
Alice Cooper no Best of Blues (Créditos: Matheus Paiva)
Mesmo com uma frente fria que tomou conta de São Paulo, o segundo final de semana do festival Best of Blues and Rock começou animado e terminou com Alice Cooper como headliner.
A relação entre o metal (ou o blues do nome do festival) e Charlie Brown Jr. pode não ser das mais diretas, mas o público já ocupava metade do espaço do festival no Parque do Ibirapuera para assistir aos remanescentes originais da banda santista, Marcão Britto e Thiago Castanho. Com pontualidade exemplar, a banda, acompanhada de novos músicos, iniciou sua apresentação às 16h para tentar amenizar o vento gelado que se manteria presente durante toda a noite.
O público era diverso: jovens com olhos pintados e vestimentas de heavy metal aguardando Alice Cooper, mulheres acompanhando maridos entusiastas de Harley-Davidson, frequentadores curiosos ainda incertos sobre o que viriam a presenciar… Todos, no entanto, cantaram, e muito. Dos fãs mais apaixonados que gritavam os clássicos da banda, até os que apenas cantarolavam os refrões. Se a popularidade de um show se mede pelo reconhecimento do setlist e vozes cantando junto, o Charlie Brown Jr. certamente dominou não só o dia, mas talvez todo o festival.



Nos intervalos, o público explorava as ativações espalhadas pelo parque, com foco na história e marca do festival e nas marcas patrocinadoras. As experiências eram visualmente marcadas pela cor azul predominante e referências aos grandes nomes que já passaram pelo evento. Já os altos preços de comida, bebida e merchandising reforçaram um padrão que se tornou comum nos festivais da capital.
A segunda apresentação da noite foi Larissa Liveir, revelação da internet, que migrou de criadora de conteúdo e vídeos de sucesso no YouTube para seu primeiro grande palco. Com um repertório de clássicos do rock, a jovem guitarrista apresentou um show com carisma e emoção pela sua apresentação, demonstrando estar pronta para essa transição das telas para o ao vivo e contou com a participação de Nita Strauss em uma das músicas.



Alice Cooper participou de uma coletiva durante o Best of Blues
No intervalo do show, tivemos o primeiro contato com Alice Cooper, que participou de uma breve coletiva com a imprensa para falar sobre sua carreira, a turnê atual, sua oitava passagem pelo Brasil e as curiosidades recorrentes nas entrevistas. Vincent Furnier chegou animado, com suas tradicionais roupas pretas, mas sem os adereços e maquiagens do seu alter-ego.

Sorridente e bem-humorado, conversou com repórteres sobre a reunião de sua banda original, que não se apresentava desde as primeiras turnês. Mesmo após tantos anos, ainda mantêm um bom ambiente para criar músicas, fazer shows e conviver em harmonia.
Questionado sobre influências brasileiras, comentou com entusiasmo que o disco Wave, de Tom Jobim, tem lugar especial em seu coração, por ter sido a trilha sonora de sua lua de mel nos anos 1970. Com a recente passagem de Brian Wilson no início de junho, Alice Cooper destacou a genialidade do músico dos Beach Boys, especialmente pela facilidade com que criava músicas simples e marcantes, um dom que o tornava um dos artistas mais completos da história, equiparando com os Beatles.
Ainda houve tempo para relembrar sua primeira apresentação no Brasil, em 1974, show que na época bateu o recorde de maior público em ambiente fechado, com impressionantes 158 mil pessoas. Com certeza o show que colocou o país na rota de grandes turnês que viriam a seguir, como Kiss, Queen e o histórico Rock in Rio de 1985.
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De volta aos palcos…
De volta à programação do festival, Black Pantera teve a missão de anteceder Alice Cooper. Em um dia até então apolítico e neutro, os mineiros fizeram questão de lembrar a todos que o rock sempre foi político, e que questões de raça e gênero são centrais em sua essência contestadora. A banda, em ascensão e presente em grandes line-ups dos últimos anos, ainda causa surpresa em parte do público desavisado ou indeciso, mas se destaca entre os fãs fiéis, cujas camisetas com frases “fogo nos racistas” se sobressaíam no mar de fãs de Alice Cooper.



Mantendo a pontualidade, às 20h30 Alice Cooper e sua banda subiram ao palco do Best of Blues já soltando os primeiros sucessos para aquecer os mais de 10 mil presentes no frio do Ibirapuera.
O show da turnê Too Close for Comfort começou com “Lock Me Up” e “Welcome to the Show”, do disco mais recente, preparando a plateia para hits como “No More Mr. Nice Guy” e “I’m Eighteen”. Dividido entre apresentação musical e performance teatral, Alice Cooper não economizou na encenação.
Luzes dramáticas reforçavam os cenários e figurinos, e os atos contavam com participações cênicas, como uma fã que invade o palco ou o fotógrafo sem noção durante “Hey Stoopid”.
Em “Ballad of Dwight Fry”, o vocalista surge com camisa de força e iluminação especial, seguido pela clássica guilhotina que “decapita” Alice em “Killer” e “I Love the Dead”, com participação de sua esposa no palco em trajes renascentistas.
O show caminhava para o fim quando a icônica cartola apareceu para anunciar “School’s Out”, emendada com uma bela versão de “Another Brick in the Wall”. Em cerca de 90 minutos, Alice e sua banda mostraram experiência e cuidado com a performance e com a audiência, dos que conhecem cada detalhe do setlist aos que apenas queriam curtir o sábado no parque.
Além da presença magnética de Alice, a banda mostrou precisão e talento. Com três guitarras, Tommy Henriksen na base, Nita Strauss brilhando nos solos e Ryan Roxie, o baixo de Chuck Garric e a bateria de Glen Sobel sustentaram a apresentação com perfeição.
Cinquenta e um anos após sua primeira passagem por São Paulo, Alice Cooper, agora com a disciplina de um atleta e longe dos vícios que já o dominaram, não apenas mantém uma excelente performance como entrega tudo o que o público deseja. Sem dúvida, uma das melhores apresentações desta edição, da história do festival e também das vindas de Alice ao Brasil.





Fotos e texto por @matheusp




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