
Helmet (Créditos: @sdanielsilvaphotography)
Na noite do dia 30 de abril de 2025, o Carioca Club foi transformado em uma cápsula do tempo barulhenta e reverberante. Era mais do que um show: era uma celebração com cheiro de história, suor e distorção. Sob a batuta das produtoras Powerline Music & Books e Venus Concerts, a lendária banda nova-iorquina Helmet aterrissou em São Paulo mais uma vez, dois anos após sua passagem pelo Oxigênio Fest de 2022, com uma missão clara: comemorar os 30 anos de Betty, seu terceiro e mais ousado álbum, tocando-o na íntegra para uma plateia que aguardava ansiosa pela volta do grupo.
Antes, porém, duas bandas brasileiras – Treva e Debrix – abriram a festa e mostraram que ainda há muito som de qualidade sendo produzido por aqui.

A Treva foi a primeira a subir ao palco, cumprindo pontualmente os horários (característica marcante dos eventos da Powerline) e trouxe consigo uma atmosfera carregada de angústia, melodia e catarse. Com um som que mistura a melancolia do blues e o peso do punk rock, a banda entregou uma apresentação que mais parecia uma descarga elétrica emocional. Músicas como “Onde Morre o Sol”, “Renasce em Dor” e “O Passado Que se Tem” fizeram parte do setlist.

Durante a apresentação, que foi breve, mas marcante, o vocalista Felipe Ribeiro conversava com o público, comentando do profundo significado de cada uma das músicas. A intensidade falava por si e mais uma vez, a Treva entregou mais um grande show, com uma estética que lembra cada vez mais bandas como os americanos do Social Distortion, mas com um “tempero” tipicamente brasileiro. Essa não foi minha primeira vez assistindo ao quarteto, então já esperava um momento marcante.

Logo em seguida, o Debrix assumiu o palco com uma proposta sonora que contrastava com o arrastado caos da banda anterior – mas sem perder o peso. Com uma sonoridade que costumo chamar de “rockão” (algo próximo do rock n’ roll tradicional), a banda do interior paulista mostrou maturidade e precisão técnica. O setlist incluiu faixas como “Stray”, “Push It!”, “Thunderstorm” e “Perigo!”, todas marcadas por variações rítmicas bem interessantes.

Um dos pontos altos foi “Nada Pra Falar”, com a banda mostrando grande entrosamento, alternando entre momentos introspectivos e explosões sonoras com naturalidade. O carisma do vocalista e o domínio técnico dos músicos deixaram claro: o Debrix, assim como o Treva, não estava ali apenas para abrir shows — mas pronto para liderar palcos também.
Helmet no palco
Com a plateia já envolvida e o Carioca Club completamente lotado, era chegada a hora do Helmet iniciar seu show em São Paulo. Às 22h, em ponto, a banda subiu ao palco e a espera foi recompensada logo nos primeiros acordes de “Wilma’s Rainbow”. A banda entrou com o peso de uma locomotiva, e o público respondeu à altura. O Helmet veio para cumprir a promessa: tocar Betty na íntegra, respeitando sua ordem original e, mais do que isso, seu espírito experimental e nervoso.
Page Hamilton, cérebro e coração do Helmet, dominou o palco com uma presença tranquila e determinada. Sua guitarra cortante, característica do som da banda, estava afiada como sempre — e sua voz, apesar dos anos, manteve-se firme, quase cirúrgica. Ele alternava entre momentos de introspecção contida e explosões de fúria sonora com uma naturalidade impressionante. A performance da banda foi coesa, potente e precisa, como se tivessem nascido naquele álbum.

A sequência de músicas do Betty ofereceu uma viagem completa pelas nuances de um dos discos mais imprevisíveis da cena alternativa dos anos 90. Faixas como “Milquetoast”, com seu groove dissonante, “Speechless”, com suas viradas sincopadas, e a instrumental jazzística “Beautiful Love” mostraram por que o álbum é considerado uma obra de arte fora da curva. A plateia, formada por fãs antigos e novos curiosos, reagia a cada mudança de andamento com entusiasmo – era possível ver olhos fechados, cabeças balançando lentamente ou moshpits esporádicos que surgiam nas músicas mais agressivas.
O baterista Kyle Stevenson deu um verdadeiro show à parte, mantendo os tempos quebrados com segurança e energia, enquanto o baixista Dave Case preenchia as faixas com linhas densas e precisas e MUITO PESADAS, mantendo o groove mesmo nos momentos mais caóticos, enquanto o guitarrista Dan Beeman se encarregava de deixar as linhas de guitarra do grupo ainda mais pesadas. Afinal, essa é a marca registrada de toda a trajetória do Helmet.

A banda estava entrosada, e o respeito pelo material original era evidente — mas sem perder a vivacidade e espontaneidade do ao vivo. Após fechar o álbum com a minimalista e estranha “Sam Hell”, o Helmet ainda brindou o público com músicas como “Bad Mood“, “Turned Out” e “Driving Nowhere“. Obviamente não poderiam faltar clássicos como “Unsung” e “In the Meantime” (esta encerrando o show), que fizeram a casa vir abaixo.
No fim, a apresentação do Helmet em São Paulo foi mais do que uma comemoração de aniversário de álbum. Foi uma reafirmação do impacto duradouro de uma banda que sempre preferiu desviar do caminho fácil, e uma noite para lembrar que o peso não está só no volume — mas na intenção, na entrega e na verdade de cada nota tocada.



