
Lucas Callut (Divulgação)
Com um título que carrega a força de uma epifania, Já que sou, o jeito é ser marca a estreia de Lucas Calutt em um disco completo (e profundamente pessoal). Nessa imersão sonora, o artista da nova geração da MPB costura memórias, fragilidades e descobertas, usando a música como ferramenta de reconstrução e acolhimento.
Inspirado por A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, Lucas Calutt transforma a icônica frase de Macabea em mantra e matéria-prima para uma obra que é, antes de tudo, um encontro consigo mesmo.
Ao longo das 12 faixas, o ouvinte percorre, junto com o artista, caminhos de dor e redenção, entre traços do rock brasileiro e a sensibilidade melódica da MPB clássica. Em entrevista, Lucas Calutt fala sobre os bastidores do álbum. Confira a seguir.
Você transforma uma frase da personagem Macabea em título e canção do disco. Você se lembra de como foi ler A Hora da Estrela pela primeira vez? E por que essa escolha?
A 1ª vez que li A hora da estrela, eu tinha 13 anos. Estava passando por um momento conflituoso, que é aquele de você ser mais “infantil” que seus amigos também adolescentes que já queriam fazer “coisas de adulto”. Então eu tive muitos problemas de amizades e, principalmente, autoestima.
Eu era uma criança com obesidade, tinha uma realidade econômica diferente dos meus colegas de escola. Eu morava no bairro em que as funcionárias das casas deles moravam. Além disso, nunca fui o maior exemplo dessa masculinidade padrão, viril. Sempre fui sensível, emotivo… Então sofria muito bullying, me sentia menos gente que as demais pessoas, assim como a Macabea. Me vi nela.
Anos mais tarde, já adulto e professor, em plena pandemia, li novamente a obra e assisti ao musical “O canto de Macabéa”, de Laila Garin e Chico César. Tanto na leitura quanto assistindo ao musical, a frase apareceu e me chamou a atenção como não havia chamado das primeiras vezes que li. E aí está o barato da arte, quando você revisita, seja um livro, um filme, uma música, eles podem ganhar um novo sentido, porque você também já não é mais a mesma pessoa.
Quando “já que sou, o jeito é ser” apareceu para mim, eu estava pensando sobre lançar meu 1º single, “Queria ter uma bicicleta” (2021), e ali foi a certeza de que eu tinha de assumir que sou artista e não dava mais para fugir disso. Foi uma virada de chave necessária.
Em várias faixas do disco, você explora o passado e a infância como fonte de reconexão. Que memórias específicas mais te influenciaram na composição desse trabalho?
Esse trabalho retrata o meu renascimento a partir da arte. Tive um episódio depressivo sério e tentei tirar minha vida entre 2017 e 2018. Não deu certo (que bom, rs.). Numa viagem para Buenos Aires, cidade em que a arte é pulsante, vi tudo aquilo acontecendo e pensei: seria uma pena se eu não estivesse aqui.
Voltei para o Brasil decidido a voltar a estudar música, teatro e dança. A arte sempre foi meu maior amor, apesar de eu atuar nas áreas da comunicação e educação. Neste processo, precisei me voltar às origens, entender de onde eu vim e fazer as pazes com isso. Daí nasceu a canção “24 de junho”, resultado de um caminho que percorri na psicanálise, de olhar para o passado para entender o presente e conseguir mudar o futuro.
Então, o álbum abre com “Fênix”, que é o momento do meu “renascimento”, na sequência vem “24 de junho”, marcando essa trajetória de cura e de reconexão, para então vir “Contra tudo e contra todos”, que é a emancipação do ser, a coragem de ser quem se é, mesmo sendo “Emocionado”, assumindo ser “A cigarra e a formiga”, afinal, “Já que sou, o jeito é ser”.

A mistura entre MPB e rock é um ponto marcante não só do álbum, mas de toda sua carreira. Quais artistas ou discos te influenciaram especialmente neste álbum?
Rita Lee, com “Fruto Proibido”, e Cazuza, com “Ideologia” foram minhas maiores influências melódicas. Aliás, os dois tinham 27 anos quando lançaram os respectivos álbuns. Eu tinha 27 quando comecei a compor as canções que entraram no meu álbum.
“Contra tudo e contra todos” tem a harmonia inspirada em “Esse tal de rock ‘n roll”, da Rita e do Roberto, como uma forma de homenageá-los (inclusive, mostrei a música ao Roberto de Carvalho e falei que me inspirei neles. Ele disse que é um musicão, e essa era a bênção que eu precisava).
A coragem de Rita sempre me inspirou e a facilidade de ela transitar entre o rock e a MPB, assim como o Cazuza, “meio bossa nova e rock ‘n roll”, mostraram que eu não precisava me limitar.
Eu gosto do lance mais voz e violão, músicas mais emotivas e intimistas, mas eu também sou um performer e o rock me permite incendiar o palco. Graças a esses dois artistas, principalmente, vi que é super possível manter essa versatilidade.
Ah, e um fun fact sobre as referências é que o Cazuza era muito fã da Clarice Lispector. Descobri isso com uma matéria da Folha, se não me engano, na semana que o álbum foi lançado. Era como se o universo e essas minhas 3 referências estivessem todos interligados.
Eu estive com a mãe dele, a Lucinha, no lançamento do documentário Cazuza: Boas Novas” e ela disse que o livro preferido dele era Água viva, meu segundo livro preferido, perdendo só para A hora da estrela. Ele colocava um ponto na última página a cada vez que lia. Ela disse que ele chegou a ler 127 vezes e pirava. Conversamos brevemente sobre a influência de Cazuza e Clarice no meu álbum. Foi especial demais.
Rita também gostava de Clarice, chegou a citá-la em tweets e na canção “Todas as mulheres do mundo”. Enfim, grandes ícones servindo de inspiração entre si e para mim.
Você fala sobre abraçar partes não tão “brilhantes” de si. Como foi emocionalmente o processo de transformar essas vulnerabilidades em música?
Foi libertador. Tirei dores do peito, concretizei, olhei para elas e pude entender que eu não era essas dores. E quando dói, elas me ajudam a lembrar o tanto que avancei e isso me dá muita força. A música tem seus poderes e mistérios.
É difícil escolher entre as criações, mas qual das músicas do disco você sente que mais te representa neste momento?
Por muito tempo foi “Contra tudo e contra todos”, mas agora que estou no corre de fazer o álbum chegar nas pessoas, que preciso captar grana para fazer shows e levar meu nome adiante, “A cigarra e a formiga” está mais latente. É muito difícil viver nessa jornada dupla, tripla, de ter de lidar com outras profissões e demandas (que tomam muito tempo e energia), quando eu queria estar cuidando e produzindo música. Inclusive, estou aceitando patrocinadores, rs.
Ouça o novo álbum do Lucas Calutt na sua plataforma favorita e siga o artista nas redes sociais.




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