ele tem uma história na igreja e tal e fala dessa coisa da música da igreja ser uma atração para quem sonha em ter e tocar um instrumento. No meu caso, eu tenho uma criação na igreja também e me descubro cantor e criativo lá dentro, a arte como um todo é colocada na minha vida através da igreja, então é impossível falar que isso não afeta toda a minha trajetória musical a partir dali. Hoje tenho esse olhar de criar e inventar coisas, de saber louvar a arte, tem muito disso e acho que tá tudo meio interligado. As sensações melódicas que a música dá é um pouco sobrenatural, né? A gente sai do nosso estado natural e acessa outros sentimentos. Isso tem tudo a ver com a igreja.
Danilo: A partir da adolescência, você deixa de ser somente um intérprete e passa a compor também. O que você buscava retratar nessas canções em uma fase em que era tão jovem?
Pedro Emílio: Era muito sobre o que eu vivia na época. Tinha canções de paixão, porque estava apaixonadinho numa garota e tal, tinha canções tristes, canções felizes… esse primeiro momento da vida de um compositor é muito sobre erros, são raras as exceções que você tem uma composição genial nessa fase. Para me tornar um compositor, foram degraus importantes entender o jogo de palavras, prosódia, analogias, como falar a mesma coisa de maneiras diferentes… acho que foi por aí, na minha adolescência eu fui aprendendo a fazer isso de diversas formas e sobre diversos assuntos.
Danilo: Aí a gente chega no seu primeiro ponto de virada, digamos assim, que foi o período de isolamento social, em 2020. Você começou um desafio de gravar um cover por dia nas redes sociais e acumulou mais de 200 vídeos. Como isso influenciou na sua confiança de colocar a cara na internet e expor sua arte e também no seu modo de apresentar?
Pedro Emílio: Eu achava que a pandemia ia durar umas três semanas. Acho que a minha vontade de gravar um cover por dia passava pelo tédio, morava sozinho na época e tal, então, acho que esse início foi mais por esse ímpeto criativo de pensar “preciso expor isso e me colocar na internet de novo”, porque o meu Instagram ficava entre os meus amigos, era fechado e tinha uns 1400 seguidores. Pensei: “Ah, por que não?” e comecei.
A galera começou a gostar e foi depois do segundo ou terceiro [vídeo] que postei que dei o desafio publicamente. Alguns começaram a viralizar e eu estava postando muito cover, tanto que no meu canal do YouTube tem um vídeo que é um compilado de uma hora e meia do que eu cantei. Foi o que me ajudou a pisar pela primeira vez fora da bolha do meu algoritmo e chegou muita gente de uma hora para outra com esses covers, mas depois, lá na frente, foi o calcanhar de Aquiles para tentar migrar para o autoral, que é o desafio de todo mundo que começa no cover…
Danilo: E falando justamente do autoral, como e quando o álbum surgiu?
Pedro Emílio: Inicialmente, esse disco nasce sem a proposta de ser um disco, nasce sem um nome e nasce de uma amizade. Foi de uma maneira muito natural. Lembro que a primeira sessão que eu fiz com Matheus [Stiirmer, produtor do álbum], foi no final de 2023, mas eu já estava compondo “Sonhava Com a Gente”, que é a última na ordem do disco. Existe um bloco de notas gigantesco que todas as músicas do disco passam e isso é muito importante para a concepção desse disco.
Quando entro com o Mateus, a gente colhe diversas referências e muitas pessoas já vieram me perguntar “qual é o seu estilo musical?”, acho que tem essa pluralidade porque o disco não bebe de fontes apenas musicais, mas ele também bebe de fontes visuais, momentos, timbres, relacionamentos… então, é difícil falar de referências musicais. Consigo citar sessões que a gente foi ouvir Tierry e Léo Santana e outras sessões que a gente foi ouvir Djavan, entendeu? A minha resposta para isso é uma outra pergunta: Qual é o estilo para você? Me coloca em um estilo? Acho que é mais fácil do que eu.
Danilo: Uma indicação ao Grammy Latino no disco de estreia feito de forma independente é uma baita conquista, né? Como você recebeu essa notícia e o que você sentiu?
Pedro Emílio: Antes de lançar, eu tinha 240 ouvintes mensais, então a expectativa era que várias músicas não batessem nem mil plays, porque é a realidade de uma camada da música brasileira. A expectativa em relação a qualquer premiação ou qualquer conquista era baixíssima, eu só queria estar feliz com esse lançamento e não queria lançar de qualquer jeito. Então foi inesperado, fiquei muito feliz também com a indicação do Matheus para produtor do ano e pelo disco ser um dos trabalhos mencionados para essa indicação dele, isso representa que o disco não é só meu e não necessariamente só o Pedro Emílio é o vencedor. Não tem como não ficar assustadoramente feliz e grato com essa indicação ao Grammy.
Danilo: Sonoramente, o álbum é uma fusão de várias referências, como o pop, o indie, o R&B e alguns elementos da MPB. Como você trabalhou para misturar essas influências ao mesmo tempo em que também trazia sua própria identidade e originalidade artística?
Pedro Emílio: Boa pergunta. E aí, voltando pro começo, quando você é criado na igreja, você também aprende [a analisar] “deixa eu ver o que está sendo cantado aqui”, então sou dessa escola de tentar escrever canções que todo mundo entenda. Para mim, é um êxito minha avó ou minha irmã de quinze anos entender e gostar. Como você enxerga esse disco? O gênero que você quer colocar lá, estará lá, entendeu? Se você quiser colocar no forró, fique à vontade. Não me sinto desconfortável nesse lugar, desde que seja único, marcante e transforme de alguma maneira algo que exista dentro desse ouvinte, tá valendo.
Danilo: Já nos feats, foram apenas dois, mas que são nomes conhecidos da cena: Mestrinho e Paulo Novaes. De que forma eles se encaixam nessa sua proposta do álbum?
Pedro Emílio: Paulo é um compositor também premiado e que sempre me chamou a atenção pela maneira como ele pensa a composição, isso me atraía muito nele. E o interessante é que através do Paulo que eu conheço o Mestrinho, tudo isso meio que se interliga. Sobre o Mestrinho, não tem nem o que falar de um Deus, ele é uma entidade! Qualquer pessoa que passa pela sanfona do Mestrinho sai diferente e repensa “música é isso aí, não é isso que eu tô fazendo”. Com o Mestrinho eu compus “corta pra vc”, que também é escrita com uma menina de quinze anos, a minha irmã mais nova, queria trazer esse olhar dela para a composição.
Danilo: Além da conquista de ser indicado ao Grammy Latino, o álbum também está indo bem nas plataformas, né? Já são quase um milhão de plays em poucos meses lá no Spotify. Como você enxerga a recepção crítica e do público? Eles entenderam o disco?
Pedro Emílio: Vou te corrigir, porque passou um milhão [de plays] no dia 24 (risos). Foi antes dos quatro meses, esse é o nível de grandeza… tô muito feliz! Respondendo a sua pergunta, acho que por conta dos plays, pode ser que as pessoas tenham entendido sim o que eu quis passar. Recebo comentários e críticas positivas sobre o disco de pessoas que admiro muito e que nem imaginava que receberia. É um disco que eu tenho certeza que ainda vai me dar muitas alegrias e quanto mais pessoas ele alcançar, melhor! A gente tá no começo disso tudo, tô feliz com um milhão, obviamente, mas tô pronto pra mais e vou trabalhar para mais.
Danilo: O disco de estreia geralmente é como uma porta de entrada e a partir dele você sabe mais ou menos qual caminho seguir ou evitar. O que você tem pensado para o futuro? Curtiu a ideia de estar em estúdio gravando?
Pedro Emílio: Cara, é uma coisa que eu conversei com o selo. Uma frase que gosto sempre de falar é “não se preocupem, eu nunca vou parar de fazer música”, porque fazer música não é sobre lançar coisas todo ano, não é sobre ter sempre o melhor lançamento… fazer música é algo que me deixa vivo.
Então, independente se eu vivo disso ou não, se eu ganho dinheiro com isso ou não, se eu ganho conquistas com isso ou não, se eu voltar aos 240 ouvintes mensais, não me importa, não vou parar de fazer.
A gente já tem coisas no forno e estamos cozinhando para lançar isso também de uma maneira legal, então, podem esperar novos lançamentos ainda esse ano e que eu acredito que estão iguais ou até melhores ao que eu acreditava no disco. Se você gostou do disco, vamos continuar nessa linha. E é isso, é o que eu posso dizer até agora.
Danilo: Por fim, se você pudesse conversar com sua própria versão adolescente, aquele Pedro Emílio que compôs a sua primeira música aos 13 anos, como você contaria para ele tudo o que está acontecendo em sua vida agora?
Pedro Emílio: Acho que falaria pra ele continuar enxergando a vida desse mesmo jeito e criando desse mesmo jeito, com esse mesmo ímpeto e ambição. De certa forma, a vida vai acontecendo, o caminho vai se fazendo e as coisas vão mudar, mas que a maneira como você crie não mude. Acho que nem falaria que ele vai ser indicado ao Grammy, talvez atrapalhasse. Eu falaria “faça com ambição, com vontade, com amor, com dedicação, com frescor”… tentaria colocar isso na cabeça dele com mais ainda força, hoje eu tenho isso na minha cabeça, mas naquela época não tinha. Não liga tanto para o que vai acontecer no futuro, continua fazendo no agora e de uma maneira nova sempre.
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